Entrevista com Lúcia C. A. Williams: Abuso Sexual Infantil

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A Dra. Lúcia Cavalcanti de Albuquerque Williams é professora titular do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e fundadora do LAPREV (Laboratório de Análise e Prevenção da Violência). Possui Pós-Doutorado pela Universidade de Toronto (Canadá), Doutorado em Psicologia Experimental (USP/SP), Mestrado em Psicologia pela Universidade de Manitoba (Canadá) e Bacharelado e Licenciatura pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP).

Ela foi convidada a falar sobre o tema “abuso sexual infantil”. Segue a entrevista.

1 – Pode falar sobre comosurgiu seu interesse por psicologia?

Quando adolescente (uns 15 anos) li alguma coisa de Freud. Ele dizia no texto que bastava ter olhos e ouvidos para descobrir tudo sobre o ser humano – ou algo assim. Aquilo aguçou a minha curiosidade, mas como boa adolescente tinha dúvidas e outras opções de escolha profissional.  A psicologia acabou ganhando e bastou ter a primeira aula de Análise Experimental do Comportamento na PUCSP para me certificar que eu jamais seria freudiana…

2 –E pelo tema “abuso sexual infantil”?

Atuei por cerca de 13 anos como psicóloga em Toronto, no Canadá. Essa experiência está relatada em: Williams, L. C. A. (1999). A atuação do psicólogo em um mundo globalizado: A experiência de uma década de trabalho no Canadá. Psicologia Ciência e Profissão, 19, 32-39. Eu atuava no Sistema de Ensino Canadense e havia uma especialista em abuso sexual que nos assessorava. Eu simplesmente “sugava” o conhecimento dela (era assistente social) e ficava impressionada com a relevância do tema. Mal sabia eu que futuramente seria uma pesquisadora na área. Ao retornar ao Brasil, fundei em 1998 o Laprev – Laboratório de Análise e Prevenção da Violência no Departamento de Psicologia da UFSCar. Eu supervisionava estagiários que ofereciam psicoterapia a mulheres vítimas de violência na Delegacia da Mulher de São Carlos, aos filhos de tais mulheres e a seus parceiros violentos. A partir do ano 2000 começamos a atuar também em uma sala do Conselho Tutelar da cidade depois que uma mestranda fez um trabalho de intervenção com pais que agrediam fisicamente os filhos. Enfim, o trabalho do Conselho e da Delegacia da Mulher (em São Carlos ela também atende crianças) nos levou a mergulhar de cabeça no fenômeno do abuso sexual infantil – passando a fazer pesquisa, ensino e atividades de extensão.

3–As crianças vítimas de abuso sexual podem apresentar alguns tipos de sinais (comportamentos) que sirvam de alerta para a possibilidade de terem sido abusadas? Se sim, quais?

O sinal mais fartamente estudado é a sexualização precoce da criança que passa a emitir excessos de comportamentos masturbatórios em público, interage de forma sexualizada com outras crianças e/ou adultos, ou demonstra conhecimento sobre sexualidade de forma inadequada para a etapa de desenvolvimento. Além disso, a criança pode apresentar medo excessivo, pesadelos, alterações bruscas comportamentais, como agressividade ou retraimento, dificuldades escolares e de concentração, problemas alimentares, isolamento, depressão, entre outros.

4 – Estes mesmos sinais podem (comportamentos) podem ter outras causas? Se sim, quais?

Sim, a dificuldade é que não há sinais específicos para o abuso sexual. Uma criança que tenha sofrido um trauma forte (de natureza não sexual) pode apresentar alterações grandes comportamentais. Um bebê que tenha um grande descontrole hormonal pode em tese apresentar comportamentos masturbatórios em excesso. Dado isso, os especialistas consideram a principal prova a revelação da criança que ela sofreu abuso sexual. Para isso temos protocolos desenvolvidos por pesquisadores da Psicologia para conduzir entrevistas forenses com crianças de forma adequada. Eu pesquiso o Protocolo NICHD que é o mais robusto em termos de estudos realizados comprovando a sua eficácia. Acabamos de publicar um estudo fruto do mestrado de minha atual doutoranda Chayene Hackbarth: Hackbarth, C., Williams, L.C.A. & Lopes, N.R. (2015). Avaliação de capacitação para utilização do Protocolo NICHD em duas cidades brasileiras. Revista de Psicología, 4(1), 1-18. http://dx.doi.org/10.5354/0719-0581.2015.36916

E como o psicólogo deve proceder para confirmar as suspeitas?

