Breve Comparação entre a Teoria Biossocial e o Modelo de Seleção por Consequências

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Desde o ano passado o Comporte-se conta com publicações regulares sobre a Terapia Comportamental Dialética (DBT), uma abordagem comportamental de terceira geração proposta por Linehan (1993/ 2010) inicialmente para o tratamento de pacientes Borderline, mas que, posteriormente, se mostrou e continua se mostrando efetiva para uma série de outras demandas clínicas. Neste processo, muitas dúvidas surgiram entre os leitores, dentre as quais destacamos aquelas que tratam das semelhanças e diferenças em relação ao behaviorismo skinneriano e à Análise do Comportamento. Jan Luiz Leonardi e Dan Josua já abordaram alguns destes aspectos aqui. O primeiro falou sobre a compatibilidade entre a filosofia Dialética e o Behaviorismo Radical e, o segundo, sobre o modelo DBT Standart como uma proposta para a Terapia Comportamental. Um terceiro tópico que merece ser explorado é a compatibilidade entre a Teoria Biossocial, apresentada por Marsha Linehan, e o Modelo de Seleção por Consequências skinneriano (Skinner, 1981/ 2007).

A Teoria Biossocial é o conjunto de conceitos que trata sobre a interação entre fatores biológicos e ambientais na determinação da Desregulação Emocional (Linehan, 1993/2010; Dornelles e Sayago, 2015). Sua principal premissa é que a desregulação emocional é principalmente uma disfunção gerada por irregularidades biológicas combinadas com certos ambientes disfuncionais, bem como da transação entre estes dois conjuntos de variáveis ao longo do tempo (Linehan, 1993/2010). Na proposta inicial, sua aplicação se limitava à compreensão do Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), mas com a evolução da DBT, assumiu papel de fundamento teórico para o trabalho com uma ampla gama de outros transtornos psiquiátricos (Koerner, 2012), e pelo menos a princípio, não há razões para imaginar que não possa ser usada para compreender também o comportamento saudável. Em outras palavras, embora Linehan (1993/2010) se refira especificamente à “desregulação emocional, nada impede que o modelo seja usado para compreender qualquer tipo de comportamento.

Neste ponto nos deparamos com a primeira semelhança entre a Teoria Biossocial e o Modelo de Seleção por Consequências. Skinner (1981/ 2007) também abordou o papel da biologia, do ambiente e da interação entre eles na determinação do comportamento. Nos escritos do autor, uma das formas pelas quais a biologia influencia o comportamento é através do substrato filogenético, que nos confere o comportamento reflexo, a capacidade do organismo de responder às consequências de suas ações e a sensibilidade aumentada ou reduzida a determinados tipos de estímulo (Banaco e Cols, 2012). O ambiente, por sua vez, exerce influência em dois níveis, o ontogenético, que diz respeito à história pessoa de vida do indivíduo, e a cultura, que diz respeito às práticas verbais da comunidade à qual o organismo é exposto (Skinner, 1981/ 2007). Há uma diferença, porém, nos aspectos da interação entre organismo e ambiente enfatizados por cada autor.

Enquanto Linehan (1993/ 2007) dedica especial atenção aos conceitos de Vulnerabilidade Emocional e Ambiente Invalidante, Skinner (1987/ 2007) fornece uma descrição mais generalista da interação entre o organismo e o ambiente. Possivelmente essa diferença exista por causa dos objetivos que cada um pretendia alcançar. A primeira almejava desenvolver um modelo terapêutico eficaz para pacientes cronicamente suicidas e Borderlines (Dornelles e Sayago, 2015), e o segundo, uma filosofia e uma ciência do comportamento capazes de explicar o comportamento dos organismos como um todo (Skinner, 1974). Feita esta ressalva, não grandes incompatibilidade entre as propostas.

O conceito de Vulnerabilidade Emocional descreve, em resumo, os padrões de 1. sensibilidade elevada a estímulos emocionais, 2. intensidade emocional e 3. lento retorno ao nível emocional basal. A sensibilidade elevada a estímulos emocionais é coerente com as noções behavioristas de sensibilidade ao reforçamento (Skinner, 1981/2007; Abreu e Abreu, 2016), sensibilidade aumentada ou reduzida a estímulos específicos (Banaco e Cols, 2012) e baixo limiar para eliciação respondente (Moreira e Medeiros, 2007). A intensidade emocional parece compatível com a sensibilidade aumentada ou reduzida a estímulos específicos (Banaco e Cols, 2012) e com lei respondente da intensidade-magnitude (Moreira e Medeiros, 2007), uma vez que as emoções possuem um componente fisiológico importante (Linehan 1993/ 2010), e este, está sujeito às leis do comportamento respondente (Leonardi, 2008).

