Mindfulness não é uma panacéia

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Este texto foi escrito por uma de minhas professoras de mindfulness no exterior, Pat Rockmann, médica, e um dos mais importantes nomes de Mindfulness na América do Norte. Foi uma de minhas professoras na formação em Advanced Teacher Training in MBSR and MBCT pela Univ. da California em San Diego.
O texto foi escrito em DEZ de 2016 e publicado no período popular MINDFUL (https://www.mindful.org/mindfulness-not-panacea/). Reproduzo aqui trechos do texto em versão traduzida para o português, com a autorização da autora.

 

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Mindfulness não é milagre, e nem algo como “simplesmente estar no momento presente”. É sobre saber quando e como lidar com as dificuldades, ou até quando descobrimos que a dor é muito grande, e precisamos nos afastar. Se o que precisamos fazer é “afastar a dor”, que seja com consciência, e não simplesmente como uma esquiva inconsciente. Às vezes mindfulness nos mostra que precisamos relaxar, dormir melhor ou simplesmente pedir ajuda. Mindfulness nos ensina a realidade da nossa insuficiência. E isso é bom.

Ruth Whippman, colunista do NY TIMES, escreveu no domingo passado um texto entitulado “Na verdade, não vamos estar no aqui-e-agora”. O texto aborda como mindfulness está sendo apresentado como uma espécie de “ópio”. É um texto reflexivo sobre o tsunami de mindfulness na cultura ocidental. Como praticante e professora de mindfulness tenho trabalhado com milhares de profissionais e pacientes de modo a oferecer um serviço para ajudar estes indivíduos a lidarem melhor com suas dificuldades.

O artigo de Whippman é parte de uma reação esperada e bem-vinda. Mindfulness não é uma panacéia.

Não há dúvida de que a vida neste mundo louco é estressante. Vivemos em tempos extremos que exigem respostas individuais e coletivas. Estar no “momento presente”, estar mindful, não significa negar o passado ou futuro. Estar no momento presente é uma maneira de desenvolvermos um senso de si mesmo(a), uma conexão com nossa identidade. Sem experimentar o aqui e agora, seríamos idiotas, estúpidos, incapazes de navegar pelo mundo. Teríamos entrado em extinção enquanto espécie há muito tempo.

Mas a maneira como nossa cultura tem absorvido o mindfulness está resultando em equívocos sobre o que podemos e não podemos ganhar com isso. Mindfulness é uma habilidade complexa, que exige o equilíbrio de muitos paradoxos.

Quando paramos para conectar com o aqui-e-agora podemos nos conectar com o que é “chato, difícil e mundano”. No entanto,  há momentos em que é mais útil “fantasiarmos sobre um futuro mais agradável”. O verdadeiro mindfulness trata de intenção e discernimento. Não é simplesmente “estar no momento presente”. A questão é discernir de que maneira e quando precisam
os cuidar de nós mesmos. Talvez tenhamos que nos envolver deliberadamente com a evitação de uma dor ou ansiedade muito grande. Talvez. Se escolhemos intencionalmente fantasiar sobre um futuro desejado ou sobre estar em outro lugar mais agradável do que onde estamos, isso também pode ser um momento de mindfulness. A chave está em manter a lucidez, estarmos conscientes, do que estamos fazendo. Em mindfulness, o que não queremos é perder a lucidez.

Muitas vezes penso que mindfulness, no seu melhor, é semelhante a viver em um dos poemas de Mary Oliver, onde participamos da vida de alguém, apreciando toda a gama de experiências, mas sem se afogar ou perder. Nós vamos observando, acolhendo a aceitando fato por fato. O bom, o agradável, o feio e o desagradável. Mindfulness envolve a aceitação, que não é desistência ou resignação. Não é se entregar de modo derrotista à doença, opressão, ansiedades, relacionamentos abusivos, um emprego estressante, ou insultos racistas. Significa estar saber que isto está e presente e que estou disposto(a) a acolher o que está aparecendo para, em seguida, decidir o que precisa ser feito sobre isso.

Como Whippman aponta: mas por que nós deliberadamente entraríamos em um “inferno de auto-conhecimento?”. Um auto-conhecimento que envolve abraçar a dor e o desconforto? Já temos muito disso. Sim! Mas nós nunca vamos nos livrar de nossos pensamentos (passado, presente ou futuro) e experiências difíceis, e este realmente não é o ponto no mindfulness. Pelo contrário, estamos tentando desenvolver a possibilidade de ver mais claramente o que está acontecendo em nossas vidas e discernir uma maneira mais compassiva de vivermos com nós mesmos. Mindfulness é sobre tomar consciência e então decidir o que fazer a seguir.

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Mindfulness não é uma espécie de “spa mental” onde paramos para ficar entorpecidos, gozando de uma espécie de felicidade do “aqui-e-agora”. Isto não é a vida. A vida tem felicidade e tem dificuldade, uma após a outra, e sucessivamente. Paramos para olhar isso tudo acontecendo – o bom e o ruim. Se observarmos com lucidez e sinceridade, ficamos livres e podemos – de maneira mais autônoma – escolher o que fazer. Isso inclui, muitas vezes, apreciar momentos de prazer e grande alegria, mas também momentos de muita solidão e dor. Se estamos lúcidos da dor, podemos pedir ajuda e fazer algo por nós. Se não estamos lúcidos da dor, ficamos engolidos e perdidos nela. A dor acontece, controla suas reações, e você não vê. Muitas vezes, as dores – físicas e emocionais – careegam uma mensagem importante, mas primeiro você precisa escutar e, dentro do possível, acolher. Isso é mindfulness.

Para quem não sabe ainda, mindfulness é uma técnica de autoregulação muito utilizada na medicina comportamental (MBSR, MBCT, etc) e em algumas psicoterapias para a promoção de saúde física e emocional. Sua eficácia vem sendo comprovada por estudos científicos por mais de três décadas, mas praticar mindfulness exige o auxílio de um profissional qualificado. E não faz milagre.

Cuidem-se!

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Tiago Tatton
piadista inveterado, torcedor do Flamengo e pai da Clara Luz. Nas horas vagas é psicólogo, especialista e mestre em Ciência da Religião (UFJF/MG), doutor em Psicologia (UFRGS/RS e King´s College Londres), pós-doutorando em Psiquiatria e Ciências do Comportamento (UFRGS/RS). Cofounder da Iniciativa Mindfulness. É Mindfulness Advanced Teacher in MBSR and MBCT pela Universidade da California em San Diego (USA).
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