Política é Comportamento Social e Outras Pontuações

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(Imagem referente ao livro sobre as Jornadas de Junho, 2013)

RESUMO

Diversos eventos contemporâneos como as Jornadas de Junho, em 2013, têm colaborado para que um número crescente de cidadãos se interessem pelos temas que envolvam Política. No entanto, nem todos têm acesso a textos introdutórios ou a outros tipos de formação educacional adequada para compreender algumas nuances do contexto atual. Deste modo, será introduzida a noção de Política como comportamento social e subjetividade dentro de uma visão analítico-comportamental e apresentaremos como alguns argumentos políticos populares são frágeis a luz desta perspectiva. Espera-se contribuir com fomento de novas discussões envolto a temática exposta.

Discutir Política é discutir comportamento social (Lopes, 2015). Para tanto, não há como desvincular decisões éticas recentes da origem do comportamento e o estrato social no qual ele foi modelado. Muitos dos modelos e regras sociais a que aderimos refletem práticas culturais hegemônicas que nos sensibilizaram mais para certas consequências e decisões do que outras, que nos fizeram crer mais em certas “verdades” do que outras. Assim, é inevitável compreender que discutir Política em Análise do Comportamento é discutir subjetividade! Por sua vez, falar de subjetividade em Análise do Comportamento é tratar de relações sociais (Tourinho, 2009).

Infelizmente, quando se trata em discussões de filosofia Política ou mesmo em ambientes informais no dia a dia, acabamos por tentar explicar nossas decisões de modo a-histórico, imparcial e apartidário quase aos moldes iluministas e vitorianos. Estes posicionamentos pressupõem existência de um raciocínio puro e neutro, que seria possível apenas por meio de discussão e consenso, o que é incompatível como a noção de modelagem social de comportamentos de pensar, decidir e acreditar. Numa visão analítico-comportamental, isso equivale ao mito da neutralidade. Pensar, decidir e acreditar são comportamentos socialmente determinados, cuja sua origem já pressupõe parcialidade cultural (Bandini & Delage, 2012; Benvenuti, 2010; Dittrich, 2010). Assim, não há como fugir de ideologias. Todo comportamento social é comportamento político. Todo comportamento social é comportamento ideológico. Agora, cabe compreender que ideologias são estas e se elas são adequadas ao bem-estar social contemporâneo (população em geral e minorias) e para futuras gerações.

Para além do mito da neutralidade e imparcialidade, há o mito do consenso, já indicado acima. Há condições em que não há como existir consenso. Não porque as pessoas sejam arredias e grosseiras, mas pelo fato de que há interesses nitidamente distintos. Por exemplo, grandes empresários lucram mais se houver diminuição dos benefícios trabalhistas e, por outro lado, o bem-estar dos trabalhadores é maior se lhes for garantido seus direitos trabalhistas. Dificilmente, os trabalhadores aderirão a perda dos seus direitos e tão pouco os empresários abrirão mão do lucro. Alguém que acredita no mito da neutralidade poderia dizer que faltou as partes conversarem. No entanto, sabemos que comportamento verbal (sejam argumentos, sejam réplicas) podem não ser às contingências críticas que controlam o comportamento (Coelho; Wechsler & Amaral, 2008). Qualquer pessoa pode defender o posicionamento X, dizendo que o faz por razões Y, mas ela está, realmente, sobre controle de ter acesso a cargo Z, por fazer parte do grupo W (seja de modo consciente ou não, o que abre discussão para corrupção). É preciso focar nas contingências, nas condições físicas dos problemas sociais para as decisões éticas e não apenas no comportamento verbal das pessoas que discursão. Afinal, há posicionamentos que, definitivamente, não são passíveis de consenso e nem de tolerância, seja por se tratarem de tatos distorcidos seja pelo seu teor aversivo, o que nos leva ao próximo mito.

