Negligência: o papel do psicólogo neste contexto

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“- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante.
– Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa… – repetiu ele, para não se esquecer. – Os homens esqueceram desta verdade – disse ainda a raposa. – Mas tu não deves esquecer (…) Tu és responsável pela tua rosa…  – Eu sou responsável pela minha rosa… – repetiu o princepezinho, para não esquecer” (Saint-Exupéry, 1952/2015, p.74)

A negligência a qual busca-se enfatizar, revela-se no âmbito afetivo, humano, social. Podendo ser definida de forma mais objetiva segundo Houaiss (2010, p.543):“Negligência – falta de cuidado ou atenção, indiferença ou desinteresse”.

Considerando as práticas sociais vigentes, é possível observar padrões sociais como: casais que trabalham em torno de 8h diárias, que tem filhos, com férias de 15 dias por ano, casa para cuidar, animais domésticos e que são integrantes de grupos sociais (de amigos, igreja, profissional, entre outros). Para cada um dos papéis descritos há que se dedicar de diversas formas, investindo tempo, atenção, cuidado, paciência, dinheiro. Enfim, há um investimento pessoal variado para que sejam mantidas as relações interpessoais e os bens adquiridos durante a vida (carro, casa, entre outros).

De forma prática, o que há de mal nisso? Muitas pessoas podem sentir-se realizadas dentro deste padrão, conseguindo administrar seus papéis sociais com muita felicidade, e sentindo-se realizado com todos os papéis que assumiu, apesar da sobrecarga de tarefas do dia a dia. Não há uma crítica que deva ser feita neste sentido.

O problema pode surgir e instalar-se neste padrão quando, por exemplo, priorizam-se outras tarefas diárias, e os pais deixam de comportar-se de forma afetiva em ambiente familiar, não oferecendo a seu (s) filho (s/a/as) e/ou parceiro (a): carinho, atenção, limites, presença ativa.

O papel dos pais e cuidadores não se restringe a oferecer subsídios monetários, celulares, tabletes, e cursos extracurriculares ao menos 3 vezes por semana. E, mais uma vez, oferecer tudo isso a um filho não é um problema. Ter a possibilidade de oferecer um ótimo acesso educacional, cultural e afetivo a um filho, é incrível!

Durante a construção e manutenção das relações pessoais, é importante atentar-se às mudanças de vida enfrentadas de forma pessoal e familiar, perguntando a si mesmo: Quais são as minhas prioridades? Quais as prioridades do(a) meu parceiro(a)? O que desejamos como família? Depois de responder a estas perguntas, com seriedade, perguntar-se: O que estamos fazendo por estas prioridades hoje? O que podemos fazer por elas? Perguntas como estas demonstram autoconhecimento, conhecimento do outro e delimitam nossos valores pessoais, para o que desejamos nos dedicar e o que não deve ser sobrevalorizado por nós enquanto família por não atender as nossas prioridades.

E se por algum motivo, alguma das partes não conseguir responder a estas perguntas, há que se dedicar um tempo especial para explorar qual o motivo do desconhecimento destas respostas e o que pode ser feito a respeito disso. Quando necessário, o trabalho psicológico voltado a casais poderá elucidar as questões por de trás das dificuldades relatadas por um ou por ambos.

O mesmo pode ser observado quando fala-se sobre os filhos, pais presentes em sua educação e em sua vida de forma geral, saberá responder a perguntas como: Qual o nome do(a) professor(a) de seu/sua filho(a)? Qual sua cor favorita? Qual o nome de seu/sua melhor amigo(a)? Qual sua comida predileta?

Não é errado que os pais busquem informação sobre os filhos com a escola, com a babá, com os parentes que ficam cuidando dos filhos enquanto os pais trabalham. Mas, é importante evidenciar a importância da afetividade dos pais perante aos filhos, e principalmente, o entendimento da responsabilidade dos pais na construção de seres humanos. De forma específica, é necessário perceber que o carinho, amor e atenção dos pais não pode ser compensado pelo afeto de outras pessoas ou por algum brinquedo novo.

