Ainda sobre Constelações Familiares, método científico e a prática da Psicologia

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Escrevo este novo artigo pois – sem a ter a menor pretensão – meu texto sobre o tema “Constelações Familiares” se tornou o artigo mais lido de todos os tempos neste portal! Isto mostra o quão polêmico e importante o assunto é. Minha caixa de mensagens no facebook virou uma loucura: recebi ataques, críticas e elogios. Que bom! A ciência avança com diálogo (mas não necessariamente com ataques pessoais).

Após a repercussão do texto, respeitando as diversas críticas que recebi, acabei convidando uma pessoal muito séria que trabalha com Constelações Familiares para fazermos um diálogo acadêmico sobre o assunto. A idéia seria debatermos sobre as questões de cientificidade e prática profissional envolvida nas Constelações. A pessoa aceitou, inicialmente, mas depois disse que – ao reler meu texto – viu que o mesmo não era adequado e que ela não achava profícuo seguir o diálogo. Isso foi triste, pois o fazer científico é uma prática de diálogo e debate, com retrocessos e avanços. Fui acusado também de falar sobre algo com que não trabalho. Quer dizer que para pesquisar os efeitos da maconha eu preciso fumar um baseado? Ou para investigar os efeitos do machismo na sociedade eu preciso ser machista ou feminista? Ou para investigar as dificuldades de pessoas cegas eu preciso ser cego? Ou para pesquisar sobre os efeitos do Reiki eu preciso ser praticante de Reiki? Ou gostar de Reiki? Este é um argumento falacioso. Falácia ad hominen, argumento de autoridade e outros mais embutidos.

Alguns acharam ruim quando comparei o nível de evidências da Constelação Familiar com o dos mapas astrais, da quiromancia, etc. Mas é verdade. O nível de evidência científico é tão baixo quanto. Veja bem: o nível de evidências. Isso não significa que a Constelação e estas outras técnicas e processos não funcione, ou que sejam métodos semelhantes. Apenas que dividem o fato de acumularem – até o momento – um baixo nível de evidências. Apenas isso. Acho até que mapas deveríamos ter mais pesquisas sobre mapas astrais, por exemplo, já que muitas pessoas recorrem a este método. A ciência deveria se manter aberta quanto a estes assuntos. Se alguém que trabalha com Constelações Familiares deseja estabelecer um diálogo amigável e aberto, debatendo sobre estas questões científicas, serei grato, receptivo e aberto.

Quando alguma das partes se fecha ao diálogo, desqualificando a outra, não pode haver prática científica – e pior – pode sugerir “dogma”. Corre o risco de transformar sua posição em uma espécie de defesa de uma “igreja” e seus ” fiéis seguidores”. Isto é um empreendimento oposto ao fazer científico, Esta é uma posição comum que algumas pessoas que defendem práticas pseudocientíficas adotam. Além disso, tal postura pode reforçar a idéia de que certas técnicas (ou os proponentes de algumas técnicas) estão – realmente – se posicionando de modo hostil frente ao método científico. Será que entendem, realmente, o que é o método científico? Então, como dialogar?

Se a visão da “ciência” não interessa a um dos interlocutores, e a se a ciência é vista simplesmente através de jargões do tipo “cartesiana”, “reducionista”, etc, não é possível estabelecer um diálogo. Se o pensamento científico é pensado como algo “descartável”, então temos um problema. O fazer científico não é uma caricatura que se resume ao “reducionismo”, apesar de sabermos da existência de certas ideologias reducionistas na ciência. A ciência também não é uma “santa imaculada”, ou “juíza do saber”. Quem a coloca desta forma não faz ciência, mas sim ideologia científica. A ciência é apenas uma ferramenta muito útil para o conhecimento. Não dá para abrirmos mão da ciência, ao custo de sermos irresponsáveis. Mas a ciência não é a “dona de todo o saber”.

Deixei bem claro no meu primeiro texto que a ciência DEVE estar aberta à investigação de fenômenos desconhecidos e novas técnicas psicológicas. Mesmo práticas tão antigas e diversas quanto acupuntura, meditação e reiki – outrora execradas pela ciência – recebem hoje o aval de diversas pesquisas demonstrando seus riscos e benefícios. São milhares de estudos, com mais de quatro décadas de investigação. Tem pesquisa bem feita sobre meditação da década de 50! Tem pesquisa bem feita até sobre “Experiência de Quase-Morte” ou sobre “Médiuns espíritas”. A ciência apenas pesquisa, da maneira mais imparcial possível. Ela não fica “chateada” ou “melindrada” porque um fenômeno ou opinião não vai de encontro com suas idéias. Ela não é dogmática. Então, “ponto a menos” para as Constelações Familiares se o caso for simplesmente não dialogar com a ciência. Aí, vira igreja mesmo. Ou então pseudociência.

