Ideologia e Análise do Comportamento

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Álbum “Ideologia” do Cazuza

RESUMO

Nos últimos anos, tem aumentado o número de pessoas se posicionando e discutindo política, basta observamos os comentários nas redes sociais. Por vezes, os posicionamentos se sustentam em correntes filosóficas distintas, incluindo a Análise do Comportamento. Apesar de se tratar de um texto introdutório ao tema, explicaremos o que é Ideologia numa visão analítico-comportamental e esperamos que o texto possa servir como suporte para futuras interpretações de contextos políticos, inclusive do cientista do comportamento.

TEXTO

Uma das dificuldades em dialogar com outras ciências sociais é o fato de o Behaviorismo Radical não explicar os problemas sociais a partir das decisões ou omissões de um “eu iniciador”. Quando discutimos política, não explicamos (ou não deveríamos explicar) os eventos atribuindo-os ao desejo, à vontade ou a tendência de um sujeito, como ocorre com outras correntes filosóficas. No entanto, ainda assim, estamos apelando para um eu iniciador quando vinculamos posicionamentos políticos apenas a seguimento de regras. Quando falamos que João se posiciona de determinado modo porque decidiu seguir esta ou aquela corrente política (conjunto de regras), estamos excluindo de nossa explicação a história ambiental que o tornou sensível ao controle de determinado grupo social ou que contingências ambientais (aversivas ou reforçadoras) tornaram a pessoa mais sensível a determinado problema social. De certo modo, quando determinado repertório controlado por regras, o behaviorista poderá dizer que o repertório ocorre sob controle das descrições e não das contingências. Mas as descrições devem ser contingentes a algo, neste caso, a principal contingência de controle é social.

Desta maneira, explicaremos como aprendemos a nos comportar de acordo com uma ideologia em função de variáveis que não são de natureza verbal. A definição do Dicionário Houaiss (2001, p. 1565) de ideologia é:

“Um sistema de ideias (crenças, tradições, princípios e mitos) interdependentes, sustentadas por um grupo social de qualquer natureza ou dimensão, as quais refletem, racionalizam e defendem os próprios interesses e compromisso institucionais, sejam estes morais, religiosos, políticos ou econômicos.” (grifo nosso)

Já a definição de ideologia do Dicionário de Filosofia de Abbagnano (2007, p. 531) é:

“Pode-se denominar Ideologia toda crença usada para o controle dos comportamentos coletivos, entendendo-se o termo crença, em seu significado mais amplo, como noção de compromisso da conduta, que pode ter ou não validade objetiva. Entendido neste sentido, o conceito de Ideologia é puramente formal, uma vez que pode ser vista como Ideologia tanto uma crença fundada em elementos objetivos quanto um crença totalmente infundada, tanto crença realizável quanto uma crença irrealizável. O que transforma uma crença em Ideologia não é sua validade ou falta de validade, mas unicamente sua capacidade de controlar os comportamentos em determinadas situações.” (grifo dele)

Primeiro, percebemos que o controle social é parte importante da manutenção do sistema de ideias (há controles contingentes). Segundo ponto, crenças, tradições, princípios e mitos são outros nomes para os fenômenos chamados de práticas culturais.

Aqui frisamos que temos que focar nas relações sociais e não na ideia de crença, que está muito ligada a correntes individualista e internalistas de subjetividade, como nas definições populares e filosóficas tradicionais. O interesse deste texto é abranger comportamentos que não são claramente mantidos por regras e, mais que isso, saber que não é preciso ter consciência que se segue uma ideologia. Não há a necessidade de (“eu iniciador”) crer em algo. Basta que sejam produzidas contingências sociais que modelem e mantenham o comportamento-alvo ideologicamente determinado. Ideologia não necessita ser um conjunto de regras bem definidas, como numa agência de controle (Skinner, 1953). Defenderemos aqui que o conceito de práticas culturais pode ser uma forma adequada de compreender a Ideologia.

Assim, práticas culturais podem ser definidas como conteúdos comportamentais[1] e ambientais transmitidos através de gerações e mantidas pelas suas consequências (Skinner, 1991, p. 75; Glenn, 2004, p. 140). A palavra transmissão pode indicar que haja uma intencionalidade inerente ao comportamento de alguém modelar ou dar modelo para o comportamento de outro, porém, uma pessoa pode ser modelo de aprendizado sem que tenha a intenção de ser imitada. Práticas culturais, então, não são necessariamente intencionais, com um proposito bem definido, ainda que possam existir práticas culturais bem definidas e planejadas, como o ensino escolar. Práticas culturais são modeladas por contingências e, por vezes, existem regras explicitas que descrevem como devemos agir. No entanto, a fonte de controle do comportamento será o controle social e não a regra em si.

