A vida de B.F. Skinner parte IX: Walden II

0

Este é o nono artigo de uma série que discute a vida de Burrhus Frederic Skinner. Recomenda-se que o leitor interessado leia os artigos anteriores disponibilizados pelo Comporte-se, para que consiga compreender melhor o texto. Quem é o homem por trás da teoria que inspira tantas pessoas até hoje? O objetivo desta série é reconstruir o caminho percorrido por Skinner, apontando aspectos de sua vida pessoal que determinaram seu comportamento e, consequentemente, o de muitos outros. Espera-se que esta narrativa possa não apenas cativar o leitor, mas também tornar natural e humano aquilo que mais nos fascina.

Como já apontado nos artigos anteriores, ao longo da década de quarenta, Skinner ampliava seu horizonte de atuação: do laboratório para a sociedade. Com os recentes fracassos do Project Pigeon e o do Air Crib (ver artigos anteriores), Skinner se envolveu em outro projeto, mais próximo de suas habilidades enquanto behaviorista e especialista em literatura, escrever um romance. A esta altura, Skinner ansiava em ver que os princípios descobertos em laboratório poderiam ser empregados para melhorar a vida das pessoas.

Juntamente com isso, Skinner carregava uma bagagem de referências literárias sobre comunidades especialmente planejadas de forma que elas pudessem viver da forma mais próxima de seus valores. Em destaque, o livro de Henry Thoreau, um manifesto poético contra a civilização industrial e o vigente modo de vida americano. Skinner carregava um exemplar do livro após comprar o primeiro carro, como uma forma de lembrar do valor da vida simples (Bjork, 1997).

Skinner, em 1947 na biblioteca da Universidade de Columbia.

Inspirado por Thoreau e fundamentado pelos princípios de aprendizagem descobertos em laboratório, Skinner começou a escrever o livro em 1945, terminando a primeira versão que se intitulava The Sun is Nothing But a Morning Star (em português, O Sol não é Nada Senão uma Estrela da Manhã) em apenas sete semanas. Não discorrerei aqui sobre a obra do autor, mas é possível adquirir um áudio book lido pelo próprio Skinner pelo valor mínimo de 1,99 dólares no link: http://www.bfskinner.org/product/walden-two-audiobook-mp3/.

A extrapolação teórica permitiu que o autor conciliasse desejos e valores pessoais com princípios recém-descobertos por ele e por outros colegas. Havia uma aproximação intelectual entre as propostas de desobediência civil de Thoreau e a predileção de Skinner pelo emprego de procedimentos de reforçamento positivo, em detrimento de técnicas aversivas (Bjork, 1997). Skinner também colocou como um ponto central da sociedade de Walden II a filosofia da experimentação, um estimado valor para ele enquanto psicólogo experimental. Além disso, Skinner fazia questão de afirmar enfaticamente que o modo de fazer essa transformação social seria por meio da aplicação da ciência do comportamento – e não por meio da política, do bom senso, de propostas religiosas, da competição instigada pelo capitalismo ou de uma revolução socialista.

A criação de um alter ego “Burris” (em referência ao seu primeiro nome Burrhus) permitiu ao autor que ele dissesse coisas que talvez não falasse caso tivesse que assinar como B.F. Skinner. Isso permitiu com que sua extrapolação fosse maior ainda – a possibilidade de desaprovação social direta parecia menor. Além disso, o livro permitiu com que o autor terminasse e publicasse uma obra de romance, um ressentimento de seu Dark Year (ver artigo desta mesma série).

Naturalmente, suas propostas iriam enfrentar bastante resistência. Quem estava disposto a abrir mão de sua, suposta, porém cara, liberdade em nome de um autoproclamado inventor social? Vale lembrar que, no período pós-guerra, havia um anseio global pela promoção da liberdade (ainda mais nos Estados Unidos) em detrimento de técnicas de controle associadas ao nazismo e futuramente ao socialismo da União Soviética. Temas como liberdade e controle irão permear grande parte das obras do autor a partir de então (Skinner, 1971; 1974; 1978; 1987).

