O QUE A ANÁLISE DE CONTINGÊNCIAS PODE NOS ENSINAR SOBRE MOTIVAÇÃO? – PARTE 2

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Extraído de https://www.pinterest.com/pin/172403491955373615/
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O termo “motivação” é muito comumente utilizado em diversas abordagens da psicologia, bem como pelo vocabulário cotidiano. No entanto, sob a ótica da Análise do Comportamento, este é um conceito que pouco nos descreve quais comportamentos são considerados como pertencentes a este conjunto, e quais as condições ambientais (e não internas, intrínsecas ao indivíduo) que produzem tais comportamentos. Dando continuidade ao tema de como a compreensão de conceitos da Análise do Comportamento pode nos ajudar a entender o termo “motivação” (vide texto anterior desta coluna com a primeira parte da discussão sobre o tema https://comportese.com/2015/05/o-que-a-analise-de-contingencias-pode-nos-ensinar-sobre-motivacao-parte-1/), vamos abordar outro aspecto do texto O que há de errado com a vida cotidiana no mundo Ocidental?, escrito em 1987 por B. F. Skinner.
O autor discute o efeito de cinco práticas culturais que desgastam as contingências de reforçamento, ou seja, enfraquecem a relação entre os comportamentos apresentados pelos indivíduos e as consequências que são produto destes comportamentos. Uma destas práticas se refere à abundância de consequências imediatas disponíveis na nossa cultura atualmente. Como exemplo, podemos citar a grande disponibilidade de programas e canais de televisão, conteúdos disponíveis na internet para entretenimento, facilidade de acesso e a lugares e contato com as pessoas.
O efeito indesejado disto sobre o padrão de comportamento das pessoas não está na abundância dos estímulos disponíveis, mas no que se chama tecnicamente de baixo custo de resposta, ou seja, no fato de que, para se ter acesso a estes estímulos tão agradáveis e prazerosos é requerida a emissão de comportamentos muito simples e quase nada trabalhosos para o indivíduo.
Como consequência, as pessoas se tornam mais propensas a se comportar para produzir o que é mais fácil, principalmente quando estes itens são atrativos e prazerosos. No entanto, o efeito colateral indesejado é que isso pode dificultar que as pessoas se engajem em projetos e situações que exijam comportamentos mais complexos, sofisticados (ou seja, com alto custo de resposta).
Os exemplos não são difíceis nem raros de se observar. Um adolescente que dedica horas a um jogo eletrônico, repetindo tentativas de conquistas de níveis ou novos poderes no jogo, não apresenta o mesmo padrão diante da elaboração de um trabalho escolar, ou mesmo para aprender uma nova habilidade, como tocar um instrumento ou praticar um esporte. Um jovem adulto que estabelece diversos contatos via internet com pessoas com quem deseja estabelecer um relacionamento afetivo ou sexual não tem a mesma desenvoltura em um ambiente natural e de paquera “ao vivo”. Nos dois casos, a exposição ao contexto de maior dificuldade pode fazer com que estes indivíduos não persistam, abandonem seus projetos antes de alcançar os objetivos pretendidos. Uma análise superficial indicaria que estes indivíduos são desmotivados, “não sabem correr atrás do que querem”, como se isso fosse uma causa interna que explicasse seus padrões de comportamento.
A partir da análise das contingências de reforçamento e deste aspecto cultural apontado por Skinner, a falta de motivação pode ser explicada pela forma como as pessoas têm sido expostas ao que é prazeroso e de fácil acesso, dificultando, consequentemente, que se desenvolvam comportamentos de persistência, dedicação, busca pelos objetivos. Nas palavras de Skinner (1987, p. 10): “Ao vencer a luta pela liberdade e a busca pela felicidade, o Ocidente perdeu a inclinação para agir.”
Para tornar os indivíduos mais “motivados”, ou seja, mais propensos a buscar seus objetivos, temos que fazer um novo arranjo ambiental, de forma a criar condições para que os indivíduos sejam levados a apresentar comportamentos moderadamente complexos para obtenção de consequências desejadas.

Referência

Skinner, B. F. (1987). O que há de errado com a vida cotidiana no mundo ocidental? Trad. Renata Cristina Gomes, disponível em http://www.itcrcampinas.com.br/pdf/skinner/oque_ha_de_errado_com_o_mundo_ocidental3a.pdf

 

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