Entrevista Exclusiva com Nicodemos Borges: Coaching, Psicologia e Análise do Comportamento

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E cada vez mais comum ouvirmos o termo “coaching”. Mas o que é coaching? Quais suas relações com a Psicologia? E com a Análise do Comportamento? Para responder a essas e outras questões, convidamos o Prof. Dr. Nicodemos Borges, que além de ser um analista do comportamento acreditado pela ABPMC, é o autor da primeira Tese de Doutorado sobre o tema coaching no Brasil e está lançando o primeiro curso de formação em Master Contextual Coaching em nosso país.

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Foto: Arquivo Pessoal

Nicodemos Borges é graduado em Psicologia, Especialista em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP, Mestre e Doutor em Análise do Comportamento pela PUC-SP, Master Coach pelo Center for Advanced Coaching e pela Pro-Fit. É psicólogo clínico, supervisor clínico e responsável técnico na Contexto Psicologia, Professor, supervisor, pesquisador e orientador na Universidade São Judas e CEO, Coach e Master-trainer no Instituto Nicodemos Borges. Foi professor, orientador e clínico no Centro Paradigma e em cursos de Pós-graduação de Liderança e Gestão de Pessoas na Unisa Business School, é Editor-Associado de Perspectivas em Análise do Comportamento e um dos organizadores do livro Clínica Analítico-Comportamento: aspectos teóricos e práticos. Nos últimos anos tem se dedicado principalmente a estudar, pesquisar, trabalhar e ensinar coaching.

Comporte-se: Queria começar perguntando por que um analista do comportamento com uma carreira sólida em clínica, ensino e pesquisa foi ter interesse por coaching?

Nicodemos: A primeira coisa que vem a minha cabeça é responder sua pergunta com outra pergunta: por que um analista do comportamento não se interessaria por coaching? Mas vou responder sua pergunta de outra maneira. O coaching tem muito a ver com Psicologia e mais ainda com Análise do Comportamento. Podemos dizer que a Psicologia e a Análise do Comportamento são ciências (ou campos do saber) cujos interesses são compreender os fenômenos comportamentais e desenvolver tecnologias de intervenção para alterar esses fenômenos. Já o coaching é uma modalidade de intervenção comportamental cujo foco está em desenvolvimento e qualidade de vida. Então respondendo sua pergunta, eu escolhi me interessar pelo coaching pois queria trabalhar mais com foco em desenvolvimento. O’Donohue, muito conhecido na nossa área, e Ferguson (2006) escreveram um artigo em que afirmam que os psicólogos (inclusive os analistas do comportamento) acabaram permeados pela “Theory of Bad Apple”, cujo foco está em identificar e remover “problemas”. Concordo com eles! Assim como eles, defendo que busquemos também uma prática baseada na “Theory of Continuous Improvement”. Portanto, eu tenho escolhido trabalhar focando mais em desenvolvimento contínuo. Confesso que a cada dia tenho me apaixono mais pelo que faço, o que me faz me dedicar, estudar e trabalhar, mais e mais.

Comporte-se: Ia perguntar se você acredita que focar em desenvolvimento e qualidade de vida é uma particularidade do coaching ou se a Psicologia também teria condições de atuar nessa área, mas você já respondeu a essa pergunta.

Nicodemos: Mas queria completar. Claro que os psicólogos podem trabalhar nessa área. Eu diria que devem! Eu sou psicólogo clínico, analista do comportamento e continuarei sendo. Estou apenas expandido meu escopo de interesse e atuação! Os psicólogos e analistas do comportamento têm muito a contribuir com o coaching, tanto que muitas das ferramentas utilizadas em coaching são oriundas da Psicologia. É por esse mesmo motivo que montei a formação em Master Contextual Coaching e espero que outros analistas do comportamento venham trabalhar e se envolvam com pesquisa e desenvolvimento de práticas de coaching também. Inclusive eu defendo isso (a aproximação da Psicologia e do coaching) em minha tese de doutorado. Aliás, como já acontece em países mais desenvolvidos como Reino Unido, Autrália, etc.

Comporte-se: O que acontece nestes outros países?

