“A história de nós dois” – Contribuições do filme enquanto recurso terapêutico no atendimento de casal.

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Você é Terapeuta de Casal e ainda não assistiu a esse filme? Não o conhece? Nunca ouviu falar nele? Você nem imagina que recurso precioso você pode estar perdendo. Vou lhe dar uma sugestão: pare tudo o que está fazendo, inclusive de ler esse texto, e vá correndo assistir. Costumo dizer para meus alunos que esse filme foi feito sob medida para terapeutas de casais, tamanha as possibilidades de análises de contingências, de descrições, de modelos e contra-modelos e, principalmente, de construção de metáforas que o filme proporciona.

Filme-A-história-de-nós-doisPara quem não sabe do que trata o filme, farei uma breve descrição. O filme conta a história do relacionamento de Ben (Bruce Willis) e Katie Jordan (Michelle Pfeiffer). Após 15 anos de casados, o casamento está em crise. No início do filme, o desgaste está bem evidente, mas eles ainda disfarçam em função dos filhos.  Mas assim que seus filhos Josh (Jake Sandvig), de 12 anos, e Erin (Colleen Rennison), de 10, vão para o acampamento de verão, eles se separam. Separados, cada um tenta recomeçar a vida em campos neutros, aproveitando o período para avaliar e refletir sobre a vida que tiveram juntos, com seus altos e baixos, e tentam concluir se ainda há algo de sólido nesta relação, que permita uma reaproximação.

Parte da história acontece em narrativa de primeira pessoa, às vezes de Ben, às vezes de Katie. Nessas narrativas, já é possível observar algumas autoregras que, durante os anos de relacionamento, conduziram o casal e promoveram vários dos comportamentos emitidos por eles. Durante o filme, muitas conversas acabam em brigas, trocas de acusações e julgamentos. Em uma dessas brigas, eles descrevem inclusive os vários processos terapêuticos de casal aos quais eles se submeteram. Em um dos recortes das sessões apresentadas no filme, um dos terapeutas, um psicanalista, afirma: “Quando duas pessoas vão para a cama, na verdade, há seis pessoas na cama. As seis pessoas na cama são vocês dois, os seus pais e os pais dele.”

Essa regra dada pelo terapeuta pode ser usada como uma metáfora e, entre tantas outras que o filme provoca, talvez essa seja a mais interessante. Skinner discutiu sobre metáforas, em seu livro Comportamento Verbal, referindo-se às extensões do tato. Ele explica que uma pessoa pode responder a um estímulo com base em certas propriedades comuns a outros estímulos (Skinner, 1978). Dessa forma, a utilização de metáforas, além de ter grande chance de ser reforçadora para o casal, pode contribuir significativamente para o sucesso da relação terapêutica e a adesão ao tratamento, além de aumentar a sensibilidade para arranjos de contingências em vigor na vida do casal, contribuir para evocar alguns comportamentos e desconstruir e construir regras que cercam a vida do casal.

Christensen e Jacobson (2000, in Otero & Ingberman, 2004) também sugerem que o terapeuta precisa ter habilidades, como ser capaz de utilizar metáforas pertinentes e desenvolver nos clientes uma maneira diferente de falar dos problemas. A metáfora dos “pais na cama” proporciona essa possibilidade. Ela evidencia como muito do que fazemos tem uma relação direta com os comportamentos aprendidos e modelados na história de relacionamento dos nossos pais. Na sessão, podemos solicitar que o casal em atendimento descreva, por exemplo, o que eles discriminam no que há de similar na forma de se relacionar dos pais com os comportamentos emitidos por eles na relação. O terapeuta pode conduzir também uma investigação para avaliar quais esquemas de reforçamento prevalecem na interação desse modelo primário: “o pai era punitivo com a mãe?”, “a mãe, em contrapartida, sempre reforçava o pai cedendo às suas exigências?”. Bom, são enormes as possibilidades a serem avaliadas.

O reforçamento é o princípio fundamental do comportamento operante. Esse princípio pode ser observado no conjunto de atividades do homem, em seu ambiente, que é modificado significativamente, pela atuação desse comportamento operante, visando sua sobrevivência e suas atividades fisiológicas. O reforçamento ocorre quando o comportamento é, imediatamente, seguido por um reforçador, estímulo que aumenta a frequência do desempenho imediatamente antecedente (Ferster, 1979)

Assim como os estímulos podem ser positivos ou negativos, o reforçamento operante também pode ser negativo ou positivo. Diz-se que o reforçamento ou fortalecimento operante é positivo quando o comportamento operante visa a apresentação do estímulo positivo e que o reforçamento ou fortalecimento operante é negativo quando o comportamento operante remove ou susta um estímulo aversivo (Whaley & Malott, 1980).

No filme citado, em muitas das cenas de interação entre Ben e Katie, fica fácil perceber que Ben se comporta por reforçamento negativo, isso porque em várias cenas ele evita embates para não brigar ainda mais com sua esposa. Em outras ele cede para agradá-la. Já em outros momentos do filme, ambos fazem descrições de como era a relação nos primeiros anos e na fase de namoro. Muitas dessas descrições deixam evidente como eles se reforçavam positivamente. Eles riam das piadas que um contava para o outro, se elogiavam, eram afetuosos, etc.

