Orientação de pais: a história dos “pais legais”

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Paula Grandiwww.paulagrandi.com.br

Carlos e Mariana buscam psicoterapia para sua filha, Júlia de 6 anos. Seus pais a trazem para terapia pois “ela está impossível”. Relatam que ela não segue nenhuma regra e que qualquer pedido tem que ser repetido diversas vezes. Mesmo com as explicações constantes por parte dos pais, Júlia não cumpre atividades diárias da forma combinada: “eu não vou fazer a lição; vou dormir mais tarde; eu quero jantar salgadinho; hoje eu vou ficar brincando e não vou para a escola”. “É muito difícil convencê-la a fazer qualquer coisa”, dizem os pais. Em reunião com a escola, eles afirmam que Júlia “não sabe conviver em grupo ou seguir regras”. Me contam que ela chora e se joga no chão quando é solicitada a realizar uma atividade que não quer realizar, não segue as regras estipuladas pelas professoras e atrapalha a realização de atividades em grupo.

Solicito dos pais mais informações sobre os embates cotidianos que enfrentam com Júlia. Peço que me contem como agem nesses momentos. Eles relatam que, frequentemente exaustos com as responsabilidades do dia-a-dia, acabam cedendo as suas solicitações. “Já tentamos de tudo: brigar, conversar, coloca-la de castigo, nada funciona”, afirmam. Depois de longos monólogos sobre os comportamentos inadequados de Júlia, peço que me contem bons comportamentos da filha. Eles me dirigem um olhar de surpresa e demoram alguns segundos até falar novamente. A mãe diz que é difícil pensar em qualquer bom comportamento se ela está sempre aprontando. “Acho que ela é carinhosa com a gente, mas só quando lhe convêm”, relata o pai.Orientação de Pais 03 02

Ao final da sessão converso com os pais e explico que grande parte dos comportamentos são aprendidos. Aprendemos pelas consequências de nossas ações, por aquilo que vem depois da nossa ação. Qualquer resposta que emitimos tem um efeito no mundo, e esse efeito pode aumentar a probabilidade dessa resposta voltar a ocorrer no futuro. Quando empurramos um móvel, ele se move; quando ligamos para um amigo, ele atende a chamada; trabalhamos, e recebemos nosso salário ao final do mês; saímos para jantar em um restaurante, e a comida é deliciosa. Qualquer comportamento que ocorre em alta frequência tem uma função, um sentido.

Digo que tenho a impressão de que Júlia só produz a atenção e olhar dos pais quando se comporta de forma inadequada. Nesse sentindo, esses são comportamentos que funcionam para que ela obtenha atenção. Quando ela emite bons comportamentos, frequentemente passa desapercebida. Comento, com uma dose de humor, que geralmente pensamos “ela está se comportando tão bem, melhor não mexer, vai que estraga”. Fazemos isso quando justamente deveríamos estar fazendo o contrário: olhando para ela nestes momentos e valorizando esses comportamentos.

Conseguir olhar e perceber os bons comportamentos só é possível a partir de um treino diário. Estamos tão acostumados a tentar eliminar os comportamentos inadequados que frequentemente não nos atentamos ao que as crianças fazem de bom. Por isso, solicito aos pais que montem um pote dos bons comportamentos, o qual deve ser preenchido, durante a semana, com os comportamentos que Júlia realizar que eles valorizam. A cada bom comportamento, eles escrevem o que aconteceu em um pedaço de papel, o dobram e colocam no pote. Os pais escutam com atenção mas parecem céticos. “Eu acho que vai ser muito difícil!”, diz a mãe.

Orientação de Pais 02 02Na sessão seguinte, uma surpresa, os pais aparecem com um pote cheio de papeis coloridos. O semblante deles, no entanto, não estava tão animado quanto o meu. Durante a sessão eles me contam que de fato conseguiram olhar para muitos comportamentos de Júlia que nunca tinham atentado. Relatam que ela era muito carinhosa e sempre dava bom dia à todos que encontrava. Fazia desenhos e os dava para os pais e para as professoras.  Estava sempre pronta no horário para ir a aula de Ballet e, segundo a professora, era a aluna mais dedicada da turma.

