A Análise do Comportamento e o seu olhar para as diferenças – uma reflexão!

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Com a análise dos processos históricos da constituição da Psicologia como ciência, observa-se que as suas definições têm variado no tempo e isso tem uma relação com as características dos autores que buscam definir o objeto de estudo da Psicologia. Entre muitos pontos, a Psicologia como ciência busca produzir conhecimento de modo a fomentar o bem estar na vivência humana, ou seja, na forma do homem estar no mundo e na sua interação com o ambiente que o cerca. Uma questão sempre considerada nesse processo amplo de interação é a forma do indivíduo lidar com o que é diferente ao mesmo tempo em que constrói os seus próprios contorno[1].

Diversos enfoques teóricos dentro da Psicologia tratam dessa questão. Guardini (2000) afirma, por exemplo, que a idade moderna fundamentou as normas da ciência na sua utilidade para o bem estar do homem. Contudo, o autor acrescenta que o homem sabe que, em última análise, o que está em jogo não é a utilidade visando bem estar, mas sim o domínio. Segundo o autor, isso significa possibilidades insuspeitas de construir, mas também de desconstruir. Essa afirmativa permite fazer estrapolações para pensarmos que a não consideração das diferenças em uma cultura pode ser visto como uma condição de desconstrução da visão do homem na sua singularidade.

Outro autor, Figueiredo (1992), sai da visão do homem como suposta unidade do sujeito para uma perspectiva de homem que constrói sua subjetividade em função do caos. O autor reconhece o caos em sua positividade/utilidade, pois muitas transformações nascem como produto disso. Essa ideia relaciona-se à Análise do Comportamento, porque essa ciência, entre vários pontos, busca entender o homem como resultados de entrelaçamentos de contingências que muitas vezes se organizam de maneira caótica. As adversidades e diversidades presentes no caos além de selecionarem variabilidade comportamental, podem criar ocasião para novos formatos de pensar o mundo e a vida das pessoas no que refere ao processo privado.

Lowy (2003) propôs como conceito de visão social de mundo todos os conjuntos de valores, representações e ideias de uma cultura. Dentre esses aspectos, pensar no homem como um ser social traz a necessidade de se pensar onde existe o “eu” e onde existe o “nós” nesse contexto. Nessas discussões, o ponto mais importante destacado por Lowy (2003) está na afirmativa de que na luta de uma construção da noção do individual, nós mudamos o mundo e o mundo nos muda. Ou seja, ao mesmo tempo em que somos seres que mudamos o mundo, o mundo também nos impacta de alguma forma. Skinner no livro Comportamento Verbal coloca que “os homens agem sobre o mundo, modificam-no e, por sua vez, são modificados pelas consequências de sua ação” (1957/1978, p.15). Essa ideia tem estreita relação com o pensamento de Lowy (2003), que como já dito anteriormente no texto, afirma de que na luta de uma construção da noção de individualidade, nós transformamos o mundo e este nos afeta.

Para Skinner (1953/2003), existem três níveis de seleção do comportamento: filogenético, ontogenético e cultural. O entrelaçamento desses três níveis de seleção irá fazer parte do repertório de um indivíduo. Acredito ser esse o primeiro olhar para a construção da noção de um sujeito singular. Skinner (1953/2003) fala também das agências de controle que fazem parte do ambiente de indivíduos que partilham de uma mesma cultura. Ele enfatiza, por exemplo, o controle exercido pelo governo, instituições educacionais e religiosa. Nessa perspectiva, a noção de liberdade partindo do entendimento que nós somos controlados também quando nos sentimos livres é outro ponto importante para entender o papel das diferenças em um grupo. Muitas vezes nossos comportamentos são reforçados a ter topografias semelhantes à de outras pessoas. A liberdade passa a ser uma condução para padrões em vigor e, muitas vezes, o diferente é tomado como um desvio.

