Deslocamento do Sintoma: uma interpretação analítico-comportamental

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Uma crítica comum feita às terapias analítico-comportamentais se refere à superficialidade de suas intervenções. Diz-se que, ao lidar apenas com os sintomas, deixa-se de lado as reais causas dos problemas psicológicos. Um resultado indesejável seria, então, o deslocamento do sintoma: elimina-se um problema gerando outro. Recentemente ouvi de uma professora de Psicanálise que “a forma como a comportamental tenta curar o medo de elevador não funciona, pois ainda que esse medo diminua, acaba se deslocando para outra coisa”. Neste texto vamos discutir se o deslocamento de sintomas realmente existe numa visão analítico-comportamental, como funciona, e como evitá-lo.

Antes de tudo, falemos do termo “sintoma”. De acordo com o Dicionário de Psicologia de Doron e Parot (2001), o termo “implica uma relação entre algo que se mostra (o signo) e aquilo a que ele remete (em medicina, por exemplo, o distúrbio orgânico não visível). (…) O sintoma não assume valor senão na lógica médica em que se inscreve” (p. 712). Dois aspectos importantes se explicitam de tal definição: que o termo tem origem médica e associa o sintoma à doença; e que o sintoma não é o problema em si, mas a manifestação de algo oculto. As duas noções são problemáticas de um ponto de vista analítico-comportamental. Em primeiro lugar, comportamento não é doença. Mesmo os comportamentos que trazem sofrimento para o indivíduo foram selecionados pelo fato de produzirem consequências importantes. Segundo, o comportamento tem valor em si só, e não como manifestação de algo invisível e inacessível. Dito isso, o presente texto utilizará o termo “sintoma” com o sentido de “comportamento problemático”, e não da forma usualmente definida na Psicologia.

Qualquer analista do comportamento sabe que, por mais estranho, danoso, ou problemático que aparente, um comportamento sempre será funcional. Comportamentos que produzem reforçadores são fortalecidos, e aqueles que não produzem tendem a se enfraquecer. Um comportamento fortemente reforçado irá se manter mesmo que produza consequências punitivas adicionais. O que chamamos de comportamento-problema muitas vezes é isso: um comportamento que, apesar de reforçado, traz consequências aversivas ao próprio indivíduo ou a outras pessoas.

Comportamentos-problema geralmente acontecem porque não existem no repertório do indivíduo outras respostas capazes de produzir os mesmos reforçadores sem gerar sofrimento. Por exemplo, um adolescente submetido a uma rotina de estudos excessivamente estressante poderia comunicar aos pais e professores que não consegue alcançar o ritmo que é esperado dele, solicitando alternativas. Tais comportamentos sociais teriam função de eliminar ou amenizar sua rotina de estudos desgastante (reforço negativo do tipo fuga). É possível, no entanto, que ao longo de sua vida esse adolescente tenha sido punido pelos pais por expressar incômodo e fazer solicitações dessa natureza, de forma que os repertórios em questão foram pouco desenvolvidos. Assim, outras respostas com a mesma função – eliminar a rotina estressante – poderão surgir. O adolescente pode, por exemplo, passar a sentir fortes dores de cabeça ou algum problema físico que o impossibilite de estudar. Chamaríamos tais problemas físicos de “sintomas”, mas não são mais do que respostas cumprindo uma função importante ao indivíduo.

Em uma terapia analítico-comportamental, o primeiro passo para uma intervenção bem sucedida é a condução de uma análise funcional. É possível realizar intervenções que não partam de uma análise funcional, mas corre-se o risco de que seus resultados sejam paliativos ou insuficientes. O motivo é simples: a análise funcional identifica os reforçadores importantes trazidos pelo comportamento indesejado. Uma boa intervenção deverá proporcionar novos repertórios para produção daqueles mesmos reforçadores, gerando menos sofrimento ao cliente. Não sendo assim, só restariam duas formas de reduzir a frequência do comportamento-problema: punição e extinção. A punição e a extinção quando não acompanhadas do reforçamento de respostas alternativas podem funcionar para reduzir a frequência do comportamento, mas também reduzirão o acesso ao reforçador. Só que o indivíduo precisa daquele reforçador. O que vai acontecer, então, é o aumento da probabilidade de outra resposta que tenha a mesma função, mesmo que ainda mais prejudicial ao indivíduo. Isso é o que poderíamos chamar de deslocamento do sintoma.

Vamos clarear essa dinâmica através de um exemplo de caso clínico fictício. Joana é uma jovem que buscou terapia para lidar com seus ciúmes. Ela namora Marcos há um ano, e descreve o relacionamento dos dois como relativamente tranquilo, se não fosse pelas brigas causadas pelos seus ciúmes. Joana descreve Marcos como sendo calmo, pacífico, calado, e às vezes frio. Como Marcos não fala muito, Joana sente-se insegura diante das atitudes do namorado, e às vezes “cria coisas em sua cabeça”. Mesmo percebendo que suas desconfianças são quase sempre irracionais, sente o impulso de cobrar e questionar o namorado, o que invariavelmente gera brigas. Tais brigas têm se tornado mais frequentes, gerado desgaste, e Joana acredita que possam culminar no término do relacionamento. A jovem sente-se angustiada por saber que seus pensamentos não são racionais e mesmo assim não consegue controlar seu ímpeto de brigar e quer ajuda do terapeuta para isso.

