Sobre Darwinismo Social, Laranja Mecânica e os usos da ciência

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The eugenic tree. Este emblema, mostrando as raízes distantes da eugenia, era parte de um certificado concedido a "exposições de mérito" no II Congresso Internacional de Eugenia, realizada em 1921 no Museu Americano de História Natural, em Nova York. (Créditos da imagem: American Philosophical Society, Filadélfia, EUA.)
The eugenic tree. Este emblema, mostrando as raízes distantes da eugenia, era parte de um certificado concedido à “exposições de mérito” no II Congresso Internacional de Eugenia, realizada em 1921 no Museu Americano de História Natural, em Nova York. (Créditos da imagem: American Philosophical Society, Filadélfia, EUA.)

É óbvio afirmar que o conhecimento científico trouxe incontáveis benefícios à vida. Os meios de transporte cada vez mais eficientes, o desenvolvimento de tecnologias que permitem cirurgias médicas de altíssima complexidade, o conhecimento bioquímico do funcionamento fisiológico e seus desdobramentos para a produção de medicamentos eficazes contra doenças e no prolongamento da qualidade de vida, as tecnologias de comunicação que facilitam a conexão entre pessoas de diversas partes do mundo, esses são alguns dos milhares de exemplos. Há de se mencionar, no entanto, que “nem tudo são flores”. A mesma caneta utilizada para se escrever uma carta de amor, também pode ser um instrumento usado para perfurar o olho de alguém. Em outras palavras, nem todo uso do conhecimento científico foi apropriado e eticamente conduzido, e diversos fatos na história da ciência demonstram isso. O século XX é um prato cheio. Este breve ensaio aborda essas questões.

Darwinismo Social e as distorções da Biologia Evolucionista

Darwin estudou medicina na Universidade de Edinburgh, na Escócia. Sua carreira, entretanto, foi em biologia após ingressar na Universidade de Cambridge. Apesar de sua proposta de evolução por seleção natural ter aberto caminhos para o surgimento de diversos programas de pesquisa em diferentes áreas da ciência, Darwin não tinha intenção de transformar as conclusões teóricas de suas observações científicas em prescrições políticas e sociais. Equivocadamente, seu nome foi utilizado para denominar este conjunto de intenções oriundas primariamente do filósofo e biólogo vitoriano Herbert Spencer [1].

Darwinismo Social, portanto, é nome dado a um conjunto de teorias sobre o funcionamento da sociedade, o qual propõe a aplicação de conceitos biológicos de seleção natural e sobrevivência do mais adaptado ao campo da sociologia e da política. Para além desta simples definição, darwinistas sociais argumentam que o mais forte deve ver seu poder e riqueza crescerem e o mais fraco deve vivenciar o oposto. Dentro desta escola teórica, autores divergem sobre qual grupo de pessoas viria a ser o mais forte e qual seria o mais fraco, sugerindo também diferentes modos de promoção de força e punição de fraqueza. Muitas dessas propostas enfatizam a competição entre indivíduos, enquanto outras motivaram eugenia, racismo, imperialismo, fascismo, nazismo e lutas entre grupos raciais e nacionais [2].

Talvez o Nazismo seja o exemplo mais preciso da implementação de uma política que se enquadre nas definições do Darwinismo Social. A raça ariana, eleita por Hitler como a mais evoluída (supostamente mais forte e adaptada) deveria se impor sobre as demais (por conjectura mais fracas e menos adaptadas). Políticas de extermínio em massa (genocídio) de outras raças foram aplicadas. Além disso, foi conduzido um processo de seleção e recolhimento de crianças com perfil anatômico considerado modelo da raça ariana para que, crescendo em lugares pré-determinados, formassem uma “população pura”. Sobre esta última prática, foi criada na Alemanha em 12 de Dezembro de 1935 o projeto Lebensborn com o objetivo de aumentar a taxa de natalidade da raça ariana por meio de relações extraconjugais entre pessoas classificadas como “racialmente puras ou saudáveis”. O projeto incentivava nascimentos anônimos de crianças de mulheres solteiras e encorajava a adoção desses bebês por pais também “racialmente puros” (particularmente membros da SS e suas famílias). Sem saberem de onde vem e quem são seus verdadeiros pais, a maioria dessas crianças, hoje adultos, ainda sofre os terríveis resultados desta prática eugenista.

