A responsabilização do brincar

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As crianças podem apresentar dificuldades para escolherem brincadeiras adequadas ao ambiente, consequentemente, pode-se ocorrer conflitos devido ao brincar incongruente com o local. Para que as crianças consigam discriminar quais atividades são adequadas a determinado contexto, o aprendizado deve promover maior percepção sobre as condições do ambiente, pois este influencia na probabilidade de ocorrência de um comportamento.

Ao ter autonomia para escolher entre as brincadeiras possíveis, a criança, como agente ativo de sua ação, pode se responsabilizar por suas escolhas. A responsabilidade comumente está relacionada ao controle coercitivo da comunidade social, a partir da punição e do reforçamento negativo. Os comportamentos serão alterados em maior ou menor probabilidade de emissão futura, ao selecionar uma classe de respostas esperada para o convívio no grupo social. Porém, o controle coercitivo deve ser evitado, evidente, que não completamente, pois a própria natureza pode se encarregar deste controle sobre nosso comportamento.

Segundo Guilhardi (2002):

“Contingências coercitivas intensas produzem fortes sentimentos de ansiedade e de medo, geram comportamentos de contra-controle indesejáveis (quando a ameaça é forte a pessoa mente, se esconde, agride etc.), pode haver uma diminuição generalizada dos comportamentos até então presentes (supressão comportamental), perda da iniciativa, diminuição da variabilidade comportamental. É fácil concluir que devem ser evitadas.”(p.20)

Para que a criança possa se responsabilizar por seus comportamentos, inclusive o brincar, se faz necessário promover a liberdade de escolha e com recursos não coercitivos estimular a discriminação das condições do ambiente. Quando as brincadeiras forem adequadas ao contexto, as crianças podem ser reforçadas positivamente por suas escolhas, logo, contribui-se para a seleção de comportamentos desejáveis pela comunidade social, além de favorecer a generalização para outros contextos.

Compreender a proposta de cada brincadeira favorece a discriminação de quais comportamentos são esperados para tal atividade, o que permite que o lúdico tenha seu valor no processo de desenvolvimento e aprendizagem. Para que os comportamentos adequados sejam integrados ao repertório da criança, por contingências não coercitivas, a atividade lúdica pode adequar-se aos interesses das criança, para que elas se envolvam no processo e tenham acesso a reforçadores de seus comportamentos.

O brincar é um comportamento que possibilita à criança diversas estimulações do ambiente e o desenvolvimento de habilidades sociais importantes para o convívio social. Segundo Marques & Bichara (2011):

“A brincadeira durante a infância é uma estratégia importante usada para desenvolver os comportamentos que são adaptáveis aos ambientes que as crianças vivem. Assim, as crianças provam seu ambiente e através da brincadeira podem aprender e praticar os comportamentos adaptáveis a esse ambiente em especial.” (p.387)

A criança é capaz de emitir comportamentos adequados ao contexto, que possibilitem consequências mais reforçadoras e menos aversivas. Ao estimular a responsabilização do comportamento de brincar, em que a criança assume uma posição ativa sobre suas escolhas, pode-se contribuir para que menos conflitos aconteçam devido a brincadeiras inadequadas ao ambiente. Assim, as atividades lúdicas podem favorecer o desenvolvimento infantil e contribuir para interações saudáveis com o meio social.

Referências:

Marques, R. L., Bichara, I. D (2011). Em cada lugar um brincar: reflexão evolucionista sobre universalidade e diversidade. Estud. psicol. (Campinas), Campinas, v. 28,n. 3,p. 381-388, set. 2011.

Guilhardi, H. J. (2002). Auto-estima, auto-confiança e responsabilidade. Comportamento Humano – Tudo (ou quase tudo) que você precisa saber para viver melhor. Santo André: ESETec Editores Associados, 2002.

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