Características específicas do Treinamento de Habilidades na adolescência

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Que a adolescência é considerada a fase do desenvolvimento humano mais complexa por vários teóricos disso não temos mais nenhuma questão a levantar, assim como, a justificativa de ser a fase de maiores mudanças, principalmente físicas e sociais. Essas mudanças criam particularidades de cada indivíduo na sua interação com o ambiente em busca de independência, autonomia e maturidade.

As questões que levanto neste texto são as características específicas de adolescentes que apresentam dificuldades nesta fase do desenvolvimento, que apresentam desregulação emocional e comportamental. Usam a fuga e esquiva das emoções aversivas e, consequentemente, de situações que potencialmente podem gerar essas emoções. Para os estudiosos da Terapia Comportamental Dialética (DBT) na adolescência (Rathus e Miller, 2015), o tratamento perpassa em reconhecer a contribuição da predisposição biológica e experiências de aprendizagem que implicam  em comportamentos ineficazes, levando a um foco no ensino de habilidades necessárias para o adolescente modular as emoções intensas e, consequentemente, diminuir os comportamentos dependentes dessa emoção, assim como, aprender a validar suas próprias emoções, pensamentos e ações.

A desregulação emocional e comportamental muitas vezes contribui para as dificuldades de um adolescente em estabelecer um sentido estável de autoeficácia e formar relacionamentos saudáveis e estáveis ​​com colegas e membros da família. Além disso, comportamentos problemáticos impulsivos ou evasivos, muitas vezes são consequências da própria desregulamentação emocional ou da tentativa ineficaz de regular uma emoção. Miller e Rathus (2000) sugerem cinco conjuntos de habilidades a serem desenvolvidas que correspondem diretamente aos cinco principais problemas associados à desregulação emocional em adolescentes. São elas:

Habilidades de Mindfulness: aumentar sua autoconsciência e seu controle atencional, reduzindo o sofrimento e aumentando o prazer;

– Habilidades de Tolerância ao Mal-estar: ferramentas para reduzir a impulsividade e aceitar a realidade tal como é;

– Habilidades de Regulação Emocional: ferramentas para  aumentar as emoções positivas e reduzir as emoções negativas;

– Habilidades de Eficácia Interpessoal: ferramentas para melhorar e manter relacionamentos entre pares e familiares além de  construir autorrespeito;

– Habilidades do Caminho do Meio: reduzir o conflito familiar através do ensino de validação, princípios da mudança de comportamentos e pensamento, assim como melhorar a estrutura do dialógico.

 

O treino de habilidades adveio sobre os fatores que influenciam os comportamentos problemáticos de adolescentes, incluindo comportamentos suicidas: (1) falta de importantes capacidades de eficácia interpessoal, autorregulação e tolerância ao mal-estar; e (2) fatores pessoais e ambientais que inibem o uso dessas habilidades que os adolescentes já podem ter. Esses fatores pessoais e ambientais também interferem no desenvolvimento de novas habilidades e sua eficácia, além de reforçar comportamentos disfuncionais (Rathus e Miller, 2015).

Em um estudo realizado por Miller e colaboradores (2000), no qual as habilidades foram avaliadas pelos próprios adolescentes como úteis, incluíam habilidade de Tolerância ao Mal-estar e três habilidades de Mindfulness. Todas as quatro habilidades envolvem tolerar pensamentos e sentimentos desconfortáveis ​​sem tentar ativamente alterá-los. Os adolescentes do estudo, parecem achar essas habilidades mais úteis do que as habilidades orientadas para a mudança (regulação emocional e as habilidades de eficácia interpessoal). Essas habilidades que foram apontadas pelos adolescentes como as mais úteis para ajudar na melhora da conformidade geral com o tratamento. Além da habilidade de Tolerância ao Mal-estar está relacionada à melhora na área de eficácia interpessoal (Miller et al., 1997).

Isso pode ser explicado pelo fato de um dos objetivos da intervenção na DBT com adolescentes ser ajudar os pacientes a reconhecer e aceitar radicalmente as limitações da qualidade do relacionamento com seus pais. Reconhecendo a necessidade de buscar relacionamentos saudáveis ​ (por exemplo, professores e colegas de escola) para o desenvolvimento dessa habilidade.

Já quando os adolescentes faziam referência a algum aspecto negativo do grupo de habilidades, foram as Habilidades de Mindfulness e Regulação Emocional, mais especificamente as de participação e resolução de problemas que menos agradaram aos adolescentes. Uma possível explicação para este achado diz respeito à Teoria Biosocial da DBT, onde os clientes têm vulnerabilidades emocionais caracterizadas por alta sensibilidade e alta reatividade às emoções (Linehan, 1993). Portanto, certos pacientes que começam a “participar” (por exemplo, expor-se em uma atividade) podem inicialmente se desregularem emocionalmente. Embora esta experiência possa ser aversiva em um primeiro momento, essa exposição se torna terapêutica (Foa e Kozak, 1986). É de grande importância para lidar com essa problemática que eles aprendam habilidades de Tolerância ao Mal-estar e Aceitação Radical, sendo consideradas estas, as habilidades mais importantes. No entanto é necessário que fique claro que se os adolescentes compreenderam completamente o significado das habilidades, por isso o terapeuta individual ao trabalhar com a generalização das habilidades pode perceber essa falha e avaliar a utilidade e, se necessário, apresentá-las novamente ao cliente.

