Olha o castigo! Os riscos no uso inapropriado de estratégias de mudança de comportamento

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O texto de hoje aborda estratégias que contribuem (ou não) para a promoção da saúde mental e aprendizado, seja de pacientes adultos com graves problemas comportamentais ou de crianças aprendendo a viver. Já divulgando, em breve faremos uma publicação complementar a essa específica sobre o uso de punição pelos próprios pacientes com desregulação emocional.

Vamos direto ao assunto. Há muito tempo que pais, educadores e terapeutas discutem sobre a melhor forma de enfrentar comportamentos problemáticos. É necessário ou contraindicado usar punição para educar?

Punição pode assumir vários contornos. Uma palmada em uma criança seria uma punição, mas a perda temporária de algo prazeroso para a criança, também seria considerada punição, porém sem um caráter físico. Em psicoterapia, poder-se-ia usar uma comunicação fria como uma forma de punição, ou a não comunicação temporária, por exemplo.

Uma coisa é fato: qualquer pessoa, seja adulto ou criança, é influenciada pelas consequências de sua ação. Se sinto-me bem com algo, poderei repetir o feito – se houver um “alívio”, também já vale para um possível reforço. Se sinto-me mal com algo, provavelmente não buscarei essa experiência

novamente. De maneira simplificada, isto resume o princípio do “reforçamento”, um dos princípios que rege o comportamento humano e, portanto, fundamental na mudança de comportamento. Para aprofundar a compreensão do reforço em psicoterapia, sugiro esse texto aqui.

Ok, aí muitas pessoas pensam que as terapias comportamentais são “duras” ou “mecânicas” porque se baseiam em conceitos como o reforço (e a punição!). Sim, as terapias comportamentais apoiam-se, e muito, nestes conceitos. Mas não de forma simplista. Embora mais difícil de observar, as terapias comportamentais chamam de “comportamento” não apenas o que é observável externamente, mas também o que está acontecendo internamente ao indivíduo, aquilo que só ele próprio pode observar: os pensamentos, as memórias, as emoções, por exemplo. Também, um aspecto pode levar a outro, como os pensamentos que podem levar a determinadas emoções (os terapeutas DBT avaliam minuciosamente tudo isso em uma análise em cadeia). Para ter uma boa compreensão do que acontece, terapeutas precisam levar em consideração tudo o que está em jogo influenciando um comportamento problema. Já no que diz respeito a modificar comportamentos, existem muitos recursos possíveis e a punição nunca é a opção preferencial (Linehan, 2010).

Têm boa influência sobre a mudança de comportamento: os reforços positivos (potentes sobretudo onde há afeto), a modelação (aprender observando a ação de outra pessoa), a modelagem (ir aproximando-se passo a passo do comportamento desejado), entre outras estratégias. Gerenciar os principais reforçadores de um determinado comportamento (manejo de contingências) é difícil, mas devemos buscar compreender o que, afinal, está mantendo um dado comportamento e então precisamos lidar objetivamente com isso. Lembrando sempre que, o que tem potencial de reforço não são tanto prêmios materiais, mas sim o afeto presente nas relações. O que a pessoa sente, suas emoções, são um importante fator a influenciar comportamentos.

Mas afinal, qual o problema em usar a punição para melhorar um comportamento?Na educação de crianças, uma parentalidade competente promove as habilidades para enfrentar as dificuldades. É o mesmo que se destaca no modelo de tratamento da DBT: construção de habilidades para enfrentar os “perrengues” da vida. Promover comportamentos habilidosos é o caminho primordial, portanto.

Pode-se destacar quatro problemas principais no uso da punição como forma de ensinar (Holden et. al, 2017). Esses problemas não são novidade para terapeutas comportamentais, que sabem muito bem a complexidade que é promover a mudança de comportamentos humanos. Vamos à eles:

  • O uso repetido de punições envolvendo a retirada ou perda de algo tende a ter um efeito em curto prazo, mas também poderá diminuir a motivação e o bem-estar geral do indivíduo. Levando em consideração a teoria da autodeterminação, sabemos que todas as pessoas têm a necessidade inata de sentir-se competentes, autônomas e conectadas com outros. Por isso, intervenções embasadas demais em estratégias que envolvam punição tendem a não funcionar.
  • A punição pode não focar no problema original. Um comportamento que aparenta ser “desafiador opositivo” ou uma “recusa em cooperar” pode refletir um problema muito mais complexo. Por essa razão Linehan enfatiza a necessidade de não julgar o comportamento dos pacientes e nem supor suas motivações, mas sim, conhecer a função de cada comportamento, olhando o antes, o durante e o depois. Holden et al (2017) usam o exemplo de uma criança que não fez a tarefa : não fez porque não entendeu o que era para fazer? Porque não se sente capaz? Porque sente ansiedade ao antecipar o erro? Tem algum problema de aprendizagem? Está reagindo a um estresse emocional ocorrido no dia? É preciso compreender, antes de mais nada.
  • Outro problema é que a punição leva à evitação. Holden et al (2017) citam Skiner (1972, p. 81): “Uma pessoa que tem sido punida é não somente menos inclinada a se comportar de determinada maneira; ela aprende a como evitar a punição”. E dai poderá vir um quarto problema.
  • A pessoa tratada com punição poderá aprender não só a evitar a ação que gera o efeito punitivo, mas também a evitar o próprio “punidor”, o qual pode se tornar aversivo em razão de um processo de pareamento entre estímulos. Chamamos de aversivo tudo aquilo o que a pessoa tende a evitar ou busca se livrar. Em geral, qualquer coisa nociva, desagradável, inclusive as dores físicas ou emocionais são aversivas . Assim, se um pai ou terapeuta ficar pareado com “punição”, já não se pode contar com uma relação de suporte e confiança, aspecto necessário para qualquer aprendizado.

Vemos como é necessário conhecimento e reflexão para usar essas “forças” que regem os comportamentos de uma maneira favorável à aquisição de comportamentos habilidosos e efetivos.

Para finalizar, quero destacar que não existe uma parentalidade perfeita, tampouco uma terapia magistral. Pais, educadores, terapeutas comportamentais (e de outras abordagens), todos são regidos pelos mesmos princípios e usam todas as formas de influenciar outros comportamentos sem nem mesmo darem-se conta, muitas vezes. Reforçamos, punimos, ensinamos, mostramos… Não se trata de abolir nenhuma dessas formas de agir, mas sim de compreendê-las e analisá-las para então poder dar preferência à abertura de novos caminhos pelo afeto.

Referências:

Holden, G. W., Grogan-Kaylor, A., Durrant, J. E. & Gershoff, E. T. (2017) Researchers Deserve a Better Critique: Response to Larzelere,
Gunnoe, Roberts, and Ferguson, Marriage & Family Review, 53:5, 465-490, DOI: 10.1080/01494929.2017.1308899

Linehan, M . M. (2010). Terapia cognitivo-comportamental para o transtorno da personalidade borderline. (R. C. Costa & M. O. Pereira, Trad.). Porto Alegre: Artmed. (Original publicado em 1993).

Skinner, B. F. (1972). Beyond freedom and dignity. New York: Springer.

 

 

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