A vida de B.F. Skinner parte V: o descobrimento do comportamento operante

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Este é o quinto artigo de uma série que discute a vida de Burrhus Frederic Skinner. Recomenda-se que o leitor interessado leia os artigos anteriores disponibilizados pelo Comporte-se, para que consiga compreender melhor o texto. Quem é o homem por trás da teoria que inspira tantas pessoas até hoje? O objetivo desta série é reconstruir o caminho percorrido por Skinner, apontando aspectos de sua vida pessoal que determinaram seu comportamento e, consequentemente, o de muitos outros. Espera-se que esta narrativa possa não apenas cativar o leitor, mas também tornar natural e humano a história comportamental do autor por trás da teoria que mais nos fascina.

As excelentes condições de trabalho que Frederic Skinner (“Fred” para os amigos) encontrou em Harvard propiciaram uma grande oportunidade, e o jovem a agarrou com unhas e dentes, cujos frutos colhemos até hoje. O trabalho requisitou grande engenhosidade teórica e, principalmente, experimental: desde a definição do reflexo como uma relação organismo-ambiente, e não como uma resposta fisiológica, até o desenvolvimento de aparatos para a mensuração fidedigna de regularidades entre estímulos e respostas.

Contudo, o conceito de reflexo necessitava que um estímulo específico eliciasse uma resposta específica, a procura por este estímulo era um desafio para a psicologia experimental da época. A variabilidade do comportamento de animais observada em laboratório constituía-se um mistério, pois alguns comportamentos pareciam acontecer espontaneamente, sem um estímulo que estivesse altamente correlacionado com uma resposta específica. Por exemplo, um rato em uma caixa experimental emite inúmeras respostas como farejar, andar e ficar em pé sem que, aparentemente, nenhum estímulo tenha eliciado esta cadeia comportamental.

A convicção determinista de Skinner foi um dos fatores que fizeram com que ele não tenha desistido de buscar variáveis externas que controlassem o comportamento (Sério, 1990). Só que agora, sua análise iria se orientar para os eventos que acontecem após a resposta, e não antes dela. Além disso, outro fator crítico foi seu sucesso em demonstrar, por meio de uma pesquisa de delineamento único e sem invasões instrumentais ao organismo estudado, regularidades entre estímulos e respostas (Cruz, 2013).

Fred Keller e Burrhus Skinner, em 1938.
Fred Keller e Burrhus Skinner, em 1938.

            Logo, a variabilidade que sugeria um comportamento espontâneo, agora parecia sujeito a leis, assim como a salivação do cachorro do Pavlov. Skinner estava criticando a visão que o ambiente era apenas um pano de fundo para a ação. A visão de ambiente skinneriana pressupõe a determinação de todas as respostas, a ausência de um estímulo eliciador não é motivo para afirmar que aquele comportamento ocorre espontaneamente.

            Em 1935, Skinner publica um artigo onde propõe a existência de um segundo tipo de reflexo (que mais tarde foi chamado de comportamento operante), sendo que o primeiro seria o pavloviano. O foco de Skinner no efeito do estímulo sobre a taxa de resposta do organismo, em detrimento de uma resposta fisiológica, o afastava do estudo de autores como Sherrington, Magnus e Pavlov. Estes autores, apesar de também estudarem reflexos, não tinham como objetivo estudar o comportamento, Pavlov, por exemplo, passou a estudar os reflexos salivares depois de estudar o sistema digestivo (estudo que lhe rendeu um prêmio Nobel em 1904). Para avaliar o efeito de suas manipulações sobre a taxa de respostas, foi preciso construir instrumentos que produzissem um dado que representasse a o número de respostas por um período de tempo. Foi assim que nasceu o registro cumulativo, a maneira predileta dos analistas do comportamento de apresentar dados até hoje (Skinner, 1979).

            Porém, só em 1937 que ele publica o primeiro artigo em que propõe o conceito de comportamento operante. Sobre isso, Sério (1990) afirma:

“Ao caminhar com o conceito de reflexo até o comportamento operante, [Skinner] parece ir, gradativamente, introduzindo a propriedade de sensibilidade, pelo menos é assim que se entende a possibilidade aberta pela concepção de estímulo reforçador, cujo efeito retroage sobre o organismo ou classe de respostas. A resposta se torna efeito de uma causa não presente, que só pode atuar se se assumir que a matéria é reflexiva – reflete, concretiza, os trações de sua história.” (p. 364).

            O comprometimento inicial de Skinner com o conceito de reflexo se transformou em uma postura crítica sobre a sua onipresença. Seu trabalho inventivo foi determinado pelas contingências materiais e sociais presentes naquele local e momento histórico.

            Porém, a construção da análise do comportamento estava apenas dando seus primeiros passos, a recepção da comunidade do seu primeiro livro O comportamento dos Organismos (1938) e mudanças importantes em sua vida pessoal serão abordados no próximo artigo.

Referências:

Cruz, R. N. (2013). B.F. Skinner e a vida científica: uma história da organização social da análise do comportamento.

Sério, T. M. A. P. (1990). Um caso na história do método científico: do reflexo ao operante. Um caso na história do método científico: do reflexo ao operante.

Skinner, B. F. (1935). Two types of conditioned reflex and a pseudo type. The Journal of General Psychology, 12, 66-77.

Skinner, B. F. (1937). Two types of conditioned reflex: A reply to Konorski and Miller. The Journal of General Psychology16, 272-279.

Skinner, B. F. (1938). The behavior of organisms: an experimental analysis.

Skinner, B. F. (1979). The shaping of a behaviorist: Part two of an autobiography.

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Cainã Gomes
Formado em Psicologia pela PUC-SP e especialista em Clínica Analítico-Comportamental. É pesquisador do Paradigma - Centro de Ciências do Comportamento, onde também atua como terapeuta. Tem experiência na área de Análise do Comportamento, com ênfase com Comportamento Governado por Regra e RFT (Relational Frame Theory). Foi coordenador da Comissão de História de Análise do Comportamento da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental (ABPMC) na gestão 2015-2016. Além disso, é mestrando do programa de Psicologia Experimental: Análise do Comportamento da PUC-SP com período sanduíche na Universidade de Gent, sob orientação do Prof. Dermot Barnes-Holmes.
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