Guerras culturais, Brasil e um pouco de comportamento humano

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Uma das coisas que tornam o estudo do comportamento humano talvez o negócio mais difícil que já inventaram (depois de dobrar lençol de elástico, claro) é o número incontável de variáveis nas quais estamos imersos. O astrofísico e divulgador científico Neil DeGrasse Tyson costuma dizer que física é fácil, é na sociologia que as coisas ficam difíceis porque elas se tornam não lineares. É uma boa forma de colocar o problema.

Por vezes as paixões se tornam quase que indissociáveis da tarefa de análise e síntese que é função do investigador, e elementos como a política, a ética, a moral e a justiça produzem verdadeiras montanhas-russas de afetos. Talvez esse seja o cenário atual do país e, consequentemente, talvez isso se reflita diretamente nas tentativas de compreensão e explicação da política nacional por parte dos cientistas sociais, da opinião pública e de nós, meros mortais.

Dias atrás assisti à transmissão online de uma aula do curso ministrado pela professora Rosana Pinheiro-Machado, na pós-graduação em Antropologia na USP: “Os protestos de massa no século XXI: Organização, táticas e seus significados” (você pode ver o programa da disciplina aqui). A aula contava com a participação do professor do EACH-USP, Pablo Ortellado, e seu tema era junho de 2013 e suas implicações.

Com extensa história de envolvimento militante e acadêmico com movimentos sociais, Ortellado vem já faz algum tempo pesquisando o que chama de “guerras culturais”. Segundo o pesquisador, a disputa no campo cultural no país cresceu muito após as ramificações das manifestações de junho, puxadas inicialmente pelo Movimento Passe Livre e depois ressignificadas por outros setores do espectro político-ideológico. A apropriação das ruas por parte de setores mais conservadores, em geral com a bandeira da luta contra a corrupção, transformou o cenário da opinião pública em um campo de guerra aberta sobre como lidar com aquele tipo de movimentação popular e sobre qual tipo de agenda deveria ou não ser apoiada.

Além do engajamento político pessoal e as relações que dele decorrem, as principais fontes de informação de Ortellado e o grupo de pesquisadores que trabalham com a temática são as pesquisas de opinião in loco, em plenas manifestações, e a movimentação das redes sociais. As primeiras são conduzidas com populações distintas que ocupam as ruas, as segundas, através do “Monitor do debate político no meio digital”, “um projeto do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso a Informação da USP que busca mapear, mensurar e analisar o ecossistema de debate político no meio digital”. Aproximadamente 20 milhões de usuários brasileiros entram nessa análise, e sua movimentação política – ou seu comportamento nas redes sociais –, captada pelo monitoramento das relações que se formam no dia a dia do debate digital, é ilustrada pela formação de gráficos que mostram as aproximações entre os usuários baseadas em suas curtidas e compartilhamentos.

Representação gráfica produzida pelo Monitor do debate político no meio digital.

 

Pelo menos duas questões colocadas por Ortellado chamaram minha atenção e tentarei apresenta-las e discuti-las nas linhas que se seguem. A primeira diz respeito à característica dos dois grandes campos identificados pelo monitoramento, a “direita” e a “esquerda”. A segunda diz respeito aos projetos políticos alternativos desenvolvidos internacionalmente e o caso do Brasil.

A primeira questão diz respeito às características das pessoas que compõem os dois campos. Para encurtar a história, a tese que Ortellado defende é a de que o campo político lido como de esquerda, em geral bem coeso em termos de sua atividade no meio digital e bastante criterioso em seu convívio – não admitindo violações simbólicas e reais de direitos humanos, especialmente no caso das minorias políticas – está distante do que é a pluralidade da população brasileira em termos de representatividade. Já o campo político lido como de direita é um retrato preciso do que seria o Brasil: forte aderência à causa do Estado forte e de serviços públicos – o que é bastante contra intuitivo – e uma grande pluralidade de causas e motivos políticos e sociais. Pautas como liberalismo econômico aparecem, mas em bem menor grau. Outras consideradas mais à extrema direita, como militarismo, também aparecem em menor medida.