Skinner estava com dificuldade em encontrar uma editora que aceitasse publicar seu manuscrito. Mas após quatro negativas, a editora MacMillan aceitou sob uma condição: que Skinner escrevesse um livro texto didático sobre a sua tão mencionada ciência do comportamento. Esta é a origem de sua mais famosa obra: o livro Ciência e Comportamento Humano (Skinner, 1953).

A tentativa de Skinner de tornar real uma comunidade baseada em Walden nunca foi concretizada. Apesar disso, duas tentativas reais foram feitas. Dois estudantes, um de Yale (Arthur Gladstone) e um de Harvard (Matthew Israel) contataram Skinner com planos de estabelecer uma comunidade perto de Boston, mas os planos não foram para frente por falta de terras e dinheiro. Houve um investidor interessado (Owen Aldis) em estabelecer uma comunidade para acadêmicos em ano sabático, mas seus planos envolviam um salário em troca de serviços comunitários. Skinner rejeitou a proposta por se aproximar de um modo de vida capitalista que destoava da ideia de Walden (Skinner, 1979).

Apesar das tentativas fracassadas, duas comunidades foram fundadas na década de 60 baseadas na obra de Skinner e continuam ativas até hoje. A primeira Twin Oaks (Louisa County, Virginia), tem atualmente cerca de 100 membros e a segunda, Los Horcones (Sonora, México). Ambas comunidades têm particularidades que as diferenciam bastante da proposta original, como presença de religião, comércio e prestação de serviços de análise aplicada do comportamento.

Quando perguntado o motivo de ele não ter se juntado a uma dessas comunidades, Skinner afirmou que sua maior contribuição seria a promoção da ciência do comportamento, e isso poderia ser feito melhor caso permanecesse na universidade. Além disso, sua esposa não demonstrava o menor interesse em se juntar nessa empreitada (Bjork, 1997). Apesar disso, Skinner chegou a visitar a comunidade de Twin Oaks e gostou bastante do que viu, apesar de ponderar que havia poucas atividades de lazer para os seus membros.

A descoberta de regularidades entre a apresentação de certos estímulos e respostas de organismos infra-humanos permitiu com que o Skinner pudesse planejar um modo de vida diferente. Promover mudanças comportamentais no laboratório nunca foi o objetivo final de Skinner.

Não perca os próximos capítulos!

Referências:

Bjork, D. W. (1997). B.F. Skinner: A life. Washington, DC, US: American Psychological Association.

Skinner, B. F. (1953). Science and human behavior. New York, Estados Unidos: The Free Press.

Skinner, B. F. (1971). Beyond freedom and dignity. New York, Estados Unidos: Alfred A. Knopf.

Skinner, B. F. (1974). About behaviorism. New York, Estados Unidos: Random House.

Skinner, B. F. (1978). Reflections on behaviorism and society. Englewood Cliffs, Estados Unidos: Prentice-Hall.

Skinner, B. F. (1979). The shaping of a behaviorist: Part two of an autobiography. New York: Alfred A. Knopf.

Skinner, B. F. (1987). Upon further reflection. Englewood Cliffs, Estados Unidos: Prentice-Hall.

 

AnterioresAssista ao vídeo: O que Skinner fez?
SeguintesApresentação da coluna sobre Psicoterapia Analítica Funcional (FAP)
Cainã Gomes
Formado em Psicologia pela PUC-SP e especialista em Clínica Analítico-Comportamental. É pesquisador do Paradigma - Centro de Ciências do Comportamento, onde também atua como terapeuta. Tem experiência na área de Análise do Comportamento, com ênfase com Comportamento Governado por Regra e RFT (Relational Frame Theory). Foi coordenador da Comissão de História de Análise do Comportamento da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental (ABPMC) na gestão 2015-2016. Além disso, é mestrando do programa de Psicologia Experimental: Análise do Comportamento da PUC-SP com período sanduíche na Universidade de Gent, sob orientação do Prof. Dermot Barnes-Holmes.
COMPART.

COMENTE VIA FACEBOOK

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here