Em uma visão superficial, os comportamentos de Joana ligados ao ciúme não fazem sentido, pois geram desgaste no relacionamento sem trazer nenhum reforçador claro. Censurar Joana pelas suas crises, ou seja, punir seu comportamento, certamente não traria nenhum resultado, pois o namorado já faz isso e não tem adiantado. Pedir para que Joana “tente se controlar” seria, também, obviamente ineficaz. Uma hipótese razoável é de que o comportamento de Marcos nas brigas geradas pelos ciúmes seja de algum modo reforçador para a namorada. Talvez seja a única forma com que Joana consegue uma resposta calorosa do namorado que, em todos os outros momentos, parece frio e indiferente.

O terapeuta poderia pensar, então, ingenuamente: “se a atenção do namorado reforça, ele deveria parar de dar atenção a tais comportamentos de modo a colocá-los em extinção”. O terapeuta pode compartilhar tal análise com a cliente e, com consentimento dela, convidar Marcos para o consultório e instruí-lo para não dar atenção às crises de ciúmes de Joana. Em um primeiro momento, a extinção poderia gerar uma explosão de respostas, e os ciúmes da jovem ficariam ainda piores. Se Marcos resistir à explosão inicial e se mantiver firme na extinção, é possível que realmente funcione para reduzir os ciúmes (ou pelo menos as brigas) de Joana: sem o reforçador, o comportamento indesejado se enfraquece. Mas isso resolveria o problema? Se os ciúmes são em grande parte causados pela frieza de Marcos, deixá-lo mais frio seria uma solução? Obviamente não, e é fácil esperar nessa situação que Joana desenvolveria novos repertórios para despertar reações emocionais no namorado: poderia falar em suicídio, apresentar sintomas físicos complexos, agredi-lo de outra forma, ou apresentar qualquer outro comportamento funcionalmente equivalente, pelo simples motivo de que aquele reforçador continua sendo importante para ela (sobretudo se outras fontes de afeto são escassas). Como resultado de uma intervenção assim teríamos, de forma previsível, aquilo que poderia ser chamado de deslocamento de sintoma: um comportamento-problema tem sua frequência reduzida, mas um outro comportamento talvez ainda mais problemático tem sua frequência aumentada.

No nosso caso ilustrativo, a melhor intervenção seria trabalhar com Joana o desenvolvimento de novos repertórios para obtenção da expressão afetiva do namorado, provavelmente ligados a habilidades sociais. Se Joana conseguir comunicar-se assertivamente com Marcos – e isso funcionar – provavelmente deixaria de ter crises de ciúmes, e neste caso não haveria deslocamento de sintoma, pois ela continua obtendo o reforçador importante. Diante de repertórios funcionais e saudáveis, os sintomas tornam-se desnecessários.

Em se tratando de fobias, o deslocamento de sintomas, ao contrário do que disse a professora de Psicanálise, geralmente não existe. Pelo contrário: tratar uma fobia muitas vezes resulta na melhora de várias outras, uma vez que os estímulos envolvidos podem pertencer a uma mesma classe (como elevador e avião). Em casos assim, o deslocamento de sintomas pode acontecer somente quando a fobia se dá primariamente por questões operantes. Por exemplo, uma pessoa pode ter medo de dirigir, mas a partir desse medo consegue manter certo controle e aproximação das pessoas as quais geralmente lhe dão carona. Em um caso assim se aplicaria o raciocínio do tratamento dos ciúmes de Joana.

O fato de que a noção de sintoma (e seu possível deslocamento) remete a doenças físicas não é por acaso. Se duas respostas A e B produzem o mesmo reforçador, mas B produz consequências aversivas e A não, o indivíduo sempre preferirá A. Ou seja, o sintoma (B) só é uma opção quando A não está disponível, o que geralmente se dá em função de um repertório pobre. Respostas fisiológicas como aquelas envolvidas nos sintomas físicos são de baixa complexidade, e não requerem a extensa história de aprendizagem envolvida nos repertórios sociais/verbais, sendo esses últimos responsáveis pela obtenção da maioria dos reforçadores envolvidos em demandas clínicas. Portanto, na carência de repertórios ricos e assertivos, o indivíduo tende a utilizar de respostas mais primitivas para obtenção desses reforçadores importantes. Aproveitando da metáfora psicanalítica, diz-se o corpo “fala sem palavras” através do sintoma.

Em poucas palavras: em uma visão analítico-comportamental, o deslocamento de sintomas existe sim, e não é de todo raro. Mas não é uma característica das terapias analítico-comportamentais, e sim o resultado de intervenções ingênuas, sobretudo aquelas que falham em enxergar o comportamento, por mais problemático e sintomático que aparente, de forma empática e funcional.

REFERÊNCIA

Doron, R., & Parot, F. (2001). Dicionário de Psicologia. São Paulo: Ática.

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