O mito da tolerância é o mito das liberdades individuais. Como já foi falado acima, uma determinada prática cultural hegemônica nos ensina a sermos mais sensíveis a determinados estímulos incondicionais (e condicionados). No caso em questão, somos sensibilizados mais às “liberdades individuais” do que o bem-estar coletivo e práticas sociais colaborativas. Mas bem, há pessoas que se utilizam das liberdades individuais para defender que todos têm direito de falar o que quiserem, mesmo que aquilo que for dito fira os direitos de outros, como ocorre em discursos de ódio e preconceito. Mesmo que aquilo que for dito tenha pouca probabilidade de ser sancionado, o discurso violento (estimulação pré-aversiva), para muitas pessoas, é equivalente a estar em contato direto com a violência (estímulo aversivo) (Catania, 1999; Sidman, 1989). Um discurso de ódio é uma possibilidade de violência! Inclusive, há dados que indicam que dor afetiva equivale a dor física, mas em menor magnitude (Lucena, 2013). Sendo assim, o discurso de ódio e preconceito pode produzir dores afetivas tal como atos propriamente ditos. Além disso, pode ocorrer estereotipia da classe de comportamentos que envolve o discurso de ódio e preconceito sobre controle de reforços sociais providos pela audiência não punitiva destes discursos (Catania, 1999; Moreira & Medeiros, 2007). Um exemplo de estereotipia pode envolver comportamentos mais agressivos ao se posicionar a favor ou contra de determinado tema. Sendo assim, não faz sentido defender tais discursos de liberdades individuais quando o próprio discurso de ódio e preconceito defendido fere liberdades individuais de minorias, o que o torna axiologicamente incompreensível! Talvez seja interessante lembrar que, por exemplo, na Alemanha é proibido fazer apologia a políticas nazistas (UOL, 2014) como forma de prevenção de recorrência daquele padrão social da Segunda Guerra. Então, será que a liberdade individual de “falar o que quiser” supera de fato a defesa e prevenção do bem-estar de grupos e minorias no Brasil?

Então, como pontapé inicial, este texto apresenta algumas pontuações gerais para a compreensão de algumas falácias argumentativas que tem se tornado recorrentes no atual contexto sociopolítico brasileiro. Podemos supor que a defesa destes argumentos de neutralidade, consenso e tolerância possa servir como meio de deslegitimar bandeiras de alguns movimentos sociais alternativos ou não ortodoxos. No entanto, esta será uma discussão posterior.

Apesar de o texto parecer pouco focado no jargão analítico-comportamental per si, em seu cerne estão as bases epistemológicas do behaviorismo radical, como o pragmatismo, o funcionalismo e o determinismo. Em textos futuros, espero discorrer um pouco mais sobre contingências que ocasionam dissensos entre grupos e pares, baseados em uma análise molar de condições sociais e experiências individuais aos quais cada sujeito é sensível.

REFERÊNCIAS

Bandini, C. S. M. & Delage, P. E. G. A. (2012). Pensamento e Criatividade. In. Hubner, M. M. C. & Moreira, M. B. (2012). Temas Clássicos da Psicologia sob a Ótica da Análise do Comportamento. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan.

Benvenuti, M. F. L. (2010). Contato com a realidade, crenças, ilusões e superstições: possibilidades do analista do comportamento. Perspectivas em análise do comportamento, 1, 1, 34-43.

Catania, C. A. (1999). Aprendizagem: comportamento, linguagem e cognição. Porto Alegre: ArtMed.

Coelho, C. R.; Wechsler, A. & Amaral, V. L. A. R. (2008). Dizer e Fazer: a prática de exercícios físicos em portadores de diabetes mellitus tipo 2. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, 1, 29-38.

Dittrich, A. (2010). Análise de consequências como procedimento para decisões éticas. Perspectivas em análise do comportamento, 1, 1, 44-54.

Lopes, C. E. (2015). The political discourses of behavior analysis. Operants, quarter I, 27-32.

Lucena, R (2013). Em livro, psicólogo diz que a dor da rejeição ativa mesmas áreas da dor física. Jornal Folha de São Paulo. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2013/08/1328894-em-livro-psicologo-diz-que-a-dor-da-rejeicao-ativa-as-mesmas-areas-da-dor-fisica.shtml  Acessado em: 29/04/2016.

Moreira, M. B. & Medeiros, C. A. (2007). Princípios Básicos de Análise do Comportamento. Porto alegre: ArtMed.

Sidman, M. (1989). Coerção e suas implicações. Campinas – SP: Workshopsy.

Tourinho, E. Z. (2009). Subjetividade e Relações Comportamentais. São Paulo – SP: Paradigma.

UOL (2014). Alunos na Alemanha são investigados por apologia do nazismo. Disponível em: http://educacao.uol.com.br/noticias/2014/10/29/alunos-na-alemanha-sao-investigados-por-apologia-do-nazismo.htm Acessado em: 29/04/2016.

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