O Contextualismo Funcional na sua vida

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    Acredito que algumas pessoas que conhecem o Comportamentalismo como linha teórica devem associá-lo a fundamentações epistemológicas como o Positivismo, de Comte, e o Funcionalismo, de Dewey. Alguns podem até ter uma visão muito mecânica e reducionista dessa linha. Eu mesmo, quando na minha formação em psicologia, tinha essa visão até conhecer a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT, do inglês Acceptance and Commitment Therapy).

    Resumidamente, a ACT é uma terapia inicialmente desenvolvida por Steven Hayes. Ela se baseia na teoria de que todos nós teremos crises, dores, sofrimento e que, por mais estranho que possa parecer, o melhor a fazer não é evita-los (como muitos de nós aprendemos a fazer) e sim conviver com eles. Isso requer uma disposição e um comprometimento da pessoa no direcionamento de seus valores, o que acaba por levar a uma mudança no estilo de vida (daí vem a “Aceitação” e o “Compromisso”)1 (Hofmann, Sawyer & Fang, 2010). Há uma variedade de intervenções utilizadas que direcionam o paciente a essa aceitação e comprometimento, incluindo o Mindfulness, que se utiliza muitas vezes de recursos da cultura oriental para a regulação emocional (Kristeller, 2006).

    Lendo o parágrafo acima, nada parece indicar que a ACT tenha algo a ver com Terapia Comportamental. Ledo engano. Toda a questão apresentada acima tem sustentação nas teorias do condicionamento operante de Skinner (ou seja, é bem comportamental), mas com uma forma de utilização diferente, focada no contexto. Para entender melhor isso vamos falar do fundo epistemológico da ACT – e