Quem te ensina Mindfulness: inconsistências que se vê por aí

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Introdução

Já falei um monte sobre o fato de mindfulness não SER NECESSARIAMENTE meditação. Chego a ser chato e repetitivo. Mas é necessário, pois as capas de revista continuam falando sobre mindfulness com a cara da Fernanda Lima, de olhos fechados e com um sorriso de lado, esperando pela Iluminação. Que lástima.

É chegado o momento de entender – de uma vez por todas – que mindfulness (do ponto de vista cognitivo) é simplesmente um estado mental relacionado ao processamento atencional e flexibilidade psicológica. É claro que práticas do tipo “meditação” afetam este estado, mas não são maneiras exclusivas para aumentar mindfulness. Comer atentamente uma bela sobremesa, sentir os efeitos de uma brisa no corpo, olhar atentamente para uma paisagem, sentir os batimentos cardíacos, podem ser maneiras de se conectar e desenvolver essa “atenção plena”.

Devido à popularização do MBSR e seus correlatos (MBCT, MBRP, etc), todos seguiram achando que mindfulness é similar a meditação. Não é. Apenas dentro da “tradição” – em particular do Budismo – que a meditação figura como a forma principal para desenvolver mindfulness.

As chamadas psicoterapias de terceira-onda (ou contextuais) – um tipo de terapia comportamental – são um bom exemplo de como desenvolver mindfulness sem meditação. Mindfulness está presente na ACT e na DBT sem – necessariamente – estar vinculado à práticas de meditação. A perspectiva cognitiva-social de Langer também é um exemplo desta tradição de “mindfulness sem meditação”.

Mesmo assim, o mais comum para alguém que se envolve com mindfulness é ter um encontro “meditativo” com a coisa. Isso significa que – provavelmente – a pessoa foi apresentada ao mindfulness como uma “meditação” MAS SEM RELIGIÃO. Isso é como o MBSR trata a coisa. É uma forma bem “americanizada” de entender e ver. Fast-food Buddhism ou Budismo “distorcido”, como diz o Padma Dorje, um especialista brasileiro no assunto.

“Como se tornar um guru moderno”

Poucos brasileiros foram introduzidos ao mindfulness através das psicoterapias contextuais ou das ciências cognitivas (como os experimentos de Langer). A grande maioria pegou a onda do MBSR, de “meditação sem religião”, da forma como é. Cada vez mais essa “meditação quasi-religiosa” mas SEM RELIGIÃO (uma coisa confusa) do MBSR está sob severas críticas. Isto é tão verdade que os programas mais “budistas” como o Cultivating Emotional Balance, o Compassion Cultivation Training e o Compassion Based Cognitive Therapy – todos ligados a grandes figuras do Budismo – estão ganhando mais e mais terreno. Isso é bom, pois ao menos foram desenvolvidos com uma ética clara e coerente. Pegar o mindfulness direto do Budismo (seja através de Zazen ou Shamata) é menos danoso do que pegar do MBSR, já que você pega a coisa na fonte, antes de ser distorcida.

Ou pega o mindfulness no Budismo ou pega nas ciências (psicoterapias contextuais ou cognição-social de Langer). Pegar pelo hibridismo, ou seja, pelo MBSR (ou coisa parecida) é um risco enorme. Você pode acabar pagando de Jack Kerouc do Budismo brasileiro. Corre o risco de virar um Alan Watts brazuca, mas de baixa qualidade. Logo vai estar recitando koan zen-budista sentado numa almofada (zafu). Como os betaniks, não precisará de mestres ou linhagens. Bastará a si mesmo como “mestre”. Isso acontece porque você acaba pegando o negócio já mal-mastigado pelo fast-food ideológico norte-americano, e daí você estraga – sem querer – um pouco mais. Não é por mal, mas para o McMindfulness, é um pulinho. Você pode até virar guru de internet ou querido da mídia. E isso não é bom.

De qualquer modo é preciso praticar e estudar

Olha só, independente de você desenvolver mindfulness dentro da tradição (Budismo) ou na epistemologia científica da Langer e das psicoterapias contextuais, é preciso PRATICAR. O que vejo por aí é um monte de gente oferencendo oficina, workshop – e até grupo de mindfulness  – sem ter prática regular estabelecida. Ou então tem prática de “livro” ou de aplicativo de celular. É sério isso? Pior que é.