O partidarismo também foi um fator interessante nessa equação, já que o campo político lido como esquerda gravitou muito em torno do Partido dos Trabalhadores e grupos de mídia ligados a ele de alguma forma. Não é que não haja esquerda longe da influência petista, que fique claro, mas os ambientes digitais nos quais os usuários que se relacionam com causas comuns à esquerda se comportam é muito envolto nas páginas do partido e de suas principais figuras. Já o campo político lido como direita se afasta de grupos partidários, rejeita o campo oposto justamente pela associação entre PT, esquerda, corrupção e adjetivos nem sempre apropriados para um almoço em família. Mesmo outros partidos, como o PSDB, encontram forte rejeição, como mostram as pesquisas de rua mencionadas por Ortellado, e o grande vilão é a “corrupção generalizada do sistema”.

Bem, essa é uma interpretação da polarização cultural em curso no país. Como toda interpretação, carrega consigo os méritos e os vícios dos métodos que a produziram e cabe à sociedade fazer as devidas críticas.

Na esteira dessa interpretação, avanço para a segunda questão, a dos projetos políticos nacionais e internacionais. Ortellado caminha pela história recente do crescimento dos movimentos internacionais de crítica e protesto político. Partindo do movimento antiglobalização em Seattle, no fim dos anos 90, passa por Occupy Wall Street, a Primavera Árabe, o movimento Podemos, na Espanha, a chamada “revolução política” representada pelo desafio à esquerda de Bernie Sanders ao centrismo liberal do establishment nos EUA e, mais especificamente no Brasil, as Jornadas de Junho de 2013. Se a fala fosse feita um mês depois, provavelmente Ortellado mencionasse a crescente de Jeremy Corbyn e sua tomada do Partido Trabalhista britânico. Em comum a todos esses múltiplos e ricos movimentos está a demanda por mais democracia e participação popular, ou o que o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos chamou de revolucionar a democracia. O poder nas mãos da maioria, e não dos poucos que dominam os mercados (e o Estado por tabela).

Primavera Árabe no Egito
Protesto puxado pelo movimento Podemos, na Espanha.
Comício da campanha de Bernie Sanders para campanha presidencial, em 2016.

Ortellado faz notar que o modelo partidário participativo preconizado pelos movimentos mencionados, organizado por assembleias populares e com eleições internas periódicas e livres, é exatamente o modelo do Partido dos Trabalhadores. Logo, o PT, mais precisamente sua estrutura político-funcional, é o modelo de partido que a esquerda internacional busca alcançar para oxigenar as instituições políticas e ampliar o papel da sociedade civil nas decisões coletivas. Por um lado, sabemos que o partido é múltiplo, possui uma inigualável capilarização nos movimentos sociais e carrega em seu interior desavenças de opiniões e trajetórias. No entanto, como bons brasileiros e vacinados eleitores, conhecemos os limites que a promessa do PT apresentou e ainda simboliza para esse projeto político libertário sinalizado pelos movimentos em questão. Nesse sentido, se a constatação de Ortellado for levada a sério, o que aconteceu no meio do caminho para que chegássemos ao ponto de construir o partido que a esquerda internacional busca e, ao mesmo tempo, afundarmos em seu barco rumo a alianças nefastas com a oligarquia nacional e propostas de arrocho e reforma de acordo com a cartilha (neo?)liberal?

Não sei se há uma boa resposta para essa pergunta. Tampouco teria eu repertório para respondê-la de forma minimamente satisfatória. Essa é uma tarefa para estudiosos da História, da Ciência Política, da Antropologia, da Sociologia, da Psicologia Social e assim por diante. Isso não me impede, no entanto, como bom brasileiro que vive o dia a dia de contingências políticas, econômicas e sociais do nosso momento histórico, de dar alguns pitacos.

O depoimento de Lula ao juiz Sérgio Moro traz uma passagem que é bastante significativa e pode nos dar algumas pistas. O diálogo em questão é esse:

“- Senhor ex-presidente, com sua influência no Partido dos Trabalhadores, solicitou eventualmente para que fosse realizada uma apuração interna para verificar se os fatos afirmados pelos executivos ou pelos agentes da Petrobrás eram verdadeiros?

Sabe que essa influência dentro do Partido dos Trabalhadores é porque o Ministério Público não conhece o PT.