Durante um estudo, feito no início do Sec. XX, foi possível observar o que era mais importante no desenvolvimento de um bebê: alimento ou “calor materno”. Harlow, o pesquisador, criou um filhote órfão em uma sala onde existiam duas esculturas de “mães” sendo uma de pano, e a outra de arame. Na mãe de arame, havia uma mamadeira com leite morno, e na outra mãe (de pano) não tinha nada. Observou-se que o filhotinho de macaco só ia até a mãe de arame para alimentar-se e passava a maior parte do tempo agarrado à mãe de pano. Em outros momentos, quando eram produzidos som estridentes, o filhote mais uma vez agarrava-se à mãe de pano (Gomide, 2014).

Gomide (2014) ainda afirma que no estudo de Harlow ficou evidente que mais importante que o alimento, seria o “calor” materno. Contudo, essa mãe de pano não oferecia atenção, carinho, educação, limites, contato visual – era uma mãe negligente.

A negligência caracteriza-se pela desatenção, ausência, descaso, omissão, falta de amor. E este é um dos principais fatores desencadeadores de comportamentos antissociais, ligado ao uso de álcool e outras drogas e de adolescente com comportamento infrator. (Gomide, 2014 p. 69)

É previsto em lei a proteção da criança de situações negligentes, situações estas que como evidenciado anteriormente, trazem danos efetivos a sua vida social e saúde psicológica. O Art. 5º do Estatuto da Criança e do Adolescente refere-se especificamente a esta situação de negligência, observando que esta omissão fere aos direitos fundamentais da criança, acarretando a punições na forma da lei.

Apesar da dificuldade na percepção da negligência, devem ser observados comportamentos na criança de insegurança, apatia ou agressividade, que podem ser consequência deste ambiente familiar. Quando estes comportamentos são observados, por sua vez, devem ser feitas intervenções familiares a fim de que o desenvolvimento da criança seja garantido e que a rotulação de seus comportamentos inadequados à sociedade não seja mais um fator de risco para emissão de comportamentos infratores e ligados ao uso abusivo de substâncias. (Gomide, 2014).

A intervenção psicológica vem justamente com o objetivo de desenvolver habilidades sociais de empatia, carinho, entre outros, que estão em defasagem segundo avaliação profissional de negligência. Quando estas habilidades passam a fazer parte deste ambiente familiar, estas mesmas geram seus reforçadores naturais que mantêm a emissão destes dados comportamentos, ampliando sua frequência e variedade de comportamentos ligados a mesma habilidade. Neste ambiente, o desenvolvimento infantil terá solo fértil para seu progresso, e as relações familiares serão de maior qualidade, havendo maior conhecimento e empatia entre os componentes desta estrutura. Salienta-se que, além da avaliação pessoal de cada cônjuge sobre o valor da família, há o direito da criança a ser garantido, este entendimento também é de grande importância durante o processo terapêutico.

Cabe lembrar que quando o profissional da psicologia percebe uma demanda acentuada de negligência que gera risco a vida e ao desenvolvimento infantil, deve buscar auxílio do Conselho Tutelar na garantia dos direitos fundamentais da criança, para que possam ser averiguados em rede qual tipo de proteção e assistência pode ser dada a criança e a família.

Referências:

PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Estatuto da Criança e do Adolescente. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8069.htm> Acesso em: 31 Jul/2017.

GOMIDE, Paula Inez Cunha. Pais presentes, pais ausentes: regras e limites. 13 Ed. – Petrópolis, RJ: Vozes, 2014. 1ª Reimpressão Mar/2016.

SAINT-EXPÉRY, Antoine de. O pequeno príncipe. Tradução: Dom Marcos Barbosa. 51 Ed. Rio de Janeiro, RJ: Agir, 2015.

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