Sidman (1995), ao falar sobre processo mantido por reforçamento negativo, coloca que estabelecer contingências de esquiva pode trazer resultados problemáticos. Diferentemente de ações que produzem um óbvio reforçador positivo ou fuga de um punidor, esquiva bem sucedida impede que algo aconteça e, portanto, parece não produzir qualquer efeito imediato, ela parece sem propósito. Sujeitos sob ameaça de punição forte provavelmente nunca tentariam se expor a situações que a sinalizassem. E era isso que acontecia: Ben deixava de se expor em muitos momentos e Katie tinha queixas sobre comportamentos que existiam antes, mas que, com o passar dos anos, deixaram se ocorrer.

Outra cena bem interessante no filme é quando Ben e Katie se falam por telefone. Katie está enfrentando um pequeno caos em casa. Está entre afazeres domésticos que saem do seu controle e uma briga entre seus filhos. Já Ben está na frente do prédio antigo onde moraram por anos no exato momento da sua demolição. Ben por telefone faz relatos dos momentos vividos ali, dos projetos, das brincadeiras. Mas Katie, sob o controle de outros estímulos, não escuta uma palavra do que ele diz. Esse era um padrão na relação, ela era a que lidava com as coisas sérias e ele com o lado divertido do casamento.

Skinner (1953) coloca que, tanto na vida diária quanto na clínica e no laboratório, é preciso saber o quão reforçador um determinado estímulo é. Algumas vezes, os estímulos aversivos são derivados da experiência do indivíduo e podem pertencer a dois tipos básicos: estímulos que são aversivos porque sinalizam uma redução do reforçamento positivo e estímulos que são aversivos porque precedem ou constituem a ocasião para o aparecimento de outros estímulos aversivos. Um estímulo aversivo pode influenciar o comportamento de várias maneiras diferentes e determina comportamentos de esquiva e fuga que são muito comuns entre as pessoas. Uma análise curiosa seria avaliar se o excesso de bom humor e brincadeiras de Ben era uma esquiva dos problemas enfrentados por ele na relação ou até mesmo uma esquiva do excesso de punição gerado por Katie, uma forma de ele não entrar em contato com todas as exigências e cobranças feitas por ela.

Em uma das brigas representadas no filme, eles falam muito sobre os papéis que couberam a cada um. Katie era a controladora e Ben o controlado. Ela se tornava chata, tensa, exigente e, quanto mais controle ela imprimia, mais ele se tornava desligado e pouco comprometido. Esses julgamentos e descrições eram feitos pelos personagens e uma relação clara de controle e contra-controle era o que prevalecia no casamento. Mas, no decorrer do filme e na construção da história, é possível fazer uma análise funcional simplista, justamente pela escassez de dados, e pode-se perceber como um reforçava a inadequação do outro e favorecia esse modelo de interação.

Entender quão funcionais esses arranjos são na relação e as consequências com as quais o casal entra em contato por ser como é tem muito valor para a terapia. Em casos em que queixas como essas são colocadas, uma intervenção analítico-comportamental e o uso de recursos como filmes, textos, músicas, poemas, etc. têm grandes chances de melhorar o repertório afetivo do casal, tendo em vista o autoconhecimento adquirido nas sessões através dessas alternativas. Ajudar os pares a entenderem suas características pode melhorar significativamente a qualidade de vida conjugal.

De modo geral, sabe-se que o objetivo da terapia é aumentar o contato com as contingências reforçadoras e minimizar o sofrimento do indivíduo (Vermes e cols., 2007). Os recursos terapêuticos podem ajudar e auxiliar justamente em aumentar a sensibilidade às contingências em vigor e na descriminação de regras que sustentam boa parte das inadequações dispostas no relacionamento. Assim, finalizo ressaltando minha sugestão para que todos os interessados em atender casais assistam a esse filme e avaliem todas as possibilidades que ele pode ocasionar nas sessões. Tenho certeza que será de grande valia aos terapeutas neófitos nessa modalidade de atendimento.

Referências Bibliográficas

Ferster, B. C. (1979). Princípios do comportamento. São Paulo: Hucitec, 2ed.

Otero, V. R. L. & Ingberman, Y. K. (2004). Terapia Comportamental de casais: Da teoria a prática. (Org.), Sobre o Comportamento e Cognição: Vol. 13. Contingências e metacontingências: Contextos socioverbais e comportamento do terapeuta (pp. 363-373). Santo André: ESETec.

Sidman, M. (1995). Coerção e suas implicações. Campinas: Editorial Psy.

Skinner, B. F. (1953). Ciência e Comportamento Humano (J. C. Todorov, & R.

Azzi, Trads.). São Paulo: Martins Fontes.

Skinner, B. F. (1978). O comportamento verbal. São Paulo, Cultrix.

Whaley, D. L. & Malott, R. W. (1980). Princípios elementares do comportamento. São Paulo: EPU.

 

 

 

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Denise Lettieri
Denise Lettieri, graduada em Administração de Empresas e em Psicologia. Especialista em Análise Comportamental Clínica e Mestranda em Psicologia. Realiza atendimento psicológico de adultos, casais e família, supervisiona atendimentos de outros profissionais e coordena programas de psicoterapia de grupo Ministra palestras em congressos e eventos do campo da psicologia, além de facilitar vivências e workshops em diversas instituições. É diretora e responsável técnica da Atitude Clínica Psicológica com sede em Brasília e diretora e gestora da Atitude Cursos que promove eventos na área de Análise do Comportamento com plataforma online para todo o Brasil. Atua como docente do Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento, um curso de especialização em Análise do Comportamento Aplicada à Clínica, onde leciona a disciplina de terapia de casal e a disciplina terapia de grupo. É colunista do Portal Comporte-se. É filiada à ABPMC (Associação Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comportamental). Áreas de atuação: Análise Comportamental Clínica; Docência; Supervisão Clínica.
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