Quando uma prática cultural é ideologicamente bem definida, é comum percebermos o uso do poder por parte de uma pessoa (figura de autoridade) ou um grupo dominante. Poder pode ser definido como controle social exercido por alguém ou grupo por meio de reforçamento positivo ou punição (Baum, 2006). A definição de poder deriva de contextos em que a figura de autoridade ou grupo social dominante tem maior acesso a fontes de reforçadores e, assim, podem controlar o comportamento dos demais por meio destes. Quando é feito controle aversivo, a figura de autoridade ou grupo dominante tem menor probabilidade de sofrer controle aversivo dos sujeitos controlados, ou seja, há menor possibilidade de contracontrole. Dito de outro modo, a figura de autoridade ou classes dominantes tem o direito moral ou ético de produzir aversivos para o controle social.

Deixando claro isto, podemos indicar que muitas práticas culturais, em si, contêm ideologias políticas e sociais em uma escala de maior ou menor determinação. Dito de outro modo, conteúdos comportamentais específicos foram transmitidos de modo intencional ou não. Há controle social para manutenção de determinado padrão de comportamento, e este controle não se dá necessariamente porque há uma regra explicita ou implícita da ideologia X ou Y. O controle social que transmite e mantêm determinado padrão comportamental é parte de uma prática cultural, que, por acaso, é vista como sendo ideologicamente determinada.

Indicamos um conjunto de práticas culturais como ideologia quando elas são estáveis o suficiente, durante um período de tempo, através de gerações que promovem e promoveram controle significativo e extensivo entre os membros de um grupo. Os conteúdos comportamentais mantidos entre gerações foram tão significativos no controle ético dos membros que estudiosos ficaram sensíveis a estas contingências e às descreveram com um gradiente de precisão maior ou menor, a depender da prática cultural em questão. Curiosamente, a maioria das descrições envolvendo “ideologias” envolve controle aversivo entre os pares (vide livros de Michael Foucault, por exemplo “Vigiar e Punir” de 2000).

Para endossar como ideologias podem ser controle social sutil e não intencional, segue a citação de Skinner (1974, p. 136) quanto a verdade de uma afirmação científica:

“A veracidade de uma asserção de fato será limitadas pelas fontes do comportamento do falante, o controle exercido pelo ambiente atual, os efeitos de ambientes similares no passado, os efeitos sobre o ouvinte, levando à precisão, ao exagero ou à falsificação, e assim por diante. Não há nenhuma maneira pela qual uma descrição verbal de um ambiente possa ser absolutamente verdadeira. Uma lei científica é derivada possivelmente de muitos episódios deste tipo, mas ela está similarmente limitada pelos repertórios dos cientistas envolvidos. A comunidade verbal do cientista mantém sanções especiais, num esforço para garantir validade e objetividade, mas novamente não pode haver nada absoluto. Nenhuma dedução de uma regra ou de uma lei pode, então, ser absolutamente verdadeira. A verdade absoluta pode ser encontrada, se é que pode em alguma medida, somente em regras derivadas, e aqui ele é mera tautologia.” (Grifo nosso)

Assim, podemos defender que nós, cientistas do comportamento, não somos isentos de nos comportarmos de modo ideológico, mesmo que esta não seja nossa intenção. Afinal, parafraseando Skinner (1971, p. 124), o cientista do comportamento “estará sempre limitado por sua própria cultura, pois não será capaz de se libertar inteiramente das predisposições engendradas pelo ambiente social em que viveu”.

Concluindo, esperamos que tenha ficado claro como práticas culturais podem fazer parte de um conjunto de ideologias e não devem ser tratadas como naturalizadas. Somos sujeitos sensíveis ao controle social e nossas verdades científicas estão sobre efeito das contingências ambientais, que podem ou não contribuir para uma boa descrição dos controles sociais. Assim, defendemos que posicionamentos políticos ou vinculação social não são uma simples decisão pessoal ou seguimento de regras. Não podemos descartar a história cultural em que estamos inseridos, os controles sociais sutis. Não podemos negar que haja ideologias dominantes e que haja ideologias alternativas. Há práticas culturais dominantes e naturalizadas (transmitidas sem avaliação crítica). Há práticas culturais alternativas e pouco transmitidas/conhecidas, cujas consequências que às manteria ou são de baixa magnitude ou muito atrasadas, frente às práticas dominantes. É preciso fazer questionamentos enquanto cientistas comportamentais: que variáveis ambientais estão em vigor quando me posiciono politicamente?

REFERÊNCIAS

Abbagnano, N. (2007). Dicionário de Filosofia. São Paulo, Martins Fontes.

Baum, W. M (2006). Compreender o Behaviorismo: comportamento, cultura eevolução. Porto Alegre, Artmed.

Glenn, S. S. (2004). Individual behavior, culture, and social change. The Behavior Analyst, 27, 133-151.

Foucault, M. (2000). Vigiar e Punir. Rio de Janeiro, Ed. Vozes.

Houaiss, A. (2001). Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva.

Skinner, B. F. (1971). O Mito da Liberdade. São Paulo, Summus Editorial, 1983.

Skinner, B. F. (1974). Sobre o Behaviorismo. São Paulo: Cutrix.

Skinner, B. F. (1991). Questões recentes em análise do comportamento. Campinas: Papirus.

Skinner, B. F. (2003). Ciência e Comportamento Humano. São Paulo, Martins Fontes.

[1] Antecedente, consequências, topografias, etc.

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