Idolatria a Skinner

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Quais são as primeiras palavras que vem à sua cabeça (i.e., qual o operante intraverbal estabelecido) quando se pensa em análise do comportamento? Seria muito estranho se uma das primeiras palavras que lhe ocorresse não fosse “Skinner”.

Frequentemente tratamos analistas do comportamento, behavioristas e skinnerianos como sinônimos – mas será que é isso mesmo?

Durante a graduação em Psicologia, quando a análise do comportamento nos é apresentada, via de regra, Skinner é o único analista do comportamento estudado. Com o tempo, começamos e ler e citar Skinner, criamos um grupinho de colegas que também gostam de Skinner, lemos sobre a vida de Skinner, procuramos vídeos sobre Skinner no Youtube, organizamos Jornadas de Análise do Comportamento com um desenho do Skinner como símbolo, criamos memes com fotos do Skinner e até o defendemos de acusações que nos parecem descabidas em aulas de outras abordagens (quem nunca!?). Logo, apesar de jamais termos conhecido Skinner em pessoa, passamos a admirá-lo e até sentimos uma certa intimidade intelectual com o autor.

Nessa pequena comunidade verbal criada, são valorizados comportamentos como: ler extensivamente Skinner, recitar trechos de cabeça, mencionar uma nota de rodapé de determinada página, reclamar que a tradução do livro não é perfeita e até decorar o ano e periódico de publicação dos trabalhos de Skinner. Frequentemente, quanto mais alguém emite comportamentos como esses, mais chance ele tem de ter suas respostas acadêmicas reforçadas. Desta forma, estas contingências de reforçamento permitem que os membros dessa comunidade se especializem e conheçam cada vez mais a obra de um autor brilhante como o Skinner, cujas conjecturas a respeito do comportamento humano tem valor inestimável.

No entanto, esses critérios de reforçamento positivo são frequentemente acompanhados por critérios de punição de comportamento acadêmicos em direção a outros autores. E é aí que mora o problema. Além da produção dos subprodutos do controle aversivo (Sidman, 1989), punir a variabilidade comportamental acadêmica tem um efeito devastador a longo prazo: diminuir a probabilidade de sobrevivência desta cultura, no caso, a análise do comportamento.

Grosso modo, uma prática cultural que é útil para resolver os problemas enfrentados por uma cultura tem mais chances de se repetir ao longo das gerações. Talvez a principal contribuição do cientista comportamental são regras ou leis do comportamento, que tem o objetivo de orientar efetivamente a ação dos membros daquela cultura. É importante ressaltar que a utilidade de uma regra tem pouco a ver com o quanto ela é coerente com alguma teoria sobre o comportamento humano.

Depois desta extensa história na graduação, é com grande surpresa que vemos que existem diversos autores que se identificam com o behaviorismo e com a análise do comportamento de forma geral, mas que não se intitulam como skinnerianos. Talvez a melhor evidência disso esteja nos recentes volumes I e II da coleção “Behaviorismos”. A coleção conta com 21 capítulos, cada um com a apresentação de um autor que tem uma obra convergente com a do Skinner, ainda que não de forma idêntica. Nesta coleção, há a apenas um capítulo que discorre sobre a obra de Skinner. O fato de que ainda será lançado um terceiro volume da série (com cerca de doze capítulos), nos mostra que a corrente filosófica do behaviorismo é composta por diferentes contribuições, das quais a perspectiva skinneriana é apenas parte dela.

Vale destacar que o incentivo à busca por conhecimentos novos não é o mesmo que um incentivo ao ecletismo teórico. Ter um embasamento filosófico sólido, consistente e coerente é uma das marcas mais importantes de uma prática que pretende se perpetuar ao longo de diversas gerações. Não é possível admitir-se behaviorista e psicanalista ao mesmo tempo sem cair em contradições que provocam grande intranquilidade conceitual.

