De pai para filho, de filho para pai

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Qual o papel de um pai? Mais especificamente, qual o papel do seu pai em sua vida? Vale destacar que o sentido do termo “pai” empregado aqui não se restringe ao progenitor biológico, mas sim àquela pessoa que assumiu tal função em sua história. Responder a essa questão pode ser simples para alguns ou extremamente difícil para outros, por várias razões. Um dos motivos desse leque de respostas deve-se justamente ao fato de que a relação entre pais e filhos não é inata, mas sim construída. Nesse sentido, a função paterna não é passível de tradução exata e universal, na medida em que atravessa diversos percursos particulares.

Não basta vestir a fantasia de pai e pronto! Trata-se de assumir um espaço significativo na vida dos filhos. O ambiente familiar é de extrema relevância para o desenvolvimento da criança. Geralmente, são os pais que participam das primeiras aprendizagens dos filhos, modelando comportamentos de menor e maior complexidade. Desde o treino para o usar o banheiro até passar a compartilhar os brinquedos com o irmão ou um colega da escola. Desde o uso das palavras mágicas (por favor, desculpe, com licença, entre outras) até a identificação e expressão de sentimentos.

O próprio processo de autoconhecimento pode ser promovido e facilitado pela mediação do pai, tendo em vista que é a partir da interação com a comunidade verbal que olhar para si adquire valor para o indivíduo. Tal repertório é valioso para que o indivíduo seja capaz de prever e controlar seus comportamentos, na medida em que se torna mais apto a identificar as variáveis que mantém determinadas respostas e manipulá-las (Skinner, 1974/2006).

Além disso, o modelo oferecido pelo pai é importante para o desenvolvimento saudável do filho. Um pai que diz ao filho para respeitar os demais e é mal-educado na relação com outras pessoas provavelmente não está oferecendo as condições adequadas para que o filho se comporte tal como o indicado. Nesse exemplo, se o pai obtém o que deseja ao apresentar a resposta considerada agressiva, é provável que o filho observe tal consequência como satisfatória e em situações semelhantes teste a emissão do mesmo tipo de comportamento. Diferentemente, quando o pai ensina determinados valores aos filhos e é coerente a esses mesmos princípios, proporciona ao filho um contexto que tende a favorecer a apresentação dos comportamentos esperados.

Mesmo que para muitos filhos o pai represente, de fato, um super-herói, e por mais que ele se dedique para alcançar os superpoderes, não terá todas as respostas, muito menos se comportará o tempo todo da maneira como gostaria que os filhos fizessem. Os pais também erram, também mudam e em muitas ocasiões também não sabem como proceder. Isso faz parte. Claramente não é em um passe de mágica que um pai se torna pai; tal papel demanda a aprendizagem de muitos comportamentos, o que por sua vez ocorrerá a partir do relacionamento estabelecido com os filhos, em cada etapa da trajetória dos mesmos.

Quando bebês, os filhos demandam o desenvolvimento de determinados repertórios comportamentais dos pais. Trocar fraldas, acordar de madrugada, discriminar o choro que indica fome e o que sinaliza cólica ou dor, preparar o banho, acompanhar os primeiros passos e palavras. Na infância, os comportamentos requeridos claramente não são os mesmos, geralmente envolvem ensinar a andar de bicicleta, a resolver um conflito na escola, ajudar com as tarefas, entre muitos outros. Durante a adolescência, as mudanças continuam, mais uma vez para ambas as partes. Ao passo em que os filhos passam por intensas transformações, os pais também precisam aprender a lidar com novos desafios, como dialogar sobre sexualidade, acompanhar as decisões referentes à escolha profissional e gerenciar os questionamentos dos filhos.

Pode parecer que na vida adulta do filho caberá ao pai uma tarefa mais leve, quando na verdade o processo de desenvolvimento e aprendizagem continua para as duas partes envolvidas. Inclusive, um novo papel poderá ser assumido, o de avô. Ademais, na velhice do pai, é possível que caiba ao filho determinadas funções de atenção e cuidado. Não necessariamente porque o pai perdeu a capacidade de agir sobre o mundo, mas sim devido à relevância desse contato com pessoas queridas para a qualidade de vida, em especial na terceira-idade.

De pai para filho. De filho para pai. A construção do modo como um se comportará frente ao outro, parte das relações que estabelecem entre si ao longo de suas histórias. E é justamente essa possibilidade de transformação que faz das interações humanas tão especiais. O homem interage com o ambiente e é transformado pelas consequências de sua ação. Ser pai e ser filho é sobretudo usufruir dessa oportunidade de transformar-se com o outro e pelo outro.

Parabéns aos pais que deram esse passo! Parabéns àqueles que se fazem pais todos os dias! Parabéns às pessoas que assumiram o papel de pai a partir do amor, acima do vínculo genético! Parabéns para o pais que contribuem para que os filhos sejam pessoas melhores e nessa missão também se tornam seres humanos mais humanos!

Referência bibliográfica:

Skinner, B. F. (2006). Sobre o Behaviorismo. São Paulo: Cultrix (Trabalho original publicado em 1974).

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