FAP – Conexão social e a relação terapêutica como contexto de mudança

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Este texto consiste em um resumo do capítulo 1, do livro “Functional Analytic Psychotherapy Made Simple: A practical guide to therapeutic relationships”.

Pare por alguns instantes e pense sobre as interações e os relacionamentos mais importantes que você teve na vida, sobre aqueles que tiveram mais proximidade e conexão, que foram mais alegres e inspiradores. Também pense nos relacionamentos que foram mais difíceis e dolorosos. Como todas essas experiências moldaram você? Que lições você obteve com elas? Que palavras de outra pessoa você nunca esquecerá? Que hábitos aprendidos no passado você repete hoje?

Sabe-se que as experiências interpessoais têm um impacto grande na formação de cada pessoa, positivamente e negativamente. Isto quer dizer que problemas com a conexão social podem produzir muito sofrimento. Apesar de a tecnologia atual permitir relações com muitas pessoas, as relações que de fato nos moldam são aquelas mais próximas, com mais conexão, tais como amigos na infância e adolescência, parceiros românticos ou demais companheiros na vida adulta, familiares, etc. Sobre esse aspecto, o leitor interessado pode consultar mais informações no texto Consciência, coragem e amor nos relacionamentos.

Portanto, o ser humano precisa de relações saudáveis, permeadas por intimidade e conexão. A ciência comportamental contextual sugere três habilidades como relevantes para promover tal conexão: 1) a tomada de perspectiva, que consiste na capacidade de entender a perspectiva do outro; 2) a empatia, que se refere à capacidade de sentir o que o outro sente; e 3) a aceitação, ou vontade de experimentar os sentimentos que se originam na perspectiva do outro.

Quanto à intimidade, consiste em compartilhar pensamentos e sentimentos vulneráveis que não se compartilha com qualquer um. O suporte social e a participação social também são considerados relevantes, sendo o primeiro referente à existência de pessoas que fornecem apoio quando necessário, e o segundo referente ao senso de ser parte de uma comunidade maior, como um grupo de amigos, uma rede de colegas, um grupo religioso, um clube ou uma equipe de esportes, ou uma organização voluntária.

Dificuldades com intimidade e conexão social frequentemente estão relacionadas a transtornos psicológicos (Barnett & Gotlib, 1988; Beck, 2010; Horowitz, 2004; Leach & Kranzler, 2013; McEvoy, Burgess, Page, Nathan, & Fursland, 2013; Pettit & Joiner, 2006; Pincus, 2005 apud Kanter, Tsai & Kohlenberg, 2017). A noção de causalidade provavelmente contempla ambas as direções: estressores sociais facilitam o estresse psicológico, e o estresse psicológico facilita o estresse social. Como resultado, muitos clientes que procuram psicoterapia não estão apenas lutando com eles mesmos, mas estão lutando com as outras pessoas do seu convívio, e muitas vezes têm uma longa e dolorosa história com essa luta.

Portanto, compreender a relação entre conexão social e problemas psicológicos, e como essa relação interfere no bem-estar, demanda uma conceituação muito particular da função e do significado da relação terapêutica. A relação terapêutica é uma fonte de influência no comportamento do cliente exercida no aqui e agora. Isto quer dizer que quando os clientes buscam terapia, e especialmente quando seus problemas psicológicos envolvem dificuldades relacionadas com outras pessoas, a relação terapêutica apresenta-se como uma oportunidade para observar as dificuldades interpessoais do cliente e intervir sobre elas.

Por exemplo: Um cliente que costuma criticar os outros com dureza o faz com o terapeuta. O terapeuta se retira ou responde defensivamente. O cliente, por sua vez, aumenta suas críticas e, eventualmente, não comparece à terapia. Essa responsabilidade, no entanto, também é uma oportunidade, uma vez que o terapeuta pode interromper padrões sociais disfuncionais como esse. O leitor interessado nesse assunto, pode consultar o texto O modelo ACL e a mudança de comportamentos na vida do cliente.