Por outro lado, um ecletismo técnico pode ser de enorme valia, tanto na experimentação quanto na prestação de serviços. Se algo foi provado útil para a resolução de problemas que: (a) os analistas do comportamento ou não conseguiram resolver até hoje ou; (b) não resolvem com tanta eficácia quanto outros profissionais – por que não conhecer mais sobre isso? Uma tradução comportamental dessas práticas permite que os analistas do comportamento se beneficiem do conhecimento produzido sem adotar as explicações conceituais de outras áreas. Ampliando o repertório de resolução de problemas e aumentando a variabilidade daquela cultura sem cair em contradições.

Segundo Leonardi (2017)

“Se a análise do comportamento é capaz de se apropriar dos dados empíricos acerca da eficácia de determinados procedimentos que foram produzidos em outras tradições, faz-se necessária uma mudança de atitude por parte dos analistas do comportamento, que, segundo diversos autores da área (e.g., Augustson, 2002; Critchfield, 2014; Glenn, 1993), têm assumido uma postura de autossuficiência e difamado publicamente pesquisas de outras abordagens teóricas.” (p.221)

E daí que esse experimento sobre preconceito é da área da psicologia social se conseguirmos adaptar o procedimento e replicar esses dados? E daí que essa intervenção com crianças vem da psicologia do desenvolvimento se conseguirmos entender as contingências de reforçamento envolvidas na intervenção? E daí que essa pesquisa clínica usa somente medidas de resultado neurológicas se o procedimento reduz o sofrimento das pessoas e pode ser melhorado se acrescentando uma medida comportamental? E daí que o protocolo de reestruturação cognitiva não é nada comportamental se ele tem fortíssimas evidências de eficácia e pode ser descrito em termos de comportamento governado por regras?

Espero que o futuro da análise do comportamento seja um futuro de ciência, não de doutrina, como é comum na psicologia. Como uma cria behaviorista, talvez ironicamente, recorro a uma citação do nosso caro Skinner para concluir este artigo:

“Os dados, não os cientistas, falam mais alto” (1953, p.13).

Referências:

Augustson, E. M. (2002). An overview of some current challenges within the field of clinical behavior analysis. The Behavior Analyst Today, 3, 265-269.

Critchfield, T. S. (2014). Punishment: Destructive force or valuable social “adhesive”? Behavior Analysis in Practice, 7, 36-44.

Glenn, S. S. (1993). Windows on the 21st century. The Behavior Analyst, 16, 133-151.

Leonardi, J. L. (2017). Reflxões sobre a terapia analítico-comportamental no contexto da prática baseada em evidências e possibilidades de atuação em análise do comportamento clínica. Acta Comportamentalia: Revista Latina de Análisis del Comportamiento25215-230.

Skinner, B. F. (1965). Science and human behavior. New York, Estados Unidos: The Free Press. (Trabalho original publicado em 1953.)

Sidman, M. (1989). Coercion and its fallout. Boston, MA: Authors Cooperative.

Leitura recomendada:

De Rose, J. C. (1999). O que é um Skinneriano? Uma reflexão sobre mestres, discípulos e influência intelectual. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, 1, 67-74.

Mais informações sobre a coleção “Behaviorismos”:

http://paradigma.nemag.com.br/Paginas/Loja.aspx?Categoria=1&Codigo=1208

http://paradigma.nemag.com.br/Paginas/Loja.aspx?Categoria=1&Codigo=1209

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Cainã Gomes

Formado em Psicologia pela PUC-SP e especialista em Clínica Analítico-Comportamental. É pesquisador do Paradigma – Centro de Ciências do Comportamento, onde também atua como terapeuta. Tem experiência na área de Análise do Comportamento, com ênfase com Comportamento Governado por Regra e RFT (Relational Frame Theory). Foi coordenador da Comissão de História de Análise do Comportamento da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental (ABPMC) na gestão 2015-2016. Além disso, é mestrando do programa de Psicologia Experimental: Análise do Comportamento da PUC-SP com período sanduíche na Universidade de Gent, sob orientação do Prof. Dermot Barnes-Holmes. Está cursando o Intensive Training em DBT do Behavioral Tech, Linehan Institute.

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