Esquiva experiencial, pesquisa aplicada e as “grandes pequenas mentiras”

0

Seja bem-vindo de volta! Digo de antemão que essa coluna contato abordará alguns tópicos: a esquiva experiencial, algumas pesquisas que têm sido realizadas utilizando construtos da Terapia de Aceitação e Compromisso e uma série de TV bem recomendada. Mas no final das contas, abordará um tema particular: a violência contra a mulher no contexto de relacionamentos amorosos.

O assunto, felizmente, tem sido cada vez mais debatido, seja por conta de casos múltiplos que têm ficado mais evidentes, seja através de sua retratação pela mídia (dentro e fora da ficção). Segundo uma pesquisa de opinião realizada pelo Instituto Avon em parceria com o Data Popular, no final de 2014, 3 em cada 5 mulheres já sofreram algum tipo de violência em um relacionamento íntimo. Durante a pesquisa, quando perguntadas inicialmente se existiram ações violentas em seu relacionamento, apenas 8% das mulheres responderam afirmativamente, enquanto 4% dos homens afirmaram que já praticaram violência. Porém, quando ações violentas foram dadas como exemplo, essa porcentagem subiu para 66% (e 55% dos homens), mostrando que muitas formas de violência ainda são naturalizadas entre os casais.

Nesse sentido, é importante  esclarecer o que estamos falando. Segundo o artigo 7º da Lei nº 11.340/2006, violência contra a mulher é “qualquer conduta – ação ou omissão – de discriminação, agressão ou coerção, ocasionada pelo simples fato de a vítima ser mulher e que cause dano, morte, constrangimento, limitação, sofrimento físico, sexual, moral, psicológico, social, político ou econômico ou perda patrimonial. Essa violência pode acontecer tanto em espaços públicos como privados”.

Trago como ilustração a série “Big Little Lies” (“Grandes Pequenas Mentiras”), lançada neste ano pela HBO. Na trama, centrada em três personagens femininas, mãe de crianças em uma cidade pequena, uma das personagens (Celeste, interpretada por Nicole Kidman), encontra-se em um relacionamento aparentemente perfeito, mas extremamente abusivo em sua intimidade. Perry (o marido, interpretado por Alexander Skarsgård) é alguns anos mais novo e apresenta comportamentos de agressividade diante da insegurança de sentir que a esposa pode estar se afastando ou deixando de amá-lo. A partir disso, são apresentadas cenas com conteúdo de violência, seguidas de rápidos arrependimentos e promessas de melhora.

Certo, mas o que a ACT tem a ver com isso? Tudo começa quando revemos o conceito de esquiva experiencial. Segundo Hayes, Strosahl e Wilson (1999), esquiva experiencial refere-se a comportamentos que buscam evitar, suprimir ou eliminar experiências privadas indesejadas. A esquiva experiencial em si não é necessariamente um problema, claro. Se hoje sinto uma dor de estômago, não há grandes motivos pelos quais eu não deva tomar um remédio e me sentir melhor. Por outro lado, existem dois motivos pelos quais o hábito de tomar remédio sempre que a dor de estômago vier pode vir a ser um problema:

  • Preocupo-me tanto com essa dor que procuro estar atenta ao menor sinal de que ela aparecerá e programo meu dia para que ela não me pegue desprevenida.
  • Tomo o remédio religiosamente sempre que a dor começa e nunca procuro um médico.

Embora o ponto 1 tenha implicações bem importantes, hoje irei me delongar mais sobre o ponto 2. Da mesma forma que, ao me satisfazer com um remédio, posso estar deixando passar o sinal de uma doença mais grave, quando nos dedicamos tão arduamente a evitar sentimentos e experiências privadas negativas, podemos deixar de olhar para questões graves que estão acontecendo em nosso entorno. Além disso, também segundo Hayes, Strosahl e Wilson (1999), a tendência é que essas experiências dolorosas aumentem, ao invés de diminuir, quando tentamos tanto evitá-las.