Nicodemos: Assim como no Brasil, nesses outros países o coaching chegou como uma modalidade de intervenção nas organizações, aplicada por profissionais não psicólogos. Hoje, há o que chamam de psicologia do coaching ou coaching psicológico, que é considerado uma área de atuação dos psicólogos, assim como a psicologia clínica, a psicologia organizacional, etc. Portanto, em vez de virarem a cara para o coaching, os psicólogos desses países abraçaram o coaching como mais uma área de atuação.

Comporte-se: Isso não poderia ser interpretado como tirar espaço do psicólogo?

Nicodemos: Poderia ser assim interpretado, sim! Eu até acredito que muitos psicólogos pensam assim. Para mim, isso é uma visão míope, típica de pessoas que acham que podem manter suas reservas de mercado a despeito dos interesses da sociedade. Estamos num mundo globalizado, na era da competência, não dá para acreditar que alguém ou algum grupo conseguirá manter seu mercado no grito. Os profissionais competentes sempre terão campo para atuar, basta ver o que acontece no campo da psicoterapia ou da psicologia escolar. Mesmo com a invasão dos terapeutas alternativos e dos psicopedagogos, os psicoterapeutas e psicólogos escolares competentes continuam encontrando seu lugar ao sol. Além disso, mesmo que quiséssemos barrar o avanço de outros profissionais, não conseguiríamos. Assim, sugiro que pensemos como um bom analista do comportamento, os bons profissionais serão selecionados pelo mercado.

Comporte-se: Você montou uma formação para coaches, por que?

Nicodemos: Obrigado pela pergunta! A escolha por montar uma formação se deu quando eu fiz meu primeiro curso de coaching. Quando eu vi que há uma demanda crescente por profissionais de coaching e por ver que o mercado é dominado por escolas de negócio que só ensinam ferramentas, parecendo estar interessadas mais em ganhar dinheiro, com turmas de uma centena de pessoas ou mais. Naquele momento decidi que poderia oferecer uma formação muito mais completa, que não apenas oferece ferramentas, mas que auxilia no desenvolvimento das competências que um coach precisa para atuar bem. A partir daquele momento comecei a estudar o que há em outros países na área de coaching, modelos de cursos, a psicologia do coaching, etc. Daí fiz minha Tese de doutorado buscando construir evidências da efetividade da prática, comecei a dar alguns cursos curtos e me joguei em diversos cursos de coaching para ver o que eu poderia aproveitar e o que eu precisaria aperfeiçoar. Depois de tudo isso, esse ano nasceu o Master Contextual Coaching.

Comporte-se: Quem é o público-alvo do seu curso?

Nicodemos: É um curso direcionado para um público bem amplo. Por exemplo, ele pode ser do interesse de psicólogos que atuam na área clínica, esporte ou organizacional e que estejam buscando aperfeiçoar algumas das competências exigidas nessas áreas ou que queiram aprender algumas ferramentas úteis para incrementar suas práticas. Pode ser feito por gestores que querem se tornar gestores líderes (capacitados a desenvolvedor os integrantes de sua equipe). Além de ser fortemente indicado para profissionais querem atuar como coaches profissionais.

Comporte-se: Qual o mercado de atuação do coach?

Nicodemos: É importante notar que um coach pode atuar com desenvolvimento de pessoas em todos os campos que pessoas precisam buscar se desenvolver. Assim, o mercado de atuação é muito amplo. O profissional de coaching pode ser contratado tanto por organizações, tanto no regime CLT para atuar como coach interno, como no regime de prestação de serviços externos para atuar com um de seus funcionários. Da mesma forma, o coach pode ser contratado por pessoas físicas que buscam desenvolvimento em praticamente todos os aspectos comportamentais (no sentido amplo da palavra, incluindo cognitivos e emocionais). Em outras palavras, pode ser para planejar sua carreira ou sua aposentadoria, para equilibrar aspectos profissionais e pessoais, para melhorar relacionamentos, para ampliar “consciência”, etc.

Comporte-se: Se o coach trabalha com questões como relacionamento e ampliação de consciência, qual a diferença do seu trabalho para o do psicólogo clínico?

