A FAP fora do consultório

Considerações sobre o modelo de conexão interpessoal e promoção de qualidade de vida

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A Psicoterapia Analítica Funcional (Functional Analytic Psychotherapy – FAP) é um modelo de psicoterapia de foco interpessoal, que usa a relação terapêutica como contexto de aprendizagem de comportamentos potencialmente úteis à melhora da qualidade dos relacionamentos do cliente com outras pessoas importantes em sua vida. Ao melhorar as relações interpessoais, espera-se promover uma melhora na qualidade de vida do cliente e redução do sofrimento ligado a sentimentos de isolamento ou a dificuldades para vivenciar interações íntimas e significativas (Holman, Kanter, Tsai, & Kohlenberg, 2017).
Além de ser uma estratégia de psicoterapia individual, a FAP propõe um modelo de entendimento comportamental do processo pelo qual se produzem conexão interpessoal e interações íntimas e intensas entre as pessoas. Esse processo, à luz da FAP, pode ser compreendido por meio do modelo de Consciência, Coragem e Amor (Awareness, Courage and Love – ACL). De um modo geral, o trabalho com FAP se concentra na aplicação do modelo à psicoterapia individual conduzida por psicólogos e psicoterapeutas com formação específica, direcionando-se, portanto, a pessoas que buscam atendimento por esses profissionais. Discutem-se aqui, porém, possibilidades de aplicação da conceitualização comportamental das interações humanas proposta pela FAP em contextos diferentes do consultório do psicoterapeuta. A hipótese é de que o processo de conexão interpessoal conceitualizado pela FAP e as intervenções específicas que são propostas por esse modelo poderiam ser veículos de transformação social e coletiva, possivelmente embasando intervenções voltadas a produzir ambientes mais harmônicos e que proporcionem o aumento da prevalência de comportamentos pró-sociais. (Aos que ainda não conhecem a FAP, recomendo neste momento fazer uma pausa e retomar a leitura só depois de assistir a este TED Talk, em que a co-criadora da abordagem demonstra de que se trata esse modelo terapêutico).
Entende-se que as dificuldades que um indivíduo apresenta para experimentar maior conexão com as pessoas de seu entorno se devem a certos aspectos de sua história de aprendizagem. Mais especificamente, isso tem a ver com a exposição a um ambiente que puniu ou falhou em reforçar os comportamentos de abertura e aproximação emitidos em diversas interações sociais ao longo de sua vida, levando à restrição do repertório ligado à proximidade interpessoal. Com isso, há uma maior tendência a experimentar sentimentos de solidão e prejuízos nas interações sociais, menor satisfação com a vida e até mesmo menor expectativa de vida. No nível individual, a extensão dos malefícios associados ao isolamento social e a ausência de experiências de conexão interpessoal têm sido demonstrados claramente, considerando-se que o acesso limitado a relacionamentos satisfatórios pode ser pior à saúde do que fumar 15 cigarros por dia (Holman, Kanter, Tsai, & Kohlenberg, 2017). Em face disso, terapeutas FAP buscam gerar na relação terapêutica um contexto propício à aprendizagem experiencial de comportamentos relevantes à conexão interpessoal e ao estabelecimento de relacionamentos íntimos e satisfatórios. Isso é feito por meio de intervenções destinadas a facilitar a autoexposição pelo cliente e incrementar suas habilidades de colocar-se vulnerável frente ao outro, além de modelar comportamentos de aceitação e abertura que permitam que os outros também se abram mais ao interagir com ele. Com isso, um novo repertório de conexão interpessoal é aprendido, e pode ser transportado para outros contextos interacionais relevantes na vida do cliente, rompendo o ciclo de isolamento e insatisfação (Holman, Kanter, Tsai, & Kohlenberg, 2017).
A FAP se filia a um movimento científico e filosófico conhecido como Ciência Comportamental Contextual (Contextual Behavioral Science – CBS), que tem como objetivo contribuir positivamente para a melhoria das condições de vida e promoção do bem-estar das pessoas. A CBS se propõe a alcançar esse objetivo mediante o desenvolvimento de pesquisas básicas e aplicações tecnológicas voltadas a predizer e influenciar positivamente o comportamento de organismos em seus contextos. Boa parte dos avanços obtidos até o momento têm se focado na construção de conhecimentos básicos sobre processos cognitivos e verbais humanos e intervenções clínicas relacionadas a esses processos, tais como a Terapia de Aceitação e Compromisso e a FAP. Desde seu surgimento, as pesquisas em CBS têm avançado substancialmente o conhecimento sobre processos comportamentais básicos envolvidos na linguagem, cognição e outros aspectos complexos do funcionamento humano, bem como em aplicações clínicas e psicoterápicas derivadas desses entendimentos. No entanto, considerando a meta de promover o bem-estar humano, reconhece-se que é preciso ainda ampliar o escopo de atuação, indo além da clínica e se dedicando também a aspectos macrossociais. Isso envolve identificar um conjunto de condições necessárias ao bem-estar humano que possam ser manipuladas mediante a aplicação de tecnologias comportamentais específicas, buscando aumentar a prevalência de ambientes nutridores, que sejam capazes de promover e reforçar comportamentos pró-sociais. Para isso, além das abordagens clínicas que consistem em realizar intervenções com pessoas que já têm problemas, é necessário também trabalhar com estratégias preventivas que alterem as condições que levam a esses problemas (Biglan, 2015). Isso poderia ser exemplificado pela implementação de estratégias de treinamento para validação e assertividade em organizações, ou programas de educação socioemocional em escolas, ou ainda a aplicação de processos comportamentais básicos em situações de interação natural entre pessoas, visando a aumentar repertórios de conexão interpessoal. Por se dedicar precisamente a trabalhar nesse foco interpessoal, a FAP se mostra potencialmente útil para promover ambientes que sustentem padrões de relações harmônicas e livres de coerção entre as pessoas. Desse modo, pensar em intervenções baseadas no modelo da FAP que saiam da lógica da clínica pode permitir que se avance na direção do objetivo mais amplo das ciências contextuais de aliviar o sofrimento humano e promover bem-estar. Não obstante, inexistem, no momento, estratégias organizadas de pesquisa especificamente sobre esse tema. Ainda assim, alguns estudos recentes parecem levantar pistas quanto à viabilidade de aplicações desse tipo.
Um desses estudos (Haworth et al., 2015) demonstrou que a participação em interações humanas com características promotoras de intimidade (autoexposição vulnerável e responsividade baseada no modelo ACL) provocou um aumento no senso de conexão pessoal com os pesquisadores com quem se interagiu, e também promoveu um aumento na percepção de conexão com outras pessoas em geral. Neste estudo, os participantes respondiam a um conjunto de perguntas elaboradas para promover níveis crescentes de autoexposição e vulnerabilidade interpessoal. As perguntas eram feitas por auxiliares de pesquisa treinados para, durante a condução da entrevista, também responderem com aceitação e acolhimento genuínos às autoexposições dos participantes, reforçando seus comportamentos de proximidade de forma análoga ao que se propõe na regra 3 da FAP. Um aspecto notável desse estudo é que as pessoas que foram treinadas para responder de modo acolhedor e responsivo à vulnerabilidade expressa pelos participantes não eram psicoterapeutas, eram estudantes que somente haviam recebido um treinamento de cerca de 15 horas voltado a desenvolver um repertório de responsividade coerente com o modelo ACL. Em um outro estudo Kohlenberg e colaboradores (2015), verificaram que uma intervenção de uma única sessão, composta por elementos de mindfulness e tarefas que envolviam interações entre os participantes orientadas pelo modelo ACL, foi capaz de aumentar o sentimento de conexão e a percepção de proximidade entre os participantes (estudantes universitários).
Uma contribuição evidente desses estudos está em proverem evidências a respeito da efetividade da FAP, dando suporte ao padrão transacional de autoexposição vulnerável (coragem) e responsividade (amor) como mecanismo de ação dessa modalidade de intervenção (Kohlenberg et al. 2015). Mas, para além disso, essas pesquisas também lançam uma base para o desenvolvimento de intervenções para promoção de maior conexão interpessoal que podem ser realizadas fora do consultório do psicoterapeuta. Desse modo, esses estudos, além de contribuírem para a consolidação do modelo ACL, também abrem caminho para a aplicação do modelo de conexão social da FAP em um contexto de promoção de saúde e de qualidade de vida em escala mais ampla. Aplicação esta que pode ser capaz de gerar ambientes mais validantes e receptivos à abertura – ambientes nutridores que permitam reduzir a prevalência de condições socialmente tóxicas e promovam comportamentos pró-sociais. Certamente, são necessários mais estudos sobre esse campo de aplicação, uma vez que ambos os estudos citados são preliminares, e tinham como objetivo principal testar o modelo explicativo da FAP e sua efetividade, não sendo especificamente dedicados a avaliar a viabilidade de sua utilização em contextos não clínicos ou conduzida por pessoas sem formação específica em psicoterapia. No entanto, é importante ressaltar o fato de permitirem que se vislumbrem aplicações de um modelo comportamental de intervenção para promover conexão interpessoal que possa ser difundido e aplicado em escala mais ampla, saindo da clínica e ampliando o escopo de intervenções comportamentais contextuais para a promoção do bem-estar humano.