O terceiro componente da Vulnerabilidade Emocional é o lento retorno ao estado emocional basal. Linehan (1993/ 2010) explica que as emoções são rápidas e fugazes, e o que as faz parecerem duradouras, é o efeito que tem sobre diversos processos cognitivos (verbais privados) que as ativam e reativam continuamente. A análise da autora é coerente com a noção de que o organismo faz parte de seu próprio ambiente. Conforme explica Matos (1999), os eventos privados podem funcionar como 1. fontes de controle discriminativo para comportamentos subsequentes, ou 2. fonte privada de estimulação relacionada a comportamentos que estejam ocorrendo. No caso, a excitação emocional pode 1. evocar pensamentos, memórias e outros eventos privados pareados à estimulação aversiva, que por sua vez, 2. eliciam novas emoções, e assim sucessivamente. Neste processo há uma influência maior da história de vida, uma vez que tanto os estímulos públicos quanto privados dependem de aprendizagem para adquirirem função (p. 232).

O segundo conceito apresentado por Linehan (1993/ 2010) é o de Ambiente Invalidante. O “Ambiente Invalidante” é aquele que diz ao indivíduo que a descrição que ele faz de seus próprios eventos privados está errada e que sua experiência corresponde a traços de personalidade socialmente inaceitáveis, como hostilidade, manipulação, fraqueza, ou outros. Conforme explicam Dornelles e Sayago (2015), falas como estas exercem função de punição do contato do indivíduo com seus eventos privados, e como efeito, ele não aprende a: (1) rotular experiências privadas, (2) regular a excitação emocional, (3) tolerar a tensão, (4) criar expectativas realistas, (5) demonstrar as emoções de forma socialmente adequada e (6) confiar nas próprias respostas emocionais e cognitivas.

Assim como ocorre com o conceito de Vulnerabilidade Emocional, a descrição feita pela autora dos padrões de interação que caracterizam o ambiente invalidante pode ser compreendida como resultado de seus objetivos ao propor a Terapia Comportamental Dialética. Linehan (1993/ 2010) enfatizou as características do ambiente que, em sua visão, contribuem para o desenvolvimento da Desregulação Emocional, em especial do TPB, portanto, trata-se de uma espécie de “recorte” das contingências. Este recorte é perfeitamente compatível com a descrição generalista fornecida por Skinner (1981/ 2007) das funções de estímulo que o ambiente pode adquirir. Além disso, a própria Linehan (1993/2010) aborda os conceitos de punição, reforço, controle de estímulos, modelagem, extinção, modelação, controle por regras, entre outros de forma mais ampla, generalista e direta em outras partes sua obra. Isso ocorre, por exemplo, quando fala sobre as variáveis que podem manter comportamentos problema:

“(…) o problema resulta do reforço para comportamentos desadaptativos, ou de punição ou consequências neutras para comportamentos adaptativos? ” (p.102)

Quando fala sobre a necessidade do paciente aprender a identificar as contingências que controlam seus comportamentos:

“Os indivíduos borderline devem aprender princípios de reforço, punição, modelagem, relações entre o ambiente e o comportamento, extinção, e assim por diante” (p.150)

Quando fala sobre a necessidade do terapeuta conhecer os princípios do comportamento para saber como intervir sobre o comportamento do cliente:

“O terapeuta precisa ter conhecimento dos princípios rudimentares do reforço. Por exemplo, os efeitos imediatos são mais prováveis de influenciar o comportamento do que efeitos que sejam temporalmente distantes do comportamento. O reforço intermitente pode ser um poderoso método de tornar um comportamento resistente à extinção. A punição suprime o comportamento, mas, se não houver outra resposta potencialmente reforçadora disponível, o comportamento geralmente reaparecerá uma vez que a punição seja retirada” (p.246/ 247)

