Edward C. Tolman entre a cruz e a espada.

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Linha do tempo - Edward Chace Tolman

“O Comportamento dos Organismos. Eu o considero um livro marcante, tanto por causa dos resultados experimentais muito importantes e por causa do claro e, a meu ver, extremamente significativo “sistema” que se apresenta como arcabouço para esses resultados. Ele sempre terá um lugar muito importante na história da Psicologia”. (Carta de Tolman enviada para Ferrin, 1938, citada por Skinner, 1979, p. 221; parcialmente reproduzida em Cruz, 2011).

Na primeira metade do século XX, a psicologia era um hot topic entre as tantas revoluções científicas em vigor nas humanidades, na física e nas ciências biológicas. Nessas primeiras décadas, muitas das figuras que encontramos em livros texto de história da psicologia, eram pessoas sujeitas aos percalços da vida de um dia a dia qualquer e com seus próprios sonhos e desilusões.

Nessa época, Edward Chace Tolman foi professor de psicologia experimental na Universidade da Califórnia em Berkeley por 36 anos. Sua extensa e relevante obra abrange aspectos teóricos, experimentais e reflexões que recrutavam o estado da arte do conhecimento em psicologia científica da época para pensar problemas que lhe eram contemporâneos, entre eles os dilemas e dramas da Segunda Grande Guerra (Tolman, 1942).

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Figura 01: Tolman manejando um de seus participantes de pesquisa. Fonte: http://psychology.berkeley.edu/news/rats-and-men-tolman-behavior-and-academic-freedom, acesso em 19 de abril de 2016.

Sua dedicação ao laboratório e a qualidade e consistência de suas reflexões conceituais lhe permitiram construir um sistema explicativo em um tempo de grande efervescência na psicologia. Além disso, a oportunidade de conviver e debater com grandes personagens da história da ciência psicológica como Clark Leonard Hull, Edwin Guthrie, B. F. Skinner. Mas em que se baseia o sistema de Tolman? Qual sua relação com Skinner, com o behaviorismo e com o cognitivismo?

Tolman recebeu influência do legado teórico-experimental de Thorndike, Watson e dos psicólogos da Gestalt. Ao passo que, em termos filosóficos, iniciou sua carreira sob a égide do neorrealismo de Perry e Holt (Lopes, 2008). Essas múltiplas influências aliadas à diversidade, evolução e longevidade de sua obra torna difícil classificar seu sistema com base em rótulos amplos como behaviorismo ou cognitivsmo (Santana & Borba, 2015).

Em sua primeira apresentação de seu sistema explicativo, Tolman (1922) aborda o problema de propor uma explicação que concilie a necessidade um fenômeno observável e mensurável como o comportamento – em oposição à psicologia introspeccionista – com uma teoria que abranja funções comportamentais não redutíveis à fisiologia, mas que abordem as relações entre organismo e ambiente capazes de gerar um “fator de transformação” (Tolman, 1922), ou que entenda o comportamento de cada organismo a partir de suas motivações e efeitos em um contexto. Nas palavras de Tolman:

“As duas teses essenciais que se deseja sustentar neste documento são, em primeiro lugar, que um behaviorismo verdadeiro, não fisiológico, é realmente possível; e segundo que, quando este novo behaviorismo estiver maduro, será capaz de abranger não apenas os resultados dos testes mentais, medidas objetivas de memória e a psicologia animal, mas também tudo o que era válido nos resultados da mais antiga psicologia introspectiva.” (Tolman, 1922, p. 46-47).

Tolman (1938b; 1948) era um crítico da generalidade da lei do efeito para explicação da aprendizagem e entendia seus achados juntos a Honzik (Tolman & Honzik, 1930a, 1930b, e 1930c; Tolman, 1930; Tolman, Honzik & Robinson, 1930) como uma evidência de que aprendizagem envolve a aquisição de relações intencionais que envolvem componentes mais abstratos do que o desempenho de um animal em uma tarefa baseada em recompensas.

Em um trabalho recente, eu e o doutor (e amigo) Aécio Borba resumimos três críticas principais de Tolman ao uso do reforçamento como princípio explicativo do comportamento: “1) à desconsideração do papel que os componentes biológicos e cognitivos exerceriam sobre o controle imediato do comportamento; e 2) à restrição temporal [abordagem molecular]que o recorte de análise das contingências de reforçamento pressupunha. Edward Chace Tolman e o uso da aprendizagem latente e do reforçamento como princípios explicativos.” (Santana e Borba, 2015, p. 209).

Em seu artigo sobre a recepção inicial da análise experimental do comportamento, Cruz (2011) destaca o ambiente de disputas entre sistemas que pretendiam se estabelecer como modelo unificado para a ciência psicológica. Neste ambiente, os livros Comportamento intencional em animais e homens (Tolman, 1932), O comportamento dos organismos (Skinner, 1938) e Princípios do Comportamento (Hull, 1943) apresentam propostas concorrentes para a psicologia e que se estruturavam a partir de evidências e argumentos que fortalecessem seus respectivos fundamentos e – aparentemente – evitando citar e comentar pontos positivos dos demais modelos. Isto posto, apesar das críticas que fizera ao sistema skinneriano, em carta endereçada ao editor da Appleton-Century-Crofts com trecho reproduzido na abertura deste texto, Tolman recomendou a publicação do primeiro livro de Skinner e reconheceu cedo o potencial impacto que ele teria na história da psicologia.