É nesse ponto que chego até as pesquisas. Christina Larson, em seu doutorado na Universidade do Norte do Texas, em 2011, estudou o papel da linguagem no desenvolvimento do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) em mulheres vítimas de violência em relações íntimas. Para isso, ela utilizou a medida da violência em relações íntimas, reunindo medidas de abuso físico e psicológico. Em seus resultados e discussão, Larson (2011) analisou que a medida de esquiva experiencial era um preditor significativo do desenvolvimento de sintomas de TEPT (maiores índices de esquiva experiencial indicavam maiores índices de sintomas). Para além disso, a esquiva experiencial serviu também como mediador para a relação entre a experiência de violência em relações íntimas e o desenvolvimento de sintomas de TEPT. Dessa maneira, segundo os resultados obtidos, mulheres que passam por experiências de violência e demonstram repertório forte de esquiva experiencial parecem ser mais propensas a exibir sintomas característicos do TEPT.

Esses dados parecem reforçar a proposição feita por Hayes, Strosahl e Wilson: a tendência é que, quando tentamos tanto evitar experiências negativas, sua intensidade e frequência aumenta, em vez de diminuir. Em Big Little Lies, na medida em que Celeste procura se convencer de que não há nada de errado acontecendo, os pensamentos sobre isso parecem aumentar de frequência, assim como a intensidade (as lembranças são cada vez mais carregadas de sofrimento), fazendo com que seja difícil concentrar-se em reuniões com amigos ou na interação com os filhos.

Em uma outra perspectiva, algo semelhante ocorre com Perry. Sua forma de eliminar os pensamentos indesejáveis de que ele pode perder o amor de sua esposa e ser abandonado é estar atento aos mínimos detalhes e investigar qualquer sinal que poderia ser visto como um distanciamento de Celeste. Cada nova informação ou situação ambígua passa, então, a ser mais aversiva e um indicador mais forte de que seus medos se tornarão realidade. Os sentimentos e pensamentos vão ficando cada vez mais insuportáveis, até que resultam na agressão física de sua companheira. A interação segue com Perry sentindo forte culpa pelo que fez e procurando evitar também esse sentimento através de demonstrações exageradas de afeto e atenção. E o ciclo continua.

A relação entre esquiva experiencial e o comportamento do agressor é investigada no estudo de Shorey e colaboradores (2014), na Universidade do Tennessee. Os autores propuseram uma avaliação da existência de relação entre esquiva experiencial e a violência praticada por homens em relações de namoro, mantendo-se atentos à influência de variáveis como idade, satisfação com o relacionamento e consumo de álcool. Os resultados encontrados sugerem uma relação forte entre violência especificamente psicológica e sexual e esquiva experiencial, mesmo quando os efeitos de idade, satisfação com o relacionamento e consumo de álcool eram controlados.

Mais pesquisas são necessárias para analisar melhor as relações propostas, mas os dados que se apresentam até então parecem significativos o suficiente para sugerir que uma atenção à tendência psicológica de eliminar experiências privadas negativas é essencial também para a questão da violência contra a mulher. Os dados já obtidos têm levado pesquisadores a defender programas de prevenção e cuidado cada vez mais direcionados a intervenções focadas em aceitação e mindfulness, como a Terapia Comportamental Dialética (DBT), o Programa de Redução de Estresse Baseado em Mindfulness (MBSR) e a própria Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT). Por meio de intervenções com essas bases, busca-se desenvolver novos tipos de relações com eventos privados aversivos, isto é, desenvolver formas mais produtivas de se lidar com pensamentos, sentimentos e experiências indesejados, de forma que o indivíduo possa se engajar em relacionamentos mais saudáveis e uma vida que possa ver como significativa e valorosa.

Cabe a nós, enquanto comunidade acadêmica de psicólogos, fazer a nossa parte, aproveitando a atenção maior do público a esse problema. Nossos esforços podem ser direcionados enquanto pesquisadores, buscando aprofundar relações estabelecidas entre variáveis importantes e embasar intervenções significativas. Além disso, enquanto terapeutas podemos estar atentos a questões que se apresentam com as nossas clientes (ou os nossos clientes), preparando-nos pessoal e profissionalmente para oferecer a melhor assistência possível.

Referências

Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (1999). Acceptance and commitment therapy: An experiential approach to behavior change. Guilford Press.

Larson, C. M. (2011). Intimate partner violence among female undergraduates: The role of language in development of posttraumatic stress. University of North Texas.

Shorey, R. C., Elmquist, J., Zucosky, H., Febres, J., Brasfield, H., & Stuart, G. L. (2014). Experiential avoidance and male dating violence perpetration: An initial investigation. Journal of contextual behavioral science3(2), 117-123.

COMENTE VIA FACEBOOK

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here