Mas vejo que não é caso. Creio que as Constelações Familiares realmente tem interesse em dialogar com a ciência (mostrarei ao final do texto). Hellinger, seu proponente, não era um sujeito hostil à ciência. Quando falo em dialogar não digo se “submeter”.  A ciência é um empreendimento aberto, com métodos específicos, abrangentes – desde análises estatísticas, neuroimagem – até análises fenomenológicas e outros métodos qualitativos. A ciência é amigável e certamente as Constelações Familiares podem ser pesquisadas através de diferentes métodos e epistemologias. Mas tem que investigar.

Vejam bem, eu estudo e trabalho com Mindfulness, que é uma técnica com inspiração nas práticas de meditação. Eu poderia simplesmente dizer que “eu sei” que mindfulness faz bem e que “não interessa” o que a ciência diz. Que a ciência é “reducionista bla bla bla”. Pronto – fundei a “igreja do mindfulness”. Mas não é assim que eu penso. Eu quero dialogar com a ciência. Eu preciso, pois não estou “defendendo uma idéia”, estou avaliando suas hipóteses, sua segurança e seu alcance. Estou interessado em oferecer algo para a população que seja seguro e que tenha uma eficácia confirmada para além de evidências anedóticas.

O caso do mindfulness é interessante, pois tem pontos semelhantes às Constelações Familiares. É uma técnica psicológica, uma intervenção, utilizada em Psicologia e Medicina para ajudar pessoas com diferentes condições clínicas. Assim como as Constelações, o mindfulness é quase sempre aplicado em um grupo. Então, tanto nas Constelações quanto no mindfulness temos um grupo de pessoas reunidas para receber ou participar de uma intervenção que visa ajudá-las a lidarem com dificuldades de suas vidas.

Quando o mindfulness surgiu, no final da década de 70, muitas pessoas falaram: “isso aí é misticismo”, “isso aí é nova-era”, “isso aí é Budismo, não é ciência”, “isso aí é maluquice”, etc. Alguns, mal informados e preconceituosos, ainda falam isso. Toda sorte de preconceito. Então, o que fizeram foi avaliar o mindfulness com as ferramentas da ciência. Fizeram um ensaio clínico randomizado, aprovado por um comitê de ética de pesquisa, e começaram a ver se as alegações do mindfulness faziam sentido. Desde então, já temos milhares de pesquisas, envolvendo desde pesquisas quantitativas e qualitativas, abordando diferentes epistemologias, e mostrando os benefícios e limites do mindfulness. Sim!!! As pesquisas ajudam a mostrar o que funciona, o que não funciona, e o que é seguro e não é seguro para diferentes grupos de pessoas. O método científico ajuda a prática e o profissional a ficarem mais lúcidos e responsáveis.

Afinal, estamos lidando com seres humanos e suas diferentes histórias e vulnerabilidades. É sempre um risco expormos pessoas a uma intervenção, seja qual for. O método científico nos ajuda a avaliar e melhorar a intervenção para podermos cuidar melhor das pessoas. Por isso estabelecemos critérios de inclusão e exclusão em um ensaio clínico. Do ponto de vista científico, só podemos oferecer – em larga escala – uma intervenção depois de avaliarmos profundamente sua eficácia, riscos e benefícios. Toda intervenção tem riscos, incluindo o mindfulness. Até que a intervenção seja aplicada em larga escala devemos fazer pequenos estudos pilotos, com rigoroso controle de variáveis. Devemos pedir a avaliação do projeto para um comitê de ética especializado que pode nos ajudar a entregar para a população uma intervenção segura e que garanta os benefícios.

Nestas pesquisas, devemos utilizar métodos quantitativos e qualitativos. Todas as epistemologias e abordagens devem contribuir para melhor compreensão do fenômeno.

O Conselho de Psicologia indica, pautada no código de ética, a importância do Psicólogo trabalhar com técnicas fundamentadas cientificamente.

Vejam a nota do CFP:

Mas eis que, de tanto pesquisar, acabei encontrando um ensaio clínico pesquisando sobre Constelações Familiares! Sim!! Fiquei muito feliz pois significa que o método está sendo testado e verificado cientificamente! Boa notícia, mas é apenas 1 estudo. Certamente, outros estudos virão. Neste estudo, especificamente, os autores não encontraram nenhum efeito adverso da intervenção, além de encontrarem diversos benefícios. A principal limitação do estudo parece ser a não existência de um grupo controle ativo (utilizaram apenas lista-de-espera). E tinha gente achando que eu tinha algo “contra” as Constelações. Não tenho. Sou um pesquisador de cabeça abertaaaa!

Link do estudo (em inglês): https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23957767

Mas já é uma excelente notícia. Espero que as pesquisas se multipliquem e que a Constelação Familiar seja, em breve, um método com evidências científicas robustas (evidence-based approach). Como eu disse no primeiro e polêmico texto que havia escrito – TODOS GANHAM! As pessoas, a intervenção, a Psicologia e a Ciência. O mais importante? As pessoas, é claro!

Constelação Familiar está “comprovada cientificamente”? Não. Tem apenas um ou outro estudo. Quando tivermos uma massa consistente de evidências favoráveis talvez possamos ter mais segurança em recomendar a prática em larga escala. Espero que isso aconteça.

Paz!!!! Abraços!

 

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