Metas de final de ano: fábricas de frustrações

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Me lembro que quando eu era adolescente, eu fazia um ritual todo dia 31 de dezembro. Ficava sozinha em meu quarto, em um momento quase místico, fazendo uma lista de coisas que eu gostaria que acontecessem no próximo ano: o que eu queria ter, quem eu gostaria de ser, o que eu gostaria de fazer. Também fazia parte desse ritual, retomar a lista feita no ano anterior e checar quais itens tinham se tornado real. Era quase como verificar o resultado de uma gincana mágica ou quantos números tinha acertado na loteria. O que eu tinha feito para atingir tudo aquilo que eu desejava? Provavelmente nada (fazia parte do jogo que a lista ficasse guardada na agenda o ano todo, eu não poderia consultá-la nos próximos 365 dias). Quando as demandas da vida adulta começaram a surgir, essa brincadeira perdeu o sentido e eu parei de fazê-la. E não foi por meio de uma resolução de final de ano. Simplesmente ela perdeu o sentido. E a verdade é que era bem doloroso olhar para aquela lista e perceber que quase a totalidade dela não tinha se tornado real.

Essas metas de final de ano que (desesperadamente) fazemos são fábricas de frustrações, pois: 1) em geral, elas não são realistas – são coisas que queremos e pronto – sequer nos perguntamos se temos os recursos para conseguir atingi-las; 2) ainda que sejam realistas, não traçamos o passo a passo de como chegar naquele objetivo; 3) não nos perguntamos quais são nossas motivações e intenções ao traçar tais objetivos (e é nesse ponto que parece que os problemas começam).

Entendo esse comportamento de traçar metas de final de ano como mais uma ação do nosso piloto automático. A maioria de nós, ao fazer essas metas, não se questiona sobre as suas motivações e intenções relacionadas àqueles objetivos que estão sendo traçados. Se realmente pararmos um momento para entrar em contato com essas intenções, talvez sentiríamos muita dor. Por exemplo, por que quero emagrecer? Para cuidar da minha saúde ou por que não me sinto amada por estar acima do peso e tenho a crença de que pessoas magras são mais dignas de amor do que pessoas obesas? Ou então por que quero um emprego melhor? Para ter um melhor salário, talvez. Mas, por que quero ganhar mais dinheiro? Para proporcionar mais conforto para mim e para a minha família ou por que tenho a crença de que pessoas que ganham mais têm mais sucesso e, consequentemente, são mais amadas e respeitadas pelas pessoas? Afinal de contas, quero ser magro, ter mais dinheiro, ou ser amado? Para saber um pouco mais sobre como estar consciente das nossas intenções, clique aqui.

Essas metas foram traçadas para consertar algo que eu acredito que esteja quebrado ou danificado em mim? Porque não podemos nos acolher e gostar de quem somos hoje? Isso não nos impedirá de sermos o que desejamos, mas olhar para o momento presente e não brigar com quem somos, sentimos e pensamos, nossas falhas, imperfeições, fracassos é o primeiro passo na direção da pessoa que queremos ser. Afinal de contas, esse é o paradoxo da aceitação: “Só quando me aceito como sou, posso então mudar” – Carl Rogers.

Vamos ser sinceros então. O fato é que metas de final de ano podem ser um “tiro pela culatra”. O que fazer então? Não fazer planos? Deixar a nossa vida à deriva, vivendo um dia de cada vez? Isso, além de não ser possível, também não seria muito útil. Nós precisamos de planos e objetivos de vida, precisamos de um norte, um direcionamento para a nossa caminhada. Precisamos de uma bússola. Sugiro então que troquemos as metas-fábricas-de-frustração por comportamentos direcionados pelos nossos valores.

Russ Harris, em “Liberte-se: evitando as armadilhas da procura da felicidade” define valores como 1) “os desejos mais profundos do nosso coração: como queremos ser, as ideias que defendemos e como queremos nos relacionar com o mundo à nossa volta” e 2) “princípios norteadores que nos guiam e motivam a prosseguir”. Nossos valores são a nossa bússola, o direcionamento que precisamos ter para viver uma vida plena, que valha a pena ser vivida. Se estamos, com a ajuda de uma bússola, nos direcionando para o leste, quando chegarmos ao leste, ela continuará apontando para o leste. Dessa forma, não baseamos nossa vida em aquisições e conquistas e sim nos valores que estão subjacentes a essas conquistas. Valor é algo que nunca termina.

O autor sugere algumas perguntas que podemos nos fazer no levantamento desses valores (e eles podem ser levantados em qualquer área da nossa vida – família, saúde, trabalho, relacionamentos, etc.: “No fundo, o que é importante para você?” “Como quer que sua vida aconteça?” “Que pessoa você quer ser?” “Que relações deseja desenvolver?” “Se não estivesse lutando contra seus sentimentos ou medos, no que usaria seu tempo e sua energia?” É essa conexão com as coisas, pessoas e situações que nos são importantes que dá sentido às nossas vidas.

“Caminhante, não há caminho, se faz caminho ao caminhar” – Antônio Machado

No contexto dos nossos valores, metas podem ser entendidas como comportamentos que nos colocam em direção aos nossos valores e a boa notícia é que nós podemos e devemos traça-las! Ufa! Podemos então aproveitar esse momento de descanso, de maior contato com nós mesmos e com as pessoas que nos são queridas, da simbologia de “fim de ciclo” e nos colocar em contato com nossos valores.

Esse ano vou fazer meu ritual da adolescência de uma maneira um pouco diferente (e eu te convido a fazer a mesma coisa). Vou me sentar confortavelmente em uma cadeira ou almofada, fechar os olhos, entrar em contato com as sensações do meu corpo e da minha respiração. Em seguida, vou imaginar o meu funeral e imaginar que estou ouvindo o que eu gostaria que as pessoas que eu mais amo falassem sobre mim. O que eu gostaria que elas pensassem? Posso também imaginar que o próximo ano será meu último ano de vida. Nessa situação, quem eu gostaria de ser e o que eu gostaria de fazer? Finalizo o exercício entrando novamente em contato com a minha respiração e com o meu corpo.

Em seguida, farei uma lista dos meus valores. E só então as metas, os comportamentos a curto, médio e longo prazo que preciso ter para me colocar em direção a esses valores. E não deixarei essa lista de metas fechada na agenda, vou revisitá-la quantas vezes precisar e mudá-la sempre que as contingências se alterarem. Afinal de contas, se a vida é um barco, meus valores a bússola, o comandante sou eu.

Tem uma meta de final de ano que vale a pena, a de que possamos “pegar leve” com nós mesmos nesse próximo ano, acolhendo, momento a momento, nossas necessidades, nossas falhas, e de fato vivendo norteados pelos nossos valores, independente dos resultados. Kristin Neff, uma psicóloga americana que faz pesquisas sobre autocompaixão, diz: “É como se quando algo dá errado, isso fosse anormal. Não era para ser assim. Algo deu errado, mas… é esse o caso? Algo dá mesmo errado? Algo é anormal? Não! Não, é assim que é a vida! A vida dá errado. Ninguém aqui assinou um contrato antes de nascer nesse mundo dizendo “eu serei perfeito”, “minha vida será perfeita” (…) Nada deu errado. Sim, é doloroso, mas é normal, é natural”.

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