Uma visão da Análise do Comportamento sobre a violência no ambiente escolar.

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Violência é um tema sempre recorrente em nossa sociedade, ela está por muitas vezes presente nas relações e nos espaços sociais. A escola por sua vez é um desses espaços de socialização e a violência também pode manifestar-se dentro do contexto escolar. Partindo desse principio, é necessário entender como se dá a violência no ambiente escolar e as possíveis intervenções baseadas na Análise do Comportamento para lidar com este comportamento.

Sidman (2009) relata violência como coerção, e esta é definida por ele como uso da punição e reforçamento negativo na relação entre as pessoas e destas com o ambiente.

Os reforçadores possuem duas características importantes: 1) o reforçador deve seguir uma ação; 2) o reforçador deve fazer com que essa ação tenha mais probabilidade de se repetir. Portanto, quando o comportamento é reforçado positivamente se obtém algo; quando reforçado negativamente removemos, fugimos ou esquivamos de algum estímulo aversivo.

Os tipos de reforço negativo são a fuga e a esquiva. A fuga consiste na suspensão de um estímulo aversivo após a resposta de um organismo, o estímulo aversivo está presente no ambiente. Na esquiva a resposta do organismo é reforçada por evitar que o estímulo aversivo ocorra. Ou seja, ele não está presente no ambiente quando a resposta é emitida (Moreira& Medeiros, 2007).

A punição por sua vez pode assumir duas funções: a punição negativa e a punição positiva. A punição negativa confronta o organismo com o término ou retirada de alguma coisa que é um reforçador positivo. Já a punição positiva se dá quando um comportamento produz um estímulo que reduz a probabilidade da ocorrência de um comportamento no futuro (Moreira & Medeiros, 2007; Sidman, 2009).

Por sua vez a coerção gera contra controle, entre eles a agressão que induzida por punição encontra-se em diversas espécies.

Segundo Catania (1999) um padrão agressivo pode ser produzido ou ser controlado por contingências em vigor ou também pode ser aprendido por meio do ambiente social, por meio de imitação e o controle por regras. Andery e Sério (1996) afirmaram que na sociedade o controle aversivo é predominante nas relações humanas, e que esta mesma sociedade incentiva seus membros a fazerem uso da estimulação aversiva como punição. Segundo as autoras o uso da violência acarreta mais violência e também nos torna impotentes, pois em um ambiente com muitos estímulos aversivos a esquiva e a fuga são as alternativas mais prováveis, produzindo pessoas passivas ou agressivas.

Andery e Sério (1996) afirmam que outros efeitos oriundos do controle aversivo são: ficar sempre em estado de vigilância com o objetivo de diminuir ou evitar a coerção, impedindo que haja aprendizagem de qualquer coisa; limitação no desenvolvimento do repertório comportamental; estereotipia, compulsão e mecanização dos comportamentos de fuga e esquiva; maior ocorrência de comportamentos supersticiosos.

Muitas questões precisam ser respondidas quando se fala da agressão que surge da punição, e alerta que os punidores podem se tornar objeto de contra-ataque induzido por punição, como por exemplo, professores que se concentram mais na disciplinano que na educação, estão mais sujeitos a contra violência. A longo prazo o controle coercitivo só continua a funcionar se tiver uma população cativa, e ainda que haja contenção física, as pessoas descobrem um jeito de controlar seus controladores, ou seja, o contra controle. Isso é observável no contexto escolar, onde comportamentos que são punidos podem usar contra controles agressivos, que vão desde fingir doenças, com o intuito de faltar ou sair mais cedo das aulas, às atitudes agressivas como o vandalismo escolar (Sidman, 2009).

Para Skinner (2003) uma das maneiras de controle do comportamento humano, se dá por meio das agências controladoras (governo, religião, psicoterapia, economia e educação), ou seja, um grupo que exerce controle sobre os comportamentos de seus membros por meio do seu poder de reforçar ou punir. O grupo geralmente reforça de forma considerada adequada os bons comportamentos, aumentado a probabilidade de estes voltarem a ocorrer.

Como já citado, a escola é uma das agências controladoras referidas por Skinner (2003), cujos reforços são arranjados pelos membros da agência educacional com o propósito de condicionamento, dando ênfase a aquisição de comportamentos, que serão vantajosos para o indivíduo ou para outros, no futuro. Escolas particulares, religiosas e a educação pública continuam a função educacional da família, supervisionando as crianças uma parte do dia. Portanto, as agências educacionais são mantidas por darem continuidade a educação familiar. Os reforçadores que as escolas tradicionalmente usam são: boas notas, diplomas, medalhas que são associados com a aprovação social, havendo reforçadores primários e secundários na dinâmica escolar. Formas exageradas de punição historicamente utilizadas têm deixado de ser praticadas, no entanto, outras formas de consequências aversivas têm sido adotadas, além de muitas vezes reforçadores positivos serem usados como base para estimulação aversiva condicionada, como ameaças de reprovação ou expulsão da escola. Como efeitos do uso da punição como controle Skinner (2003) também afirma que podem ocorrer, algazarras, trotes, rebeliões e várias formas de contra agressão.Podemos refletir então,que um ambiente que faz uso constante da punição, torna-se altamente coercitivo para os que a frequentam,proporcionando maior incidência da violência.

Mas como então lidar com o problema? Intervenções bem sucedidas no ambiente são caracterizados pelo uso de regras simples e claras, desenvolvimento de colaboração, suporte aos funcionários das escolas, tentativas de minimizar a decadência acadêmica, treino de habilidades sociais, uso de procedimentos válidos de mudança de comportamento, encorajamento do envolvimento de estudantes, atenção as diferenças individuais com ênfase no reforçamento positivo dos comportamentos sociais apropriados, comunicação clara das regras e monitoramento contínuo dos dados coletados para que se ofereça um feedback para a evolução do programa de intervenção.

Vários programas de treinamento de habilidades universais e alguns programas comunitários, parecem ter a promessa significativa para a operacionalização da diminuição da violência, porém, as estratégias comportamentais básicas (por exemplo, treinamento de habilidades, aumentos substanciais no reforço positivo para o comportamento pró social, a moderação de aversivos, e, a avaliação sistemática) parecem estar no centro das intervenções efetivas que foram identificadas. (Mattaini e McGuire, 2006)

 

REFERÊNCIAS

Andery, M. P., & Sério, T. A. (1996). A violência urbana: aplica-se a análise da coerção? (436-443, Ed.) Desafio.

Catania, C. A. (1999). Aprendizagem: Comportamento, linguagem e cognição.(D. d. Souza, Trad.) Porto Alegre, RS: Artmed.

Mattaini, M. A., & McGuire, M. S. (2006). Behavioral Strategies for Constructing Nonviolent Cultures With Youth. Behavior Modification, 30(2), 184-224.

Moreira, M. B., & Medeiros, C. A. (2007). Princípios básicos de análise do comportamento. Porto Alegre: Artmed.

Sidman, M. (2009). Coerção e suas Implicações. (M. A. Andery, & T. M. Sério, Trads.) Livro Pleno.

Skinner, B. F. (2003). Ciência e Comportamento Humano (11ª ed.). São Paulo: Martins Editora.

 

 

 

 

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