O impacto do engajamento do terapeuta na manutenção da terapia

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Este artigo se propõe, de maneira prática, a analisar um conjunto de comportamentos específicos do terapeuta em sessão que, de modo geral, favorecem a manutenção do cliente em terapia. Este conjunto de comportamentos específicos será denominado aqui como “engajamento”. Vale destacar que, para além de uma análise destes comportamentos, o artigo visa propiciar uma reflexão para terapeutas iniciantes, em formação, ou mesmo experientes, sobre determinadas condutas clínicas que podem ser adquiridas e praticadas para evitar abandonos do processo terapêutico por parte dos clientes, fato bastante comum nos estágios iniciais desta atividade.

O termo “engajamento” pode fazer referência a uma variedade muito ampla de comportamentos de um indivíduo em diferentes contextos. Por exemplo, um funcionário que é sempre pontual e cumpre as tarefas de trabalho pode ser referido como um funcionário “engajado”. Um parceiro que, frequentemente, presenteia, telefona e auxilia a parceira pode ser referido como “engajado” no relacionamento. Tais comportamentos tendem a produzir, tipicamente, consequências reforçadoras, tanto para o indivíduo que os emite, quanto para aquele que é consequenciado por estes padrões.

No contexto terapêutico, também podemos apontar alguns comportamentos de engajamento do terapeuta que, presumivelmente, exerceriam a função de manter o cliente em terapia. Estes comportamentos estão relacionados ao repertório de habilidades sociais que o terapeuta dispõe e que emite enquanto está atendendo um cliente. Por exemplo, Banaco (1993), cita algumas topografias recomendadas para o terapeuta ao lidar com o cliente, como chama-lo pelo nome, manter contato visual contínuo, manter uma fisionomia receptiva e não o interromper. Estes e outros comportamentos do terapeuta favorecem, inevitavelmente, o estabelecimento de um clima de confiança, sentimentos de acolhimento no cliente e, presumivelmente, uma probabilidade aumentada de que este retorne às sessões posteriores.

O tema do engajamento do terapeuta no processo clínico converge, inevitavelmente, para o tema da centralidade da relação terapêutica como o instrumento mais importante que o terapeuta deve ficar sob controle enquanto atende. Isto significa que, primariamente, não é a abordagem teórica, as técnicas ou o conhecimento que o terapeuta possui que fará com que o cliente se mantenha em terapia, mas sim o modo como o primeiro constrói e mantém a relação com o segundo. O tipo de relação que deve ser estabelecido com o cliente é o que se denomina “relação de intimidade” (Kohlenberg & Tsai, 1991/2006).

A intimidade pode ser descrita como um conjunto de respostas caracterizado, essencialmente, pelo compartilhamento de pensamentos e sentimentos em um contexto seguro e de confiança. Envolve também permitir-se estar vulnerável ao outro e aberto a críticas ou punições (Vandenberghe & Pereira, 2005). A emissão destes comportamentos em uma relação interpessoal implica em riscos característicos que envolvem consequências aversivas de natureza social, como ser criticado, mal compreendido e rejeitado. No entanto, quando estes comportamentos são reforçados positivamente, estabelece-se uma relação de intimidade (Almeida, Runnacles & Silveira, 2016; Kohlenberg, Tsai, Kanter, Kohlenberg, Follete, & Callaghan, 2011; Vandenberghe & Pereira, 2005).

Provavelmente, o terapeuta que atua com Psicoterapia Analítica Funcional (FAP), está bastante familiarizado com o conceito de intimidade e a com a sua importância no processo terapêutico. Esta abordagem propõe sistematizações objetivas de comportamentos ditos de intimidade e oferece descrições funcionais dos mesmos. Em relação aos comportamentos do terapeuta, por exemplo, Fugita (2014), ressalta a importância deste ficar sob controle das variáveis que controlam o comportamento do cliente no aqui/agora da sessão terapêutica. Dito de outro modo, um terapeuta que está atento e responde aos estímulos provenientes do cliente e não de outras fontes pode ser considerado engajado no processo. Por outro lado, se o terapeuta responde predominantemente a outras fontes de estimulação que não o cliente – por exemplo, ficar pensando no que vai fazer após a sessão enquanto o cliente relata algo – ele está, certamente, dificultando o estabelecimento de uma relação íntima e produtiva com o mesmo.

Neste contexto, é importante atentar-se para o que a FAP denomina T1s – comportamentos-problema do terapeuta – e T2s – comportamentos-alvo do terapeuta. Alguns T1s típicos que ocorrem em sessão podem incluir e esquiva de sentimentos negativos do cliente, fazer brincadeiras em momentos inoportunos, interromper o relato do cliente de maneira inadequada, etc. Alguns T2s incluem manter-se aberto e presente quando o cliente expressa sentimentos negativos e manejar adequadamente os próprios sentimentos negativos, como a ansiedade (Kohlenberg, et. al. 2011). Uma vez que o terapeuta desenvolva um repertório clínico em que os T2s sejam mais prevalentes do que os T1s, o processo terapêutico tende a ser mais efetivo e gratificante para ambas as partes.