Junto com os incríveis comportamentos de Júlia, no entanto, os pais relatam que a semana foi difícil, as brigas constantes e que Júlia teimava em realizar as atividades combinadas. A mãe me conta: “Foi um inferno, ela não queria sentar à mesa para jantar conosco nenhum dia da semana e eu já expliquei um milhão de vezes que nós jantamos juntos”. Pergunto o que acontecia, no fim das contas, quando Júlia dizia que não queria comer com eles. “Ah, a gente insiste, mas não funciona. Ela sempre acaba pegando alguma besteira na dispensa e come assistindo TV na sala.” A mãe para de falar durante alguns segundos, e completa: “Ai, eu sei que estamos fazendo tudo errado. Essa é a consequência do comportamento dela, não é mesmo? Ela come salgadinho e assiste TV! Eu sei… eu sei…”. O pai interrompe e diz: “Sabe o que é… é que queremos ser pais legais”. Eu os questiono, como assim? A mãe responde: “É, queremos ser pais legais! Nossos pais foram muito rígidos em nossa criação e crescemos com medo deles, não queremos que seja assim com a Júlia.”. O pai completa: “Às vezes, quando solicitamos algo repetidas vezes, a Júlia diz que nos odeia. É terrível! Me sinto o pior pai do mundo e acabo cedendo às suas solicitações. Acho que foi isso que aconteceu em vários dias dessa semana na hora do jantar”. “Queremos fazer o melhor para ela, mas não sabemos como”, afirma a mãe.

Compreendo e acolho o relato dos pais. Neste momento solicito que eles imaginem comigo como seriam “os pais mais legais do mundo” do ponto de vista da Júlia. O que eles fariam? O que permitiriam? Chegamos à conclusão de que esses pais permitiriam que ela apenas se alimentasse de doces e salgadinhos, que não fosse a escola, que passasse o dia brincando e que nunca precisasse tomar banho ou escovar os dentes. Esse seria realmente o melhor para Júlia? Os pais concordam que não. Júlia vai agir em função das consequências imediatas de seu comportamento (reforçadores imediatos). Ela não está sob controle das consequências a longo prazo de suas ações. Sabemos que o melhor para Júlia é que ela frequente a escola. Mesmo que, momentaneamente, ela prefira ficar brincando em casa.

Comento com os pais que muitas vezes nos apegamos a alguns mitos sobre a relação entre pais e filhos e que este tipo de suposição pode ser contra produtiva e não ajudar a pensar no que realmente é melhor para as crianças. Relato que, no caso deles, o mito parece ser o seguinte: “Pais legais não impõe limites”. Porque um pai legal não pode impor limites? O problema é que frequentemente relacionamos limite com punição. E limite absolutamente não precisa, e nem deve, envolver punição.

Punimos ao retirar o vídeo game de uma criança, pois ela comeu doces antes do jantar. Punimos quando batemos, pois ela se pendurou na janela. Punimos quando gritamos e ofendemos o caráter das crianças, pois elas não fizeram como solicitamos. Em todos esses casos uma nova consequência (arbitrária) é administrada, além daquela que mantêm o comportamento. A punição é ineficiente a longo prazo e problemática. Ela não ensina a criança o que ela tem que fazer, apenas a ensina o que não fazer. É isso mesmo que queremos? O que queremos que elas realmente aprendam? Se punição ensina alguma coisa é apenas a ter medo daqueles que punem.

Temos que voltar o nosso olhar para o que mantém os comportamentos. Porque assistimos TV em vez de realizar um relatório que tem o prazo próximo? Porque uma criança se pendura na janela? Porque um filho não segue as solicitações dos pais? Porque será que Júlia nunca se senta à mesa para comer junto com os pais? Quando Júlia diz que não quer jantar com os pais eles imediatamente dirigem a atenção a ela. Além disso, depois de uma longa conversa, Júlia acaba por conseguir comer um salgadinho (provavelmente algo muito mais reforçador que comer vegetais), e assistir TV ao mesmo tempo. Todas essas consequências mantém o comportamento de Júlia de não querer jantar com os pais. Temos que alterar as consequências para alterar o comportamento. Qual seria uma consequência menos arbitrária de não querer jantar com os pais? Comer sozinha, mais tarde, à mesa. Uma alternativa a punição pode ser deixar a criança experimentar consequências diretamente relacionadas com o seu comportamento.