Nicodemos: Ótima pergunta! Tanto um psicólogo clínico como um coach pode ajudar pessoas que chegam com demandas de desenvolvimento pessoais como relacionamento ou ampliação de consciência. Contudo a proposta e condução de processos feito por esses profissionais têm diferenças. Além disso, o coach não trabalha com pessoas que estão em condição de vulnerabilidade/fragilidade, por exemplo clientes “depressivos” ou com “desenvolvimento atípico”, por exemplo.

Comporte-se: Por que um coach não pode trabalhar com pessoas em condição de vulnerabilidade?

Nicodemos: Primeiramente por não terem as competências necessárias para atuarem junto a essa população, por exemplo a capacidade de avaliar/interpretar o fenômeno comportamental. Além disso, o coach não aprende técnicas/recursos para atuar com essas pessoas.

Comporte-se: O coach não faz avaliações ou interpretações?

Nicodemos: Não. Essa não é a tarefa do coach. A sua função é de ampliar “consciência” (controle de estímulos), evocar respostas relacionadas ao que o cliente quer conquistar, etc. Em outras palavras, levar o cliente a se autogerenciar com foco em desenvolvimento. Ele não faz avaliações ou interpretações a respeito do cliente ou de seus comportamentos. Um dos princípios do coaching é que a pessoa é capaz de saber mais sobre si que o profissional, portanto, o profissional sempre acredita no cliente e na capacidade do cliente de analisar seu próprio comportamento. Inclusive, por isso que dizemos que coaching não é para qualquer pessoa, pois exigirá da pessoa algumas competências, diferentemente da terapia.

Comporte-se: Um clínico pode trabalhar como coach?

Nicodemos: Em teoria, qualquer pessoa pode trabalhar como coach, pois não é uma profissão regulamentada. Agora, o que devemos nos perguntar é se temos as competências para atuar como coach? Assim como um clínico para se tornar bom precisará, não só de conhecimento teórico (que pode ser adquirido em livros) mas conhecimento prático que vem da prática orientada por um profissional mais experiente, o mesmo se aplica ao coach. Em outras palavras, dizer que é coach qualquer um pode dizer, isso não quer dizer que a pessoa seja coach.

Comporte-se: Que conduta um coach deve adotar ao receber um paciente em vulnerabilidade (com alguma psicopatologia)?

Nicodemos: Sem dúvida alguma, orientar a pessoa a procurar por acompanhamento psicológico e psiquiátrico. Se possível indicar um profissional de sua confiança, psicólogo e/ou psiquiatra.

Comporte-se: Mas ele pode continuar o trabalho de coaching com este cliente, caso ele faça psicoterapia? Em que condições?

Nicodemos: Se a pessoa estiver em condições de vulnerabilidade será bem pouco provável que o trabalho de coaching seja efetivo. Nesses casos, o aconselhado é que o profissional suspenda o processo de coaching, pelo menos até que a pessoa esteja melhor, e a encaminhe para o profissional de saúde mental. Agora, se a pessoa está em boas condições emocionais e psiquiátricas, poderá fazer coaching mesmo estando em acompanhamento psicológico ou psiquiátrico. Eu diria que cada caso é um, e que é necessária a avaliação dos profissionais envolvidos para se fazer a melhor escolha.

Comporte-se: O coaching tem sido bastante divulgado atualmente. Muitos profissionais se apresentam como coaches e fazem promessas de mudança quase milagrosas na vida das pessoas. Isso levanta uma questão: como avaliar se um coach é confiável? Ou melhor, se ele realmente é capaz de entregar o que promete?

Nicodemos: ótima pergunta! É muito difícil saber se um profissional é bom ou não. A despeito de que profissional estejamos falando. Como eu saberei que um psicólogo é bom? E um médico? A forma menos arriscada de cair na mão de picaretas é a velha e boa indicação. Caso ninguém em seu ciclo de convivência conheça um profissional de confiança para indicar, daí a pessoa terá que partir para as entrevistas com os profissionais. Neste último caso, além de investigar quais as experiências profissionais do coach, quais cursos fez e com qual duração, se tem graduação, pós-graduação e em que áreas, a quanto tempo trabalha com coaching, etc.; uma boa dica é pedir para o profissional explicar o que é coaching e se possível fazer uma pequena sessão de demonstração.

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