Negritude e análise do comportamento: negligências cientificas e sociais

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Eu ‘tava dormindo, Ngoma me chamou
Eu ‘tava dormindo, Ngoma me chamou
Levanta povo, cativeiro já acabou.
(Trecho de um ponto de Jongo)

 

Da construção da grade curricular do curso, o foco da produção do conhecimento e até o valor inacessível para a maior parte da população brasileira – a psicologia sempre priorizou as elites.

Com a mudança do perfil de estudantes de universidades (públicas e privadas) graças a inserção de cotas raciais-sociais somos, enquanto comunidade científica, confrontados com outra realidade, outros focos e outras prioridades.

Ao nos inserirmos na produção do saber, e aqui me incluo enquanto bolsista e cotista de uma das principais universidades do país, trazemos outros repertórios e priorizamos outras variáveis até então negligenciadas.

Por conta disso, dentre as muitas ideias que surgiram, decidi explorar nesse primeiro texto as abordagens que a análise do comportamento (AC), enquanto ciência, tem dado a temas relacionados à negritude e racismo.

Seguindo o que aprendi em todas as disciplinas de metodologia de pesquisa (e acreditem, foram muitas! ahahhaha) meu primeiro passo foi buscar artigos referentes negritude nas principais revistas em Análise do Comportamento do país. Para isso utilizei as palavras-chave: racismo, negritude, preconceito racial.

Como o foco, nesse primeiro momento, foi a produção brasileira foram utilizadas 8 (oito) bases-revistas nacionais: Revista Brasileira de Análise do Comportamento (REBAC), Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva (RBTCC), Revista Perspectivas em Análise do Comportamento, site da Associação Brasileira de Análise do Comportamento (ACBr), Interação em Psicologia, Acta Comportamentalia, a coletânea de artigos do Sobre Comportamento e Cognição (ABPMC) e a Comporte-se.

O resultado? A produção nacional quase inexistente, ao menos dentro da Análise do Comportamento.

Sacco et. al (2016) realizaram uma revisão sistemática buscando estudos que tinham como foco preconceito racial publicados no país. Para isso utilizou os termos “racismo” e “preconceito racial” como norteadores da busca. Dos 77 artigos encontrados, a grande maioria eram da área da Psicologia Social, seguida da Psicanálise – a AC sequer é citada.

Mas afinal, porque olhar pra este viés em nossas análises?

De acordo com dados disponibilizados pelo IBGE, 53,6% da população brasileira é negra*. Na maior parte das pesquisas cuja variável racial é considerada, pessoas negras estão na base da pirâmide sempre como as mais desprivilegiadas. Mesmo assim quase não existem estudos na nossa área considerando a variável “raça”. Geralmente quando a temática aparece está dentro de um “pacote exclusão” citando os grupos marginalizados (mulheres, comunidade LGBT, negros), unificando suas demandas e, consequentemente, reforçando a invisibilização de suas pautas.

Um resgaste de forma rápida em nossas aulas de história do ensino fundamental e médio: durante o período de colonização vivenciamos um período cuja mão de obra quase total era a escrava. Milhares de pessoas foram trazidas a força e escravizadas, começando por volta do ano de 1538 e terminando legalmente em 1888 (por mais que registros apontem que a exploração de mão-de-obra humana continuou, e ainda continua no século XXI).

Após a assinatura da Lei Áurea por mais que, mais uma vez legalmente, famílias negras ex-escravizadas fossem livres não houve qualquer tipo de suporte por parte do governo monárquico para subsidiar uma vida de forma digna para estas pessoas. Essa omissão continuou na república. Muitos permaneceram nas mesmas fazendas ainda em condições sub-humanas e aqueles que buscaram as cidades encontraram o medo, preconceito e falta de oportunidades. O homem negro é lido como uma ameaça e, as mulheres ou são hipersexualizadas ou tratadas como cuidadoras. Essas representações estereotipadas carregadas de preconceito ainda hoje estão presentes na mídia no nosso país.

Exatamente 129 anos depois a democracia racial está longe de ser alcançada no país: somos a maior parte da população carcerária 67,1% dos presos (dados InfoPen); menos 20% dos estudantes em cursos superior (dados Seppir); e com os menores salários chegando a diferença de 57% (dados IBGE). Importante pontuar que a maior parte dos presos estão em regime fechado por conta do tráfico de drogas.