As sessões iniciais do processo terapêutico são tidas como fundamentais para o sucesso do mesmo. Aqui, presume-se que o terapeuta deve se esforçar em emitir mais T2s do que em outros estágios da terapia. Em outras palavras, exige-se, a princípio, um maior engajamento do terapeuta nestas sessões para o estabelecimento de um bom vínculo terapêutico e para que o cliente se mantenha no processo. Alguns aspectos mencionados por Silveira (2012), como o cuidado com a apresentação pessoal, a postura, os gestos, a disponibilidade afetiva, a cordialidade, etc., sugerem que o terapeuta está engajado no trabalho terapêutico e que seu comportamento será, provavelmente, reforçado pelo retorno do cliente na próxima sessão. Ainda sobre as primeiras sessões, dos Santos, Santos e Marchezini-Cunha (2012, p. 139), relatam que “é comum o clínico limitar-se a fazer perguntas e indicar compreensão do que é dito, intervindo poucas vezes com feedbacks ou conselhos.”

Estes comportamentos do terapeuta sinalizam a presença de um bom repertório clínico que deve ser considerado funcionalmente para ambas as partes. Ou seja, ao emitir estes comportamentos, espera-se não apenas que o terapeuta produza consequências reforçadoras para o cliente, ajudando-o em suas queixas, como também para si mesmo. Isto implica em observar os efeitos que o comportamento do cliente produz no terapeuta quando este atua de determinada maneira. Por exemplo, se o terapeuta é capaz de funcionar como uma boa audiência não punitiva e, como consequência, obtém uma revelação importante do cliente para o processo, tal revelação pode exercer um efeito reforçador no sentido de aumentar a força e a frequência de comportamentos de ouvinte do terapeuta.

Outro exemplo poderia ser o seguinte: ao fazer uma interpretação funcional adequada de um comportamento-problema do cliente, este reage com expressão facial reflexiva e de atenção, verbalizando que “nunca tinha parado para pensar nisso” ou que o terapeuta “matou a charada”. Estas reações podem reforçar o comportamento do terapeuta de fazer interpretações funcionais precisas e de se engajar, de um modo geral, no processo terapêutico deste cliente em particular. É importante que o terapeuta esteja consciente dos processos de reforçamento que ocorrem em sua interação com os clientes para que possa utilizar isso a seu favor e a favor do cliente. Para finalizar, é fundamental que o processo terapêutico seja reforçador (satisfatório) não apenas para o cliente, mas também para o terapeuta, uma vez que este terá maiores chances de proporcionar uma ajuda efetiva se estiver satisfeito com seu trabalho, e isto inclui manter os clientes em terapia, sem altas taxas de abandono.

 

Referências:

Almeida, M. S., Runnacles, A. L. S., & Silveira. (2016). Treino de comportamentos de intimidade para terapeutas em processo de formação em Psicoterapia Analítica Funcional. Revista Perspectivas, vol. 7 (2), pp. 212-228.

Banaco, R. A. (1993). O impacto do atendimento sobre a pessoa do terapeuta. Temas em Psicologia, vol. 1 (2), pp. 71-80.

dos Santos, G. M., Santos, M. R. M., & Marchezini-Cunha, V. (2012). A escuta cautelosa nos encontros iniciais: A importância do clínico analítico-comportamental ficar sob controle das nuances do comportamento verbal. Em N. B. Borges & F. A. Cassas (Orgs.), Clínica analítico-comportamental: Aspectos teóricos e práticos. Porto Alegre: Artmed.

Fugita, L. M. P. (2014). Elaboração de um mapa de ensino do comportamento de intimidade de terapeutas da Psicoterapia Analítica Funcional. Monografia não publicada. Universidade Federal do Paraná. Curitiba, PR.

Kohlenberg, R. J., & Tsai, M. (1991/2006). Psicoterapia analítica funcional: Criando relações terapêuticas intensas e curativas. Santo André: ESETec.

Kohlenberg, R. J., Tsai, M., Kanter, J. W., Kohlenberg, B., Follete, W. C., & Callaghan, G. M. (2011). Um guia para a psicoterapia analítica funcional (FAP): Consciência, coragem, amor e behaviorismo (F. C. S. Conte & M. Z. S. Brandão, Orgs. Trads.). Santo André: ESETec.

Silveira, J. M. (2012). A apresentação do clínico, o contrato e a estrutura dos encontros iniciais na clínica analítico-comportamental. Em N. B. Borges & F. A. Cassas (Orgs.), Clínica analítico-comportamental: Aspectos teóricos e práticos. Porto Alegre: Artmed.

Vandenberghe, L., & Pereira, M. B. (2005). O papel da intimidade na relação terapêutica: Uma revisão teórica à luz da análise clínica do comportamento. Psicologia: Teoria e Prática, vol. 7 (1), pp. 127-136.

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