Seria de Darwin a responsabilidade pelo que ocorreu na Alemanha Nazista? Definitivamente não. Vale lembrar que ao visitar o Brasil em 1832, Darwin ficou estarrecido quando viu seres humanos tratados como escravos [3]. A mesma pergunta poderia ser feita em outros contextos, tais como: seria de Marx a responsabilidade pelas mortes, fome e controle intenso na Coréia do Norte? Seria de Freud a culpa pela patologização da homossexualidade até a década de 1970 (por muitos anos entendida como perversão e distúrbio sexual)? Seria Albert Einstein o responsável pela devastação ocorrida nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki em Agosto de 1945? (que completa 70 anos no mês de publicação deste texto).

Laranja Mecânica e a Modificação do Comportamento

A disciplina de “Psicologia Geral” (ou “Introdução à Psicologia”, ou outras variações) é comumente ofertada aos cursos de ciências humanas ou ciências médicas que, de alguma forma, trabalham com seres humanos ou lidam com questões comportamentais. Através desta disciplina, transmite-se um panorama geral sobre a história e os principais aspectos das diferentes escolas de pensamento em psicologia. Dentre as diversas formas didáticas de ensino, a exibição de filmes como “Freud além da Alma” e “Um método Perigoso”, por exemplo, tem sido bastante frequente para ilustrar o nascimento da Psicanálise e o rompimento das relações entre Freud e Jung, respectivamente. Amiúde, o uso desta ferramenta pedagógica também se aplica ao Behaviorismo. Há uma variação, não grande, entre os longa-metragens exibidos; mas “O show de Truman” e “Laranja Mecânica”, são geralmente os mais assistidos pelos alunos, especialmente o último filme [4]. Neste, baseado no livro que leva o mesmo título, o principal personagem Alex DeLarge, criminoso e estuprador, é submetido a experimentos de terapia aversiva (de controle respondente!) desenvolvidos por uma equipe do governo no esforço de resolver o problema social da criminalidade, mas nem tudo sai como o planejado.

Laranja Mecânica é comumente associado ao Behaviorismo (especialmente ao Behaviorismo Metodológico de John Watson, apesar de nem sempre esta diferenciação ser feita) dada a tentativa de modificação de comportamentos operantes a partir do paradigma estímulo-resposta: intervenção utilizando instrumentos aversivos, localizando o problema no indivíduo, desconectando-o de sua história e das contingências cujo comportamento é função. Entretanto, não foi somente a obra ficcional de Anthony Burgess que ilustrou tentativas equivocadas de aplicação da ciência do comportamento. James Holland, em um famoso e polêmico artigo publicado em 1978 denominado “Behaviorismo: Parte do problema ou parte da solução?” descreve casos reais de intervenções com pacientes alcoólatras em que os terapeutas fazem uso de procedimentos aversivos para modificação do comportamento: tentam parear estímulos que estão associados ao comportamento de beber (e.g., o gosto da bebida, estímulos visuais, e até mesmo a imaginação do beber) com fortes estímulos aversivos tais como choque elétrico ou uso de drogas para indução de náuseas. Mais uma vez: é Skinner o responsável pelo sofrimento vivido por esses pacientes sob “cuidado” desses “profissionais”?

O mau uso da ciência

Uma análise aprofundada, crítica e ética sobre a aplicação do conhecimento científico é sempre o passo elementar e prioritário antes de qualquer tipo de implementação. O mau uso da ciência não diz respeito à ciência em si. A ciência não é boa ou ruim em si mesma. O uso de qualquer conhecimento diz respeito, sim, aos contextos – atual e histórico – que o influenciam, e tal noção pode ser percebida em qualquer área, filosofia, ideologia, ou crença. No campo teológico, por exemplo, a mesma religião que queimou milhares de pessoas na idade média é a mesma religião de Zilda Arns, a médica brasileira indicada ao Prêmio Nobel da Paz em 2006 e postumamente em 2011 por ter trabalhado incansavelmente no combate à desnutrição infantil, salvando a vida de milhões de crianças, dentro e fora do Brasil. A mesma religião de Martin Luther King, que lutou até o fim de sua morte pela igualdade racial nos Estados Unidos, é a mesma religião dos membros da Ku Klux Klan que carrega em seu símbolo a cruz, ícone do cristianismo.

