Sob controle de quais estímulos estão os analistas do comportamento?

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Autor: Nicodemos Borges

E-mail: nicobborges@gmail.com

Sitehttp://www.nicodemosborges.com.br/

Por esses dias, deparei-me com uma matéria muito interessante escrita por Scott Herbst, em que ele conta como foi incrível conhecer a análise do comportamento e da importância de focar no que interessa para poder obter resultados satisfatórios.

Identifiquei-me muito com a matéria e resolvi escrever uma versão tupiniquim; ou melhor, a minha reflexão sobre como hoje eu penso que pode ser a relação dos analistas do comportamento – que são um subgrupo (ou subsistema, como preferencialmente falamos nessa comunidade) cujos integrantes apresentam uma “linguagem estranha” (respostas verbais incomuns, selecionadas por essa comunidade verbal) – com a sociedade.Idioma estranh

Primeiramente, vale deixar claro que eu sou um analista do comportamento. Minha história como analista do comportamento tem cerca de 15 anos; fiz especialização em clínica, mestrado e doutorado baseados nessa perspectiva teórico-metodológica; tenho Acreditação pela ABPMC, maior associação do País que congrega os analistas do comportamento; e sempre fui muito envolvido com nossa comunidade, participando de diversas atividades relacionadas (organização de livros, edição de revistas científicas, organização de JACs, participação ativa nos encontros da ABPMC, etc.).  Portanto, não só me vejo como um analista do comportamento, como tenho uma formação e atuação bem ampla e sólida na área.

Ainda assim, há quem diga que não sou um analista do comportamento, ou que sou um analista do comportamento com comportamentos “estranhos”. Posso aceitar a segunda parte – de que sou um analista do comportamento com comportamentos estranhos. Para começar, pertenço a um subgrupo do então subgrupo formado por analistas do comportamento, como falarei a seguir. Além disso, minhas escolhas estão fortemente sob controle do que é melhor para as pessoas (meus clientes, para a sociedade, para meus alunos, etc). Apesar de não achar que colocar as pessoas em primeiro lugar diminua o valor que dou à análise do comportamento, alguns poderão discordar de mim, talvez por terem colocado a análise do comportamento na posição de uma doutrina semelhante àquelas religiosas.

É comum que os analistas do comportamento se subdividam em três vertentes: analistas do comportamento básicos (que na maioria das vezes são só acadêmicos; analistas do comportamento teóricos-conceituais (que também tendem a ser acadêmicos); e analistas do comportamento aplicado (que são os que estão envolvidos com a aplicação dos conhecimentos da análise do comportamento nos diferentes contextos da sociedade).

três caminhos

O que me torna um analista do comportamento com “comportamentos estranhos” são, principalmente, dois fatores: (a) integrar um grupo muito restrito de profissionais que transita entre os três subgrupos listados acima [acabou de passar pela minha cabeça que eu sou como a personagem principal do filme “Divergente”, que não consegue pertencer a uma única facção]; e, (b) querer integrar a análise do comportamento à sociedade, não o contrário.

Aqui interessará discutir mais o segundo aspecto (querer integrar a análise do comportamento à sociedade) do que o primeiro, visto que a matéria decorre da influência do artigo de Scott Herbst, que esbarra mais neste segundo ponto.

O subgrupo de linguagem estranha que são os analistas do comportamento parece ser composto por uma maioria que tende a defender – reforçar diferencialmente os comportamentos de seus membros – que o que é dito nesta comunidade é a verdade. A despeito da discussão a respeito das boas evidências que sustentam tais argumentos, tais analistas do comportamento acabam esquecendo de considerar outro aspecto também defendido por essa comunidade, que é o fato da “verdade” ser subjetiva, decorrente de uma história de reforçamento específica.

Quem me vê falando (escrevendo) assim hoje e me conheceu há anos atrás poderá se assustar, dizendo que esse não sou eu, ou até mesmo acreditar que eu deixei de ser analista do comportamento, pois já fui da facção (fazendo referência ao filme Divergentes) que pregava a análise do comportamento como a verdade do mundo. Digo a esses colegas e amigos que não deixei de ser analista do comportamento, pelo contrário, apenas aprendi mais – ou, novos comportamentos emergiram em meu repertório comportamental. Como cantava Raul Seixas, somos metamorfoses ambulantes. Viva!

Continuo um analista do comportamento, mas continuo principalmente me comportando sob controle de um valor importantíssimo para mim e que me levou a cursar psicologia e me fez amar a análise do comportamento, que é transformar a vida das pessoas!

A cada dia que passa, minha convicção de que estou no caminho certo aumenta. Para mim, transformar a vida das pessoas não é convencê-las a acreditar no que eu acredito. É ajudá-las a encontrarem seus caminhos, de maneira que possam viver mais felizes.

Para isso preciso estar atento aos três aspectos que Scott Herbst destacou em seu artigo e que fazem muito sentido para mim também:

1.       Usar uma linguagem simples – para ajudar meus clientes, não preciso convertê-los à minha religião (ops!, à minha comunidade verbal);

2.       Validar outras perspectivas – se quero ajudar meus clientes, por que não começar respeitando suas maneiras de olhar para os fenômenos do mundo?;

3.       Não perder de vista o que é importante – agir sob controle das variáveis que realmente são importantes: o bem-estar das pessoas e a construção de uma sociedade melhor.

Não é minha pretensão dizer que a minha posição é a certa e as demais são erradas. Quero apenas compartilhar minha perspectiva, pois acredito que ela poderá ajudar algumas pessoas a encontrarem seus caminhos.

Desde que comecei a divulgar meu instituto, tenho recebido diversos e-mails de pessoas que querem conversar comigo para saber se é possível ser coach e analista do comportamento. Inclusive recebi alguns depoimentos de pessoas que deixaram a psicologia para atuarem apenas como coach, pois não sentiam que poderia pertencer a essas duas comunidades. Para mim, isso pode ser uma evidência de que nós, analistas do comportamento, não estamos fazendo nosso trabalho como poderíamos – qual seja, ajudarmos as pessoas a se sentirem pertencentes para poderem aprender as maravilhas que a análise do comportamento tem a ensinar e que as ajudarão a mudar a vida de outras várias pessoas.

Me lembrei da saudosa Tereza Maria de Azevedo Pires Sério (carinhosamente conhecida como Téia), que fez uma palestra em uma das reuniões da ABPMC abordando os rumos da análise do comportamento. Na ocasião, Téia chamava atenção para a possibilidade de extinção de nossa comunidade se continuássemos fechados e querendo que o mundo se adaptasse a nós. O quanto andamos de lá para cá?

Espero que esta matéria, assim como a de Scott Herbst (clique aqui para acessá-la), desperte em nossa comunidade uma reflexão acerca dos rumos que queremos tomar.

Autor: Nicodemos Borges é psicólogo, analista do comportamento acreditado, mestre e doutor em análise do comportamento, especialista em terapia analítico-comportamental e master contextual coach. Atua como coach de executivos, psicoterapeuta, professor universitário, pesquisador, supervisor, mentor, master-trainer e palestrante; além de pai, marido, filho, irmão, amigo e cidadão.

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