Skinner afirma que “uma pessoa é um lugar, um ponto em que múltiplas condições genéticas e ambientais se reúnem num efeito conjunto” (1974/2000, p.145). Entende-se com isso que a pessoa é única, ou seja, suas características genéticas, sua história de vida e seus comportamentos não serão possíveis de serem vistos em nenhuma outra pessoa. A Análise do Comportamento considera a aquisição de repertórios e habilidades particulares traçando um paralelo de como o homem, através do que ele adquire, estabelece sua relação com o mundo e com o outro.  Pensar com esse formato é conhecer e compreender o indivíduo, o considerando com um sujeito singular pelo simples (e complexo) fato dele existir e estar em interação.

Um ponto que deve ser destacado: quanto mais conhecermos a respeito do que controla o comportamento do outro, mais dados e informações teremos a respeito dos nossos próprios comportamentos. Skinner aponta que “o conhecimento de si próprio tem origem social e é inicialmente útil para a comunidade que propõe perguntas” (1974/2000, p.146). Ou seja, ao mesmo tempo em que a comunidade verbal da qual o indivíduo faz parte irá selecionar comportamentos que serão mais reforçados, seus membros também farão perguntas que favorecerá a discriminação do que controla seu comportamento nesse ambiente (Skinner, 1974/2000).

Podemos buscar relações funcionais para muitos dos comportamentos baseados na aquisição, bem como, na manutenção de determinados comportamentos, o que possibilita a obtenção de explicações para muitos dos comportamentos que são tidos como “diferentes”. Uma possibilidade de se reduzir distorções nas avaliações daquilo que se é diferente, é trabalhar com a discriminação de estímulos, salientando outros elementos das contingências que fazem parte de determinado contexto e que podem ser responsáveis pela ocorrência de certos episódios.

A importância de se discutir essas questões reside no fato da Psicologia, e claro, a Análise do Comportamento estudar as diferenças individuais dentro de padrões. Isso acaba tornando essa área do conhecimento cercada de contradições evidentes. Assim, produzir algum conhecimento no processo de individualização do homem em uma cultura ganha importância, tendo em vista que se como ciência não nos ocuparmos desse processo, de certo modo, essa ciência corre o risco de perder boa parte da utilidade a que se propõe ter.

¹ Contorno aparece no texto como as características que definem ou não o indivíduo.

 

 

REFERÊNCIAS BIBILOGRÁFICAS

 

Figueiredo, L. C. (1992). A invenção do psicológico – quatro séculos de subjetivação – 1500-1900. São Paulo: EDUC/Escuta. Guardini, R. (2000). O fim da idade moderna. (Tradução de M.S. Lourenço). Lisboa: Edições.

Lowy, M. (2003). Ideologias e ciências sociais – elementos para uma análise marxista. São Paulo: Cortez.

Skinner, B. F. (1953/2003). Ciência e Comportamento Humano (Tradução de J. C. Todorov & R. Azzi). São Paulo: Martins Fontes.

Skinner, B. F. (1974/2000). Sobre o Behaviorismo. 13º Ed. São Paulo: Ed. Cultrix..

Skinner, B.F.(1957/1978). Comportamento Verbal. São Paulo: Cultrix/EDUSP.

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Denise Lettieri
Denise Lettieri Moraes concluiu a sua primeira graduada em Administração de Empresas em 2002. Em 2004 concluiu sua segunda graduação em Psicologia. Sua especialização em Análise Comportamental Clínica foi concluída em 2005 pelo IBAC (Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento). Atualmente faz mestrado em Psicologia, realiza atendimento psicológico de adultos e casais, supervisiona atendimentos de outros profissionais e coordena programas de psicoterapia em grupo. Ministra palestras em congressos e eventos do campo da psicologia, além de facilitar vivências e workshops em diversas instituições. É proprietária e responsável técnica da Atitude Clínica Psicológica com sede em Brasília e proprietária e diretora da Atitude Cursos que promove eventos na área de Análise do Comportamento com plataforma online para todo o Brasil. Também atua como docente do Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento, um curso de especialização em Análise do Comportamento Aplicada à Clínica, onde leciona a disciplina de terapia de casal e a disciplina terapia de grupo. É filiada à ABPMC (Associação Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comportamental).
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