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Há também, várias alternativas a punição. Podemos elogiar o comportamento adequado: “Júlia, gosto muito quando você se senta à mesa para comer conosco. Podemos até conversar sobre como foi o dia de cada um!”; Mostrar como ela pode ser útil: “Júlia, você ajudaria muito se colocasse os guardanapos na mesa.”; Falar sobre as suas expectativas: “Quando nós vamos jantar espero que você jante conosco. Assim podemos ficar todos juntos!”; Usar sempre uma linguagem descritiva que elimina a acusação e o julgamento, que não ataca o caráter e foca no que precisa ser feito: “Júlia, precisamos jantar agora para que o papai possa lavar a louça depois”; Dar opções: “Filha, você pode comer agora com a gente, e depois brincamos todos juntos de desenhar ou você pode comer sozinha depois que terminarmos” (Faber e Mazlish, 2003).

Termino a sessão dizendo aos pais que sei que é difícil alterar essas consequências para os comportamentos de Júlia. Prevejo que no começo vai ser complicado e é até possível que Júlia apresente, momentaneamente, mais comportamentos julgados inadequados. Isso faz parte do processo. Expliquei que se eles forem firmes em alterar e manter as novas consequências, as ações de Júlia iram mudar gradualmente. Digo que, se precisarem, podem me contatar durante a semana.

Um dia antes da próxima sessão recebo a seguinte mensagem da mãe: “Aquilo que você disse sobre sermos pais legais me marcou muito! Eu consegui, pela primeira vez, alterar as consequências. No começo a Júlia chorou, e até disse que me odiava. Foi difícil, mas eu consegui manter o nosso combinado e depois ela veio me perguntar se podíamos jantar juntas. Eu nem acreditei! Essas mudanças vão ser difíceis, sei que podemos ser pais melhores. Agora eu entendi que pais realmente legais são aqueles que ensinam e atentam aos comportamentos dos filhos que são importantes para a sua vida, que vão ajudá-los a enfrentar o mundo. O pote dos bons comportamentos já está cheio de papéis! Até amanhã”.

A orientação de pais é essencial em qualquer processo de terapia infantil. Frequentemente, na verdade, não há terapia infantil sem orientação de pais. Os pais, familiares, educadores e cuidadores são grande parte do ambiente em que a criança vive. Conduzir uma terapia infantil sem olhar para o ambiente dessa criança é como tentar apreciar uma bela e ampla paisagem olhando por binóculos. A criança é um árvore no meio da paisagem. Os pais são grande parte da floresta.

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* Utilizo o termos “pais”, mas ele pode ser substituídos por avós, tios, cuidadores, educadores ou qualquer outra pessoa que é parte importante na vida da criança.

* O artigo descreve de uma forma didática e para não psicólogos alguns importantes conceitos da análise do comportamento. Não tinha, portanto, a pretensão discutir exaustivamente os nuances teóricos.

* Os nomes e relatos são fictícios. O artigo foi escrito a partir de leituras, pesquisas e da experiência da autora.

REFERÊNCIAS

Chamati, A. B. (2014). Encontrando a luz azul. Acessado em: http://vejasp.abril.com.br/blogs/terapia/2014/08/01/pais-observacao-filhos/

Faber, A.; Mazlish, E. (2003). Como falar para seu filho ouvir e como ouvir para seu filho falar. São Paulo: Summus.

Kazdin, A. (2009). Os sete mitos da relação pai e filho. In: O método Kazdin: como educar crianças difíceis. São Paulo: Novo Século, pp. 25-40.

Skinner, B. F. (1953) Ciência e comportamento humano. São Paulo: Martins Fontes.

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