– O senhor não tem influência dentro do partido?

– Não. Se eles conhecessem o PT não falariam isso. Eu não participo de nenhuma reunião no PT desde que fui eleito presidente da república, em 2002. Em 2014, quando eu deixei a presidência, é que eu voltei a participar. Então, eu não tenho nenhuma influência no PT. Eu tenho influência na sociedade. Quando eu falo, as pessoas me ouvem. Algumas pessoas, nem todos.

– O senhor não solicitou nenhuma providência para que o PT fizesse algum exame…

Não, porque eu não era dirigente do PT.”

Qualquer compreensão do discurso (comportamento) de Lula diante do questionamento da figura de autoridade demanda atenção às audiências reais e potenciais que lhe conferem amplo contexto. No entanto, a questão aqui é que Lula, entre outras razões por recursos retóricos com a função de esquiva, provavelmente mentiu e falou a verdade ao mesmo tempo. Acompanhando o raciocínio de Ortellado, o funcionamento do partido foi pensado também para evitar a predominância de personalidades que sequestrassem o poder dos movimentos sociais que compuseram desde sempre sua base. Se a ideia é ampliar o poder decisório ao maior número de pessoas, seria importante que Lula não carregasse tamanha influência dentro das diferentes correntes políticas que coabitam o enorme guarda chuva que é o PT, e aparentemente ele não tem mesmo poder sobre todas as correntes, ou ao menos não o que se supõe que ele tenha. Acontece que, a essa altura do campeonato, a história do PT se confunde em maior ou menor grau com a história do ex-presidente e, como o político mais importante do país provavelmente desde Getúlio Vargas, sua influência dentro do partido que tem sua cara é inegável. A ascensão da candidatura de Dilma à presidência, uma pessoa que não era filiada originalmente ao partido e que não tinha experiência política vasta em cargos majoritários, é um exemplo do peso que Lula ainda tem com seus companheiros de legenda.

A máquina do partido se misturou com a máquina do governo. A máquina do governo é amplamente corrupta em seu modo de funcionamento, que inviabiliza um governo progressista na mesma medida em que barra uma participação popular decisiva nas tomadas de decisão cotidianas. Em acordo com entrevista do economista da Unicamp Plínio de Arruda Sampaio Junior, “Como o PT não mudou o Estado, o Estado mudou o PT. E assim o PT foi gradativamente se adaptando, se moldando às exigências do Estado e da burguesia brasileira, para se transformar no que chamo de ‘partido da ordem’, ou seja, que não questiona os pilares da ordem, mas que procura, dentro desta ordem, fazer o menos pior.”

Retomando o início da conversa e trazendo-a para um campo analítico comportamental, afetos fazem parte da vida e não podem ser apenas ignorados na atividade científica e militante. As “guerras culturais” envolvem disputas sociais pela predominância de conjuntos de valores, e poucas coisas envolvem mais reações emocionais fortes do que ter seus valores atacados, já que eles são parte muito importante daquilo que sua história e seus contextos fizeram de você. Ter seus valores atacados, portanto, é ver questionadas sua história de vida e tudo que é importante pra você. Para boa parte da população, o movimento de ascensão do PT e das políticas (limitadas) de inclusão social significou um legítimo ataque a seus valores e à sua história. Para outra boa parte da população, a ascensão do PT e justamente os limites de sua política significaram um legítimo ataque às suas expectativas e história de construção de uma alternativa ao projeto de país colonial levado a cabo por suas elites econômicas e políticas.

Esse cenário pintado por Ortellado – e pelas contribuições de Rosana Pinheiro-Machado, Plínio de Arruda Sampaio Junior – pode indicar rumos de pesquisa para analistas comportamentais da cultura. Uma vez constatado o estado de guerra, quais as contingências sociais (contextos) que opõem as pessoas em torno de valores opostos? Quais são os recursos (reforçadores) que elas obtém quando defendem uma posição? Quais são os relacionamentos pessoais que fortalecem suas “crenças” e convicções? Podemos enriquecer nossa agenda de pesquisa com essas contribuições de outros campos e, num esforço conjunto de colaboração multidisciplinar, sair a campo para investigar contingências sociais que respondam pelos problemas levantados.

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