Carl Hart,  um neurocientista e professor Phd dos cursos de psicologia e psiquiatria da Universidade de Columbia,  dedicou seus estudos para compreender como funciona a adicção de drogas. Nos Estados Unidos, assim como no Brasil, a maior parte da população carcerária é negra e está presa por tráfico de drogas. No seu último artigo “Viewing addiction as a brain disease promotes social injustice” (“Ver o vício como uma doença cerebral promove injustiça social”) publicado pela revista “Nature” ele explora questões relacionadas a negligência da comunidade científica:

Professor Phd Carl Hart
A comunidade científica, por sua vez, praticamente ignorou a discriminação racial vergonhosa que acontece na aplicação da lei de drogas. Os próprios pesquisadores são em sua maioria brancos, e não têm que viver com as consequências de suas ações. Eu não tenho esse luxo. Cada vez que olho para os rostos de meus filhos ou volto ao lugar da minha juventude, sou forçado a enfrentar a dizimação resultante da discriminação racial que é tão desenfreada na aplicação das leis de drogas e é instigada por argumentos deficientemente fundamentados em evidência científica.

O racismo contra pessoas negras é consequência de toda esta construção sócio-histórica regada a diversos tipos de violência, segregação e genocídio – por conta disso conceitos como “racismo reverso” são absurdos e inaplicáveis, mas isso fica para um próximo texto.

Imagem retirada do filme “Dear White People”, em português “Cara Pessoa Branca”

Atrelado também estão os mitos atribuídos a raça negra: pesquisas apontam que profissionais de saúde ainda referenciam a pessoas negras uma suposta força e resistência maior a enfermidades e dores – culminando em sofrimentos além do necessários e negligências (Carias e Silva, 2016). A exemplo disso mulheres negras recebem menos anestesia em procedimentos cirúrgicos e morrem mais do que mulheres brancas. (Pinto, 2016).

Existir numa sociedade racista resulta em consequências profundas para o sujeito negro. Gonçalves (2007) discute a importância da Psicologia olhar de forma crítica e problematizar através de discussões a cultura onde estamos inseridos, envolvendo a comunidade científica e promovendo publicações acerca do tema.

Outra variável que precisa de foco é o olhar do próprio profissional psicólogo neste contexto histórico-cultural e os reflexos na sua atuação. Arraes (2015) aborda as consequências da formação deficitária no quesito “raça” e na atuação e o impacto direto nos sujeitos que buscam psicoterapia. Lista casos onde o pacientes/clientes foram confrontados diretamente por seus psicólogos com afirmações que negavam o impacto, e até mesmo a existência, do racismo no Brasil. Transformar o espaço terapêutico em um espaço aversivo e pouco acolhedor afasta ainda mais a negritude de um espaço que deveria ter como objetivo o acolhimento e auxílio.

Bem, se os estudos sobre negritude podem ser justificados como quase inexistentes por conta da baixa presença de cientistas negros, o porque a branquitude não é foco de atenção?

Schucman (2014) aponta que por terem sido socializados numa sociedade que se acredita desracializada, os cientistas/psicólogos majoritariamente brancos, fortalecem o ideário de que quem tem raça é  o outro: o negro, o índio, o amarelo. A branquitude é encarada então como normativa. Além disso, levantar estudos sobre branquitude significa também expor privilégios  (sejam simbólicos ou materiais) dentro da estrutura racista da sociedade.

Dado este cenário e tendo em vista que a AC  pode atuar como um agente de análise e mudanças, precisamos ir além. Como Botomé (1981) pontua:

Vai ser difícil a ciência do comportamento ajudar se os que a produzem não estiverem dispostos a: (1) envolver-se com os que sofrem e não apenas conhecer o seu sofrimento; (2) trabalhar com eles nas mudanças necessárias e não apenas para eles; (3) interferir na organização e administração social das contingências relacionadas ao controle do comportamento na cultura existente. (p. 17)

Reconhecer a urgência desta investigação é crucial para o avanço da compreensão da importância do fator racial como uma variável a ser considerada para contribuir na construção de uma sociedade igualitária, onde características raciais venham se mostrar socialmente irrelevantes.

É importante pontuar que esse texto parte de um recorte bem delimitado: iniciar as discussões do campo da negritude no contexto brasileiro pelo viés comportamental.

