Algumas considerações sobre “O Mau Uso da Ciência” no Filme – O Jardineiro Fiel

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Os avanços científicos marcaram e ainda marcam a ascensão de diversas áreas do conhecimento. No campo das ciências da saúde, por exemplo, descobertas a respeito de causas, prevenções e a cura de muitas doenças, ocorreram devido aos benefícios do conhecimento científico. Muitas dessas descobertas reduziram até mesmo as taxas de mortalidade com o passar do tempo e com o desenvolvimento cada vez mais elaborado das práticas científicas. No entanto, ainda que seja possível reconhecer todos os benefícios advindos da ciência, é necessário que algumas práticas sejam questionadas, principalmente em relação à ética em pesquisas, pois os prejuízos relacionados ao mau uso da ciência também existem, embora não sejam colocados em evidência com tanta frequência.

Este texto tem o objetivo de fazer algumas considerações a respeito do “Mau uso da ciência” (cap. 1) de acordo com Skinner (1953), utilizando algumas cenas do filme “O Jardineiro Fiel” para ilustrar a breve análise realizada.

The Constant Gardener (O Jardineiro Fiel ) trata-se de “um filme teuto-britânico lançado em 2005, dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles. Tem o roteiro baseado no romance homônimo de John le Carré, publicado em 2001. O filme apresenta a trajetória de Justin Quayle, um diplomata britânico lotado em Nairóbi, no Quênia, que decide investigar as razões do assassinato de sua esposa Tessa, uma ativista de direitos humanos. Ao persistir na investigação do assassinato de sua esposa, mesmo recebendo ameaças, Justin descobre-se em meio a uma teia de revelações mais profunda: sua esposa estava envolvida  em uma investigação sigilosa sobre uma conspiração internacional envolvendo governos e multinacionais do setor farmacêutico.”

Segue o trailer:

O filme retrata o envolvimento de governantes e multinacionais do setor farmacêutico, em parte do processo de verificação por meio de testes em seres humanos, com determinados medicamentos. Neste processo, os testes são realizados no Quênia, sob o pretexto de prevenir a disseminação do vírus HIV por meio da distribuição gratuita de medicamentos para o tratamento. Junto a este procedimento, a empresa responsável também realizava os testes para um novo medicamento contra a tuberculose.

Os diversos prejuízos considerados consequências deste mau uso da ciência também aparecem no filme. Pessoas são tratadas como “coisas” e os interesses econômicos são colocados acima dos direitos humanos.

Tessa

Tessa é a personagem que em um mundo tão individualista, age em nome de interesses coletivos, se contrapõe ao controle governamental (e aliados) e se prejudica por conta disso.  Os comportamentos de Tessa podem ser considerados de uma classe referente ao contracontrole, que surgem quando um organismo está sob controle de contingências aversivas e tem poucas opções de fugir (sair do ambiente que produz a estimulação aversiva) ou se esquivar (evitar o estímulo aversivo). Pode-se inferir que fugir ou se esquivar não era o objetivo da personagem, mas enfrentar a contingência por mais aversiva que esta se apresentasse. A personagem se envolveu na investigação sobre os testes criminosos, e assume uma postura de contracontrole mesmo sabendo os riscos que poderia correr (assim como Justin, a partir do momento em que decide continuar o que Tessa deu início) por parte dos responsáveis pelo controle. O contracontrole sendo caracterizado pelo tipo coercitivo é aquele que o sujeito que está sob controle emite uma resposta nova que impede que o controlador mantenha o controle sobre seu comportamento (Moreira & Medeiros, 2007). O contracontrole geralmente ocorre na presença de contingências aversivas, ou seja, na tentativa de eliminá-las. Algo semelhante ao conceito de Liberdade para Skinner, que envolve comportamentos em que o indivíduo se livra do controle aversivo ou punitivo e busca contingências de reforçamento positivo.

dipraxaA tentativa de eliminar o estímulo aversivo ocorre também na cena em que Tessa menciona em sua conversa com Arnold a frase: “É como um casamento de aparências/conveniências e que só gera filhos mortos” e em seguida se incomoda com o fato de Justin estar utilizando uma caixa de agrotóxicos em suas plantas do jardim. A princípio, esta cena pode levar à hipótese de que seu comportamento ríspido pode estar relacionado ao seu próprio casamento e ao fato de ter perdido seu bebê. No entanto, seu comentário durante a conversa com Arnold dizia respeito ao envolvimento das empresas com o governo no desenvolvimento das pesquisas na população Queniana que causava inúmeras mortes. E sob controle desta contingência, não aceitava nem mesmo a caixa de agrotóxico (utilizada por Justin) com a marca das três abelhas, o que explica seu comportamento em relação ao esposo.