 

Referências
Biglan, A. (2016). A Functional Contextualist Approach to Cultural Evolution. In R. D. Zettle, S. C. Hayes, D. Barnes-Holmes, & A. Biglan (Orgs.), The Wiley handbook of contextual behavioral science. Chichester, West Sussex, UK: John Wiley & Sons Inc.

Haworth, K., Kanter, J. W., Tsai, M., Kuczynski, A. M., Rae, J. R., & Kohlenberg, R. J. (2015). Reinforcement matters: A preliminary, laboratory-based component-process analysis of Functional Analytic Psychotherapy’s model of social connection. Journal of Contextual Behavioral Science, 4(4), 281–291. https://doi.org/10.1016/j.jcbs.2015.08.003

Holman, G., Kanter, J., Tsai, M., & Kohlenberg, R. (2017). Functional Analytic Psychotherapy Made Simple: A Practical Guide to Therapeutic Relationships. New Harbinger Publications.

Kohlenberg, R. J., Tsai, M., Kuczynski, A. M., Rae, J. R., Lagbas, E., Lo, J., & Kanter, J. W. (2015). A brief, interpersonally oriented mindfulness intervention incorporating Functional Analytic Psychotherapy׳s model of awareness, courage and love. Journal of Contextual Behavioral Science, 4(2), 107–111. https://doi.org/10.1016/j.jcbs.2015.03.003

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