Ser negro é ser
Ser negro é ter a pele
pintada de dor e beleza.
É ter consciência de que
consciência, ainda não existe.
(Trecho do poema “Ser negro é ser” de Sintia Regina de Lima e Lira)

 

Referências 

ARRAES, Jarid. Meu psicólogo disse que racismo não existe. Revista Fórum. 25 jun 2017. Disponível em: <http://www.revistaforum.com.br/2015/06/25/meu-psicologo-disse-que-racismo-nao-existe/> Acesso em 23 fev 2017.

BOTOMÉ S.P. (1981). Serviço a população ou submissão ao poder: O exercício do controle na intervenção social do psicólogo. Ciência e Cultura, v.33, n.4, p.517-524. Disponível em: <https://obmbrasil.files.wordpress.com/2013/12/botome-servico-a-populacao.pdf> Acesso em 22 fev 2017.

CARIAS, A. R.; SILVA, R.L. . Violência de Estado e Racismo Institucional: a Psicologia na produção científica nacional. São Paulo – SP: Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, 2016. Disponível em: <http://www.crpsp.org.br/marcusvinicius/artigos/VIOLENCIA%20DE%20ESTADO%20E%20RACISMO%20INSTITUCIONAL%20A%20PSICOLOGIA%20NA%20PRODUCAO%20CIENTIFICA%20NACIONAL.pdf> Acesso em: 23 fev 2017.

GONÇALVES, M.G.M. Saúde e Trabalho In: Conselho Regional de Psicologia do Estado de São Paulo. Caderno Temático vol. 1 – Psicologia e Preconceito Racial. São Paulo, 2007.

GUIMARAES, Antonio Sérgio Alfredo. Preconceito de cor e racismo no Brasil. Rev. Antropol., São Paulo , v. 47, n. 1, p. 9-43, 2004 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-77012004000100001&lng=en&nrm=iso>. Acesso em 23 fev 2017.

MOURA, Gabriela. Ver o vício como uma doença cerebral promove injustiça social. Tradução do artigo original “Viewing addiction as a brain disease promotes social injustice” de Carl Hart. 2017. Disponível em: <https://medium.com/@metaforica_gabi/ver-o-v%C3%ADcio-como-uma-doen%C3%A7a-cerebral-promove-injusti%C3%A7a-social-bcf6c7d08e01#.7yydftm0w> Acesso em 23 fev 2017.

IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas. Desocupação foi de 4,3% em dezembro e fecha 2013 com média de 5,4%. jan 2014. Disponível em: <http://saladeimprensa.ibge.gov.br/noticias?view=noticia&id=1&busca=1&idnoticia=2575> Acesso em 23 fev 2017.

MINISTÉRIO DA JUSTIÇA. Departamento Penitenciário Nacional. Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias – InfoPen. Jun 2014. Disponível em: <https://www.justica.gov.br/noticias/mj-divulgara-novo-relatorio-do-infopen-nesta-terca-feira/relatorio-depen-versao-web.pdf> Acesso em 24 fev 2017.

MINISTÉRIO DOS DIREITOS HUMANOS. Secretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial – Seppir. Em 3 anos, 150 mil negros ingressaram em universidades por meio de cota. mar 2016. Disponível em: <http://www.seppir.gov.br/central-de-conteudos/noticias/2016/03-marco/em-3-anos-150-mil-negros-ingressaram-em-universidades-por-meio-de-cotas> Acesso em: 24 fev 2017.

PINTO Fabiana. Cor preta: vida e morte no atendimento médico de mulheres. Centro de estudos das relações de trabalho e desigualdades – CEERT. nov 2016. Disponível em:<http://www.ceert.org.br/noticias/genero-mulher/14545/cor-preta-vida-e-morte-no-atendimento-medico-de-mulheres> Acesso em 24 fev 2017.

SACCO, Airi M.; COUTO, Maria Clara P. de Paula; KOLLER, Sílvia H.. Revisão sistemática de estudos da psicologia brasileira sobre preconceito racial. Temas psicol., Ribeirão Preto , v. 24, n. 1, p. 233-250, mar. 2016 . Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-389X2016000100012&lng=pt&nrm=iso>. Acessos em 23 fev 2017.

SCHUCMAN, L. V. (2014). Sim, nós somos racistas: Estudo psicossocial da branquitude paulistana. Psicologia & Sociedade, 26(I), 83-94. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/psoc/v26n1/10.pdf>. Acesso em 22 fev de 2017.

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