A obra de Tolman não se enquadra em um modelo comportamental como o de Watson, por considerar – em suas formulações iniciais – componentes cognitivos como propriedades imanentes e/ou emergentes do comportamento e de interesse para identificar as motivações e as estratégias de resolução de situações problema (Lopes, 2008). Ao mesmo tempo, antes do texto de 1948 – Mapas Cognitivos em animais e homens –, Tolman não se enquadraria como cognitivista, visto que sua formulação explicativa para o comportamento considerava cinco categorias ou variáveis independentes: hereditariedade, fisiologia, idade, motivação e ambiente (Tolman, 1938a). E em nenhuma delas encontra-se algo como uma estrutura ou órgão privilegiado para a representação do mundo e tomadas de decisão.

É fato que, após o texto de 1948, Tolman insititui o mapa cognitivo como um elemento interno e abstrato que atuaria como antecedente e determinante do comportamento. Essa reforma explicativa afasta Tolman do behaviorismo e é ela mesma a usada até hoje para dar a Tolman o papel de precursor do movimento cognitivista. Mas pelo que apresentei até aqui, acho que já faz sentido questionar se os 10 anos em que Tolman deu destaque a sua proposta de mapa cognitivo anulam ou se sobrepõe aos outros 30 anos de fecunda produção em um sistema teórico de base experimental de base eminentemente comportamental.

A obra de Tolman é vasta e tem servido como fonte de insights científicos mesmo décadas depois de sua morte (cf Perera, Holbrook & Davis, 2016; Wang, 2015). Contudo, Tolman é recorrentemente citado por seu texto de 1948 sobre Mapas cognitivos em animais e em ratos, enquanto boa parte de sua obra permanece pouco acessível tanto por não estar disponível online quanto por não haver reedições recentes de seus livros. Revisitar Tolman nos dá a chance de conhecer a consistência e interdisciplinaridade necessária à proposição de um sistema teórico para a psicologia e – ao mesmo tempo – rever a história recente da psicologia que credita às evidências experimentais observadas por ele um golpe ao behaviorismo e um dos pilares da psicologia cognitiva.

 

Referências

Cruz, R. N. (2011). Percalços na história da ciência: B. F. Skinner e a aceitação inicial da análise experimental do comportamento entre as décadas de 1930 e 1940. Psicologia: teoria e pesquisa, 27(4), 545-554.

Hull, C. L. (1943). Principles of Behavior: An introduction to Behavior Theory. New York: Appleton-Century-Crofts.

Lopes, C. E. (2008). Uma matriz de influências como instrumento para a análise da obra de E. C. Tolman. Psicologia em Pesquisa, 2(2), 14-22.

Santana, L. H. Borba, A. (2015). Edward Chace Tolman e o uso da aprendizagem latente e do reforçamento como princípios explicativos. Acta Comportamentalia, 23(2), 199-211.

Skinner, B. F. (1938). The Behavior of Organisms: an experimental analysis. New York: Appleton-Century-Crofts.

Theresa, B. P. Holbrook, R. I. Davis, V. (2016). The representation of three-dimensional space in fish. Frontiers in Behavioral Neuroscience, 10(40). DOI=10.3389/fnbeh.2016.00040.

Tolman, E. C. (1922). A New Formula for Behaviorism. Psychological Review, 29, 44-53.

Tolman, E. C. Honzik, C. H. Robinson, E. W. (1930). The Effect of Degrees of Hunger upon the Order of Elimination of Long and Short Blinds. University of California Publications on Psychology, 4, 189-202.

Tolman, E. C. Honzik, C. H. (1930a). “Insight” in Rats. University of California Publications on Psychology, 4,215-232.

Tolman, E. C. Honzik, C. H. (1930b). Degrees of Hunger, Reward and Non-reward, and Maze Learning in Rats. University of California Publications on Psychology, 4, 241-257.

Tolman, E. C. Honzik, C. H. (1930c). Introduction and Removal of Reward, and Maze Performance in Rats. University of California Publications on Psychology, 4, 257-275.

Toman, E. C. (1930). Maze Performance a Function of Motivation and of Reward as Well as of Knowledge of the Maze Paths. Journal of General Psychology, 4, 338-342.

Tolman, E. C. (1932). Purposive Behavior in animals and man. New York: Appleton-Century-Crofts.

Tolman, E. C. (1938a). The Determiners of Behavior at a Choice Point. Psychological Review, 45, 1-41.

Tolman, E. C. (1938b). The Law of Effect. Psychological Review, 45, 200-203.

Tolman, E. C. (1942). Drives Toward War. New York: Appleton-Century-Crofts.

Tolman, E. C. (1948). Cognitive Maps in Rats and Men. Psychological Review, 55, 89-208.

Wang, R. F. (2015). Building a cognitive map by assembling multiple path integration systems. Psychological Bulletin. DOI 10.3758/s13423-015-0952-y.

 

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