Desta história “fictícia” que é apresentada no filme se tem muitos exemplos na vida real. Para saber mais a respeito destes exemplos reais:

http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI269853-17773,00-TERCEIRIZANDO+COBAIAS.html)

Geralmente as grandes empresas de medicamentos, com um discurso humanitário, se aproximam de comunidades (países, estados, cidades) de baixa renda, que estão em processo de descolonização, nasconstant_gardener quais grande parte da população está acometida por diversas doenças e não possui condições financeiras para custear um tratamento adequado. Em muitos casos os testes são aplicados sem o consentimento dos envolvidos ou até mesmo sem nenhuma informação a respeito do que acontecerá durante o processo da pesquisa (riscos de sequelas ou morte, por exemplo) como acontece no filme.

Parece muito simples (e é) comprar uma caixa de medicamentos para dor, uma caixa de agrotóxicos, ou até mesmo um alimento, por exemplo, utilizá-los e simplesmente resolver o problema. Mas, raramente pensamos a respeito de todo o processo a que aquele produto foi submetido para chegar até sua comercialização. De fato, muitos procedimentos precisaram ser manipulados para que possamos ter acesso à diversos avanços científicos. Mas, até que ponto “os fins justificam os meios”? É aceitável se utilizar de práticas científicas de maneira antiética para fins lucrativos? É aceitável usar “drogas descartáveis em pessoas descartáveis, que morreriam de qualquer maneira” (como mencionado pelo personagem Sandy no filme)? Obviamente, não! Até por isso existem comitês de ética com a finalidade de avaliar os procedimentos utilizados em tais práticas. No entanto, de alguma maneira alguns laboratórios/empresas podem fugir às regras e fazer um mau uso da ciência.

Skinner (1953) afirma que

“o poder do homem parece ter aumentado desproporcionalmente à sua sabedoria.”

 “(…) acentua a irresponsabilidade com que a ciência e os produtos da ciência têm sido tratados.”

“Despojada de sua posição de prestígio, desacredita-se a ciência como uma arma perigosa nas mãos de pessoas que não a entendem.”

Neste sentido, seria válido levantar determinados questionamentos, tais como: Quem controla nossos comportamentos?  Como estamos nos comportando em relação ao consumo? O que estamos consumindo? Quais as consequências disso? Como nossos comportamentos têm afetado/modificado o meio? Como o meio tem afetado/modificado nossos comportamentos?

Muito progresso foi alcançado por meio da ciência, e nas palavras de Skinner (1953):

“Talvez não seja a ciência que está errada, mas sua aplicação. Não precisamos nos retirar dos setores onde a ciência já avançou. É necessário apenas levar nossa compreensão da natureza humana até o mesmo grau. Na verdade, esta é nossa única esperança. Se pudermos observar cuidadosamente o comportamento humano, de um ponto de vista objetivo e chegar a compreendê-lo pelo que é, poderemos ser capazes de adotar um curso mais sensato de ação.”

Referências:

Moreira, B. M., Medeiros, A.C. (2007).  Princípios Básicos de análise do comportamento. Porto Alegre: Artmed.

Skinner, B. F. (2007). Ciência e Comportamento Humano (J. C. Todorov, & R. Azzi, Trads.,11ª ed.). São Paulo: Martins fontes (Obra original publicada em 1953).

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Débora Dias
Mestre em Análise do Comportamento pela Universidade Estadual de Londrina. Especialista em Recursos Humanos pelo Centro Universitário Filadélfia de Londrina. Graduada em Psicologia pela Universidade Estadual de Londrina. Experiência profissional na área Clínica (atendimento psicoterapêutico de crianças e adultos), Acadêmica e Recursos Humanos. Atua no momento no IPAC - Instituto de Psicologia e Análise do Comportamento (Londrina) e na UNOPAR - Universidade Norte do Paraná (Londrina).
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