Professor de mindfulness formado pelo Headspace. Tem de montão. #medo

Lembro que eu comecei a praticar meditação há 10 anos, dentro da tradição (não é Budismo, mas tradição indiana de Dhyana). Já era psicólogo e fui incluindo a perspectiva científica, sem deixar de lado o caminho da tradição. Não sou Budista, mas reconheço um grande valor nos praticantes budistas. Valor esse, em relação ao mindfulness, particularmente poderoso em termos de “experiência viva”.

Fui somando a isso tudo, ano após ano, experiências mistas – científicas e “religiosas”. Mestrados e doutorados somaram-se a retiros de shamata ao pé da montanha. Quando morei na Inglaterra, alternava retiros com Alan Wallace (monge budista e cientista) com grupos  seculares de mindfulness incrustados nos subúrbios e parques de Londres. Ao mesmo tempo, assistia em Oxford aulas hiper-técnicas sobre o funcionamento da cognição em estados meditativos. Fui alternando e enriquecendo mutuamente as experiências. São 10 anos e ainda pratico muito pouco. Começo a me sentir – por agora – um pouco mais seguro para ensinar com alguma robustez o básico do básico. Ainda assim, é tudo muito frouxo e inseguro. E essa insegurança me faz bem e me deixa vivo. Não tenho a segurança de muitos que se formaram como “instrutores” há dois meses atrás. Que bom.

O que me preocupa é que tem – CADA VEZ MAIS – gente ensinando mindfulness aos quatro cantos. Ensinando para crianças, adolescentes, idosos, empresários e pessoas com câncer. Descobri que tem um monte de “instrutor” e terapeutas ACT e DBT que “ensinam” mindfulness mas nunca praticaram regularmente em grupo. Descobri que tem pessoas que começaram a ensinar mindfulness em grupo, mas não fazem supervisão semanal. Lembro que minha professora em Londres só me deixou começar a ensinar depois de me ver conduzindo por meses para diversos grupo. Levei muito puxão de orelha. E foi muito bom! Depois, quando voltei ao Brasil, estava lá – toda semana – fazendo supervisão por Skype. Sigo em supervisão.

Errei muito nos meus primeiros grupos e – se não tivesse as supervisões – estaria errando ainda mais. Na prática clínica é ainda mais complicado. Estamos ali, quase sempre sozinhos com o paciente, vulnerável, e (pasmem) ensinando a entrar em contato com seus demônios. Às vezes, pensamentos suicidas. É pesada a coisa. Fico imaginando alguém com treinamento “torto” em mindfulness FACILITANDO esses processos. QUE RISCO! O que estamos fazendo?

Fica então o convite. É preciso mais experiência. Mindfulness é experiencial e precisa ser treinado cotidianamente, e de maneira adequada. Não basta escutar áudio no Youtube. Você não pode ensinar alguém a nadar eficientemente se não aprendeu a dar as braçadas corretamente. Mindfulness é uma habilidade específica com formas específicas de ser desenvolvida. É psicólogo, coach, terapeuta DBT e quer aprender mindfulness através da meditação? Procure um professor budista reconhecido, de linhagem. Sugiro monja Coen e Lama Santem, por exemplo. Quer aprender fora da meditação? Procure um psicoterapeuta contextual – ACT, DBT, FAP, etc – com treinamento formal em mindfulness (que passou por um grupo semanal, faz supervisão, etc). Tem, no Brasil?

Tem uma última opção, que é procurar uma pessoa como eu. Mas nós que representamos as Intervenções Baseadas em Mindfulness (esses grupos de 8 semanas) – no mais das vezes – reproduzimos a falta de clareza conceitual e prática que começou lá com o MBSR. Sim, falta clareza (ética, em particular) mas sobra convicção. Claro! Existem excessões. Mas aí depende do seu olhar crítico e bom senso. Contamos com ele.

“i´m not your GURU – but I am”

Num mundo onde mindfulness se apresenta como a “nova ferramenta” para terapeutas, coachs, e toda a sorte de pessoas querendo “levar bem-estar para todos” é preciso lembrar que quando o Tony Robbins te diz que “ele não é o seu Guru”, ele está dizendo exatamente o contrário.

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