O terceiro nível de seleção descrito por Skinner (1981/ 2007), a cultura, também é contemplado por Linehan (1993/ 2010) na Teoria Biossocial. A autora dá especial atenção ao Sexismo (p. 60), descrevendo práticas culturais como o abuso sexual, mais frequente em mulheres (p. 61), as formas como a sociedade ocidental rotula como “doentios” diversos comportamentos comuns entre as mulheres (p. 63) e as regras sobre o que é “coisa de mulher” e “coisa de homem”, com a consequente punição do comportamento destoante (p. 63) destes padrões. A despeito desta ênfase, a autora não deixa de falar sobre outros conjuntos de contingências culturais que também exercem controle sobre o comportamento do indivíduo:

“(…) as dificuldades duplas que as expectativas para os papéis dos sexos, da classe social, religiosas, regionais e raciais colocam no comportamento individual são consideradas dialeticamente como influências importantes para o comportamento individual” (p. 209).

A forma como Linehan (1993/2010) articula a ação destas variáveis sobre o comportamento é bastante coerente com a análise de Skinner (1953/ 2003) do papel Agências de Controle, que também estabelecem descrições sobre o que é certo errado, pecado virtude, etc., e reforça ou pune de acordo com estas regras.

Naturalmente é possível apontar diversas outras semelhanças e diferenças entre a Teoria Biossocial e o Modelo de Seleção por Consequências, e com certeza, não faltarão oportunidades para tanto. Por ora, os elementos apresentados são o bastante para introduzir o leitor ao tema. Deve ter ficado claro que os novos rótulos conceituais apresentados Linehan (1993/2010) em sua obra, como Teoria Biossocial, Vulnerabilidade Emocional e Ambiente Invalidante são compatíveis com as descrições comportamentalistas das contingências. Indo além, cada um deles reúne, sob sua égide, diferentes grupos de processos comportamentais que em conjunto atuam na determinação dos problemas clínicos estudados pelos autores da Terapia Comportamental Dialética. É possível discutir a necessidade ou utilidade da formulação de novos rótulos, mas isso também fica para uma próxima oportunidade.

REFERÊNCIAS

Abreu, P. R. & Abreu, J. H. S. S. (2016). Terapia comportamental dialética: um protocolo comportamental ou cognitivo? Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, XVIII, 45-58.

Banaco e Cols. (2012). Personalidade. In.: Hubner, M. M. C e Moreira, M. B. Fundamentos da Psicologia: Temas Clássicos da Psicologia sob a Ótica da Análise do Comportamento. São Paulo: Gen.
Koerner, K. (2012) Doing dialectical behavior therapy: a practical guide. New York: Guilford Press.

Leonardi, J. L., Nico, Y. C. (2008) A Relação entre o Comportamento Respondente e a Fisiologia na obra de B. F. Skinner. São Paulo: Núcleo Paradigma
Linehan, M. M. (2010a). Terapia cognitivo-comportamental para o transtorno da personalidade borderline. Porto Alegre: Artmed.

Moreira, M. B. Medeiros, C. A. de. (2007) Princípios básicos de análise do comportamento. Porto Alegre: Artmed

Skinner, B. F. (1974) Sobre o Behaviorismo. São Paulo: Cultrix

Dornelles, V. G. e Sayago, C. W. (2015). Terapia Comportamental Dialética: Princípios e Bases do Tratamento. In.: Santos, P. L, Gouveia, J. P. e Oliveira, M. S. . Terapias Comportamentais de Terceira Geração: guia para profissionais. Novo Hamburgo: Synopsis Editora.

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Psicólogo com especialização em Terapia Comportamental pelo ITCR (Campinas, SP), formação em ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso) e FAP (Terapia Analítica-Funcional) pelo Instituto Continuum (Londrina/ PR) e aluno do curso de formação em DBT (Terapia Comportamental Dialética) do Behavioral Tech | A Linehan Institute (Seattle, EUA). É sócio-diretor da Clínica Ello: Núcleo de Psicologia e Ciências do Comportamento, em Patos de Minas/ MG, onde atende a adultos em terapia individual e de casais, coordena grupos de estudos sobre Terapias Comportamentais e fornece supervisão clínica a outros terapeutas comportamentais. Coorganizou dois livros de Terapia Comportamental: Terapia Comportamental: Dos Pressupostos Teóricos às Possibilidades de Aplicação (Esetec, 2012) e Depressão: Psicopatologia e Terapia Analítico Comportamental (Juruá, 2015). É fundador e diretor geral do Comporte-se: Psicologia e Análise do Comportamento.
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