Deste modo, a relação terapêutica possibilita ao terapeuta observar ao vivo as questões interpessoais dos clientes, e escolher se envolver com elas terapeuticamente em vez de simplesmente recapitular o que os clientes experimentam com os outros fora da sessão. O resultado pode ser um ciclo virtuoso no qual os clientes melhoram o relacionamento com o terapeuta e, por conseguinte, podem melhorar suas relações com os outros, contribuindo para o bem-estar interpessoal e pessoal.


Figura 1. Representação do ciclo virtuoso da relação terapêutica na psicoterapia analítica funcional (FAP).[i]

A Figura 1 permite visualizar o funcionamento do ciclo virtuoso: 1) A relação terapêutica é uma interação natural, portanto, seu funcionamento exerce efeito sobre os comportamentos do terapeuta e do cliente, um sobre o outro. 2) Por ser uma interação natural, diz respeito ao que acontece no aqui e agora, no momento em que terapeuta e cliente estão juntos na sessão de terapia. 3) É no aqui e agora que o terapeuta ajuda o cliente a construir comportamentos interpessoais alternativos, evocando-os e reforçando-os naturalmente. 4) Os comportamentos alternativos aprendidos devem ocorrer também, e principalmente, nas relações fora do consultório, o que significa que o terapeuta deve promover a generalização deste repertório/destes comportamentos, de modo que o cliente os execute com outras pessoas em sua vida diária, possibilitando melhorias nessas relações e bem-estar em geral.

Esse ciclo virtuoso contempla a ideia de que se aprende melhor por meio da experiência (aprendizagem experiencial) do que por meio da recepção passiva de informações (aprendizagem por regras). Isso não quer dizer que falar pode ser menos importante do que experimentar um desafio e praticar um comportamento diferente. A aprendizagem experiencial em uma relação de terapia exige que os terapeutas estejam abertos e sejam diretos sobre o que está acontecendo no relacionamento, o que envolve autenticidade e autorrevelação.

Autorrevelação significa revelar aspectos mais vulneráveis ​​de nós mesmos ou das nossas reações aos clientes. Por exemplo, podemos expressar nossa frustração para um cliente que frequentemente se atrasa para as sessões, e que tende a evitar o contato com as consequências negativas de suas ações.

Por fim, como guia para as intervenções por meio da relação terapêutica, a FAP se vale de análises funcionais de contingências intrassessão e extrassessão. Elas permitem entender o que seria um comportamento interpessoal problemático do cliente e, a partir disso, o que seria um comportamento-alvo. Permitem, também, que o terapeuta analise funcionalmente seu comportamento em interação com o comportamento do cliente, facilitando a identificação do impacto que as ações do terapeuta têm sobre o cliente, e do impacto que as ações do cliente têm sobre o terapeuta.

Portanto, a análise funcional é uma ferramenta fundamental para que o terapeuta: 1) faça suas intervenções experienciais de forma estratégica, tendo clareza de quais são as dificuldades do cliente e quais são as metas terapêuticas, e 2) tenha clareza sobre quais dos seus comportamentos evocam dificuldades e melhorias do cliente, possibilitando a ele maior conhecimento sobre como intervir na relação terapêutica para promover o progresso do caso clínico.

 

REFERÊNCIA

Holman, G., Kanter, J., Tsai, M., & Kohlenberg, R. (2017). Social Connection and the Therapeutic Relationship as Contexts for Change. In. G. Holmam, J. Kanter, M. Tsai, R. Kohlenberg. (Eds.), Functional Analytic Psychotherapy Made Simple: A Practical Guide to Therapeutic Relationships. (pp. 13-26). Oakland, New Harbinger Publications.

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[i]A Figura 1 foi construída pela autora deste texto, portanto, não consta no capítulo 1 sobre o qual trata este resumo.

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Mônica Camoleze

Psicóloga (CRP 08/15023), graduada pela Universidade Positivo. Especialista em terapia analítico-comportamental pelo Instituto de Análise do Comportamento de Curitiba. Formada em terapia comportamental dialética, pelo Dialectica Psicoterapia Baseada em Evidências. Mestre em psicologia pela Universidade Federal do Paraná, com pesquisa sobre psicoterapia analítica funcional. Em formação em psicoterapia analítica funcional e terapia de aceitação e compromisso pelo Instituto Continuum. Atua como psicóloga clínica em Curitiba, atendendo crianças, adolescentes, adultos e casais.

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