Mediante a suspeita de que uma criança possa sofre abuso sexual infantil o psicólogo deve cumprir o ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente, pois tal lei diz que tal suspeita deve ser notificada ao Conselho Tutelar que irá colocar o sistema de proteção e garantida de direitos para averiguar se ela procede. Ainda que tal psicólogo seja um clínico, o sigilo é relativizado e nesse caso as leis do país imperam, pois o objetivo é colocar a criança em proteção, portanto zelando pelo menor prejuízo possível.

É importante que o psicólogo que atua com crianças aprenda com propriedade sobre o abuso sexual infantil, fenômeno que tem características diferenciadas.

5 – Quais são os efeitos a curto e a longo prazo do abuso sexual infantil?

A curto prazo seriam aqueles sinais mencionados na pergunta 3. A médio prazo a criança ou adolescente pode apresentar tais riscos: fuga de casa (meninos em situação de rua tem um histórico freqüente de abuso sexual), envolvimento em drogas, etc. A longo prazo podem ser observados distúrbios sexuais, maior propensão para ofensas sexuais, depressão, transtornos alimentares (bulimia e anorexia), ideação suicida, tentativas de suicídio e concretização de tal conduta. Juliana Rodrigues, ex-aluna de Iniciação Científica estudou a sexualidade de adolescentes com ou sem histórico de abuso sexual. As que não tinham histórico encaravam sexo de modo positivo e romanceado, as que tinham tal histórico, no gera,l achavam o sexo aversivo…( Rodrigues, J.L., Brino, R.F. e Williams, L.C.A. (2006). Concepções de sexualidade entre adolescentes com e sem histórico de violência sexual. Paidéia, 16, (34), 229-240).

6 – Existem fatores que podem agravar os impactos do abuso?

Sim, as seguintes variáveis: a proximidade do ofensor  (quanto mais próximo como pai, mãe, padastro) pior o impacto; a duração do abuso e sua topografia (se apenas uma vez menos grave) e se mais intrusivo (com penetração) mais grave o impacto, e finalmente o tipo de apoio recebido dos pais e cuidadores, de profissionais e do judiciário.

7 – Quais os maiores desafios encontrados por você na prática clínica com crianças vítimas de abuso sexual?

O maior desafio é verificar como o nosso Judiciário ainda está despreparado para ouvir de foram apropriada a criança com suspeita de sofrer abuso sexual. Acompanho um casos grave que a suspeita começou na infância e a menina hoje com 10 anos ainda não foi ouvida. Esse desafio está atrelado a falta de preparo de profissionais a lidarem com o abuso sexual infantil.

8 – Que habilidades considera importantes para o Psicólogo que deseja atuar atendendo casos de abuso sexual infantil?

Competência para buscar um repertório especializado para lidar com o tema, manter-se atualizado com a literatura (indo a congressos e lendo artigos especializados), compromisso ético de pedir auxílio e consultoria para lidar com casos complexos.

9 – Que desafios são mais frequentes ao lidar com a família? Como costuma manejá-los?

Nos casos graves que envolve abuso intrafamiliar a família sofre muito por fatores que fogem ao nosso controle, por exemplo: a mãe pode ser injustamente acusada de alienação parental e temer perder a guarda da filha justamente para um pai ofensor sexual; o judiciário é lento e no geral despreparado (conta-se nos dedos os tribunais brasileiros que são exemplares na área).

Como manejar: procurar transmitir serenidade a essa família, ensiná-la a buscar seus direitos, a dissipar uma possível depressão, etc.

10 – Para finalizar, poderia deixar dicas de artigos, filmes ou outros materiais que abordagem o tema?

Gostaria de deixar a dica de uma artigo publicado em inglês que originou-se de uma palestra que dei há anos atrás em Campinas, numa reunião da ABPMC em conjunto com a ABAI – a palestra se intitulava Do que Virgínia Woolf tinha medo: Análise do histórico de abuso sexual da escritora ou algo assim. Eu muitas vezes uso esse artigo para dar uma introdução sobre o tema abuso sexual infantil, pois toda a área é revista: Williams, L. C. A. (2014). Virginia Woolf’s History of Sexual Victimization: A Case Study in Light of Current Research. Psychology, 5, 1151-1164. http://dx.doi.org/10.4236/psych.2014.510128

Sobre filmes – há vários – no site do Laprev – www.ufscar.br/laprev há várias sugestões de filmes.

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