Ao reconhecer algumas das dificuldades para tratar adolescentes que de alguma forma apresentaram experiências de um ambiente invalidante, assim como falta de atenção ao ensino e fortalecimento de novas habilidades, é importante criar um ambiente propício ao seu uso com a ajuda do terapeuta individual. Outro importante objetivo do terapeuta individual é motivar o adolescente a ir ao grupo de habilidades para atingir os principais objetivos ou seja,  melhorar as questões comportamentais e garantir que novas competências sejam aprendidas, para que na terapia individual consigam trabalhar a generalização para o ambiente fora da sessão (Dimeff e Linehan; 2001).

Para motivar os adolescentes ao tratamento, o terapeuta baseia-se em princípios de Aceitação Radical e Validação das capacidades do paciente e, juntos, criam uma dialética para aceitar o estado atual e buscar componentes de motivação para a mudança, enquanto as técnicas de validação ajudam o terapeuta a cultivar confiança no adolescente.

Então, com essas estratégias alinhadas, o terapeuta individual usa a aprendizagem das habilidades necessárias para cada paciente a fim de construir mudanças positivas, para assim, serem praticadas e monitoradas no cotidiano. No tratamento com a DBT são utilizadas três etapas para o desenvolvimento de habilidades: (1) estabilizar o adolescente e alcançar um controle comportamental, especialmente no que diz respeito a comportamentos de interferência de vida, no tratamento em si e na qualidade de vida, (2) cultivar experiências emocionais não-traumáticas nas interações futuras, (3) manter o progresso já conquistado e reduzir os problemas do momento atual, e (4) resolver uma sensação de incompletude e encontrar satisfação e alegria (Miller e Rathus, 2000; Rathus et al., 2015).

É importante classificar junto ao adolescente quais conjuntos de habilidades serão necessárias para cada caso. Por exemplo, com adolescentes suicidas todas as habilidades do programa de DBT são necessárias (Salsman e Arthur, 2012). No entanto, outros pacientes com menor complexidade talvez não necessitem passar por todas as habilidades e sim, identificar junto com o terapeuta individual que ao realizarem uma análise em cadeia de quais comportamento problema requerem novas habilidades. Porém, a habilidade de caminhar pelo caminho do meio é um exercício para ajudar os adolescentes a equilibrar as ideias de aceitação e mudança, reconhecendo todas as experiências e mudanças como reais e naturais que, são específicas para essa fase do desenvolvimento, sendo fundamental para todos os adolescentes aprenderem esse domínio (Christensen et al., 2009). Como tal, essas habilidades são projetadas e implementadas para permitir que os adolescentes gerenciem problemas específicos.

Outra forma de usar o Treinamento de Habilidades é com programas de prevenção aos transtornos mentais para adolescentes com componentes de risco, caracterizados por indicadores leves ou iniciais de necessidades de saúde mental (por exemplo, dificuldades escolares, problemas de atenção, conflito familiar e depressão ou ansiedade), podendo serem aplicadas nas escolas ou nas configurações clínicas (Mazza et al., 2016).

O trabalho para a construção de uma vida com valor para os adolescentes está diretamente interligado às capacidades de conquistar e manter boas relações, assim como, seguir em busca de sentido para seus objetivos. Para que isso ocorra, é necessário regular emoções, tolerar desconfortos, gerenciar conflitos, conquistar relacionamentos saudáveis e capacidade de focar. O Treino de Habilidades para adolescentes necessita de algumas adaptações tanto nos folhetos quanto nos exemplos, simplificando ao máximo a forma de aprendizado para que o processo seja de forma leve e divertida tanto para os adolescentes quanto para os pais. Transforma-se assim o convívio familiar, no momento do grupo, como algo agradável e se surgir conflitos todos estão no mesmo caminho para achar o caminho do meio.

Referências:

CHRISTENSEN, K.; RIDDOCH, G.; HUBER, J. Dialectical behavior therapy skills, 101 mindfulness exercises and other fun activities for children and adolescents: A learning supplement.   Bloomington: Author House, 2009.

FOA, E. B.; KOZAK, M. J. Emotional processing of fear: exposure to corrective information. Psychol Bull, v. 99, n. 1, p. 20-35, Jan 1986. ISSN 0033-2909. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/2871574 >.

LINEHAN, M. Cognitive-behavioral treatment of borderline personality disorder. .  New York: Guilford, 1993.

MAZZA, J.  et al. DBT Skills in Schools: Skills training for emocional problem solving for adolescents.  New York: The Guilford Press, 2016.

MILLER, A.; RATHUS, J. Dialectical behavior therapy: Adaptations and new applications. . Cognitive & Behavioral Practice, v. 7, p. 420-425,  2000.

MILLER, A.  et al. Dialectical behavior therapy adapted for suicidal adolescents. Journal of Practical Psychiatry and Behavioral Health, v. 3, p. 78-86,  1997.

RATHUS, J.  et al. Treatment Acceptability Study of Walking The Middle Path, a New DBT Skills Module for Adolescents and their Families. Am J Psychother, v. 69, n. 2, p. 163-78,  2015. ISSN 0002-9564. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26160621 >.

RATHUS, J.; MILLER, A. DBT skills manual for adolescents.  Nova York: The Guilford Press, 2015.

SALSMAN, N.; ARTHUR, R. Adapting dialectical behavior therapy to help suicidal adolescents. Current Psychiatry, v. 10, n. 3, p. 18-23,  2012.

 

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