B. F. Skinner, absolutamente consciente desse problema, abre uma de suas mais importantes obras, “Ciência e Comportamento Humano”, falando sobre o mau uso da ciência. Vale a pena relembrar um trecho:

“… O poder do homem parece ter aumentado desproporcionalmente à sua sabedoria. Nunca esteve antes em melhor posição de construir um mundo sadio, alegre e produtivo; contudo as coisas nunca pareceram tão difíceis. Duas exaustivas guerras mundiais em apenas meio século não trouxeram a segurança de uma paz final. Os sonhos de progresso em direção a uma civilização superior foram destruídos pelo espetáculo da morte de milhões de inocentes … A ciência fez as guerras mais terríveis e mais destrutivas … Não é surpreendente encontrar-se a afirmativa de que a ciência deveria ser abandonada, pelo menos por uns tempos … [Entretanto], não há nenhuma virtude na ignorância pela ignorância. Infelizmente não podemos permanecer imóveis: eliminar a pesquisa científica significaria, agora, um retorno à fome, à peste, e aos trabalhos exaustivos de uma cultura escrava. Uma outra solução é mais compatível com o pensamento moderno. Talvez não seja a ciência que está errada, mas sua aplicação” (pp. 17-19).

À partir deste ponto de vista, para Skinner, a compreensão do comportamento humano (e aqui, inclui-se o comportamento de usar a ciência) “é nossa única esperança” (p. 19). Por mais longa que possa ser a lista de requerimentos éticos de conduta relacionados à pesquisa e ao desenvolvimento científico, vale lembrar que todas essas atividades são humanas e, portanto, sujeitas a todo tipo de influência e prática (honestidade, corrupção, comprometimento social, favorecimento de grupos específicos em detrimento de outros, etc.). Entenderemos o mau uso da ciência quando entendermos como funciona o comportamento humano, dizia Skinner.

Os biólogos evolucionistas David S. Wilson e Eric M. Johnson iniciaram uma série de artigos e entrevistas no portal eletrônico “This View of Life” com o objetivo de esclarecer ao público leigo sobre os erros absurdos cometidos pelo Darwinismo Social nas tentativas de implementação do conhecimento evolucionista à compreensão de fenômenos sociais. Há biólogos, antropólogos e psicólogos evolucionistas trabalhando para compreender mais sobre o nível social de comportamento humano à fim de contribuir na promoção de políticas públicas de inclusão, na redução das desigualdades, na erradicação de epidemias (como foi no caso do vírus Ebola em 2014) e na afirmação das diversidades. Não, eles não compartilham das teorias darwinistas sociais. Há behavioristas na linha de frente da luta pela igualdade de gêneros, na promoção de saúde junto ao SUS, em projetos para uma educação pública de qualidade, na luta pela reintegração social de ex-detentos no caminho por uma vida com mais sentido. E não, eles não compartilham dos procedimentos ilustrados na obra “Laranja Mecânica”, muito menos das técnicas aversivas de intervenção.


Notas:
[1] De acordo com o psicólogo evolucionista Steven Pinker, tal proposição teórica deveria ter sido intitulada “Spencerismo Social” (“The Blank Slate: The Modern Denial of Human Nature”, 2002).
[2] Ver “Social Darwinism” by Wikipedia.
[3] “Darwin’s Notebook: The Life, Times and Discoveries of Charles Robert Darwin” (Johathan Clements, 2009).
[4] Muito ainda se discute na comunidade analítico-comportamental sobre a existência ou não de problemas relacionados ao uso deste filme como ferramenta didática para o ensino do Behaviourismo. A partir de uma visão pessoal, vejo a utilização deste filme como algo pernicioso para a difusão da área, associando técnicas de controle aversivo em intervenções supostamente terapêuticas exibidas no filme àquilo que equivocadamente o Behaviourismo Radical e suas possíveis aplicações venham a ser. Entendo também como sendo problemática a utilização do filme “The Truman Show”, uma vez que oportuniza a visão enganosa do Behaviourismo Radical como proposta de controle artificial e da interpretação da vida como uma grande caixa operante.

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Tiago Zortea
Possui graduação em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo, onde atuou como pesquisador-bolsista do Ministério da Educação pelo Programa de Educação Tutorial em Psicologia. Possui mestrado em Psicologia pela mesma instituição na área de Evolução e Etologia Humana (Bolsista CAPES). Possui formação em Terapia Comportamental pelo Instituto de Terapia por Contingências de Reforçamento (ITCR) e atua em consultório particular no trabalho com crianças, adolescentes e adultos. Atualmente é pesquisador de PhD na University of Glasgow (Escócia, Reino Unido), membro do Suicidal Behaviour Research Laboratory, onde pesquisa sobre comportamento suicida e práticas parentais. É membro da British Psychological Society e revisor do periódico Archives of Suicide Research (International Academy of Suicide Research). Trabalha com os seguintes temas/áreas: Suicídio; Comportamento Suicida; Autolesão; Prevenção ao suicídio; Práticas parentais; Psicologia Clínica; Análise do Comportamento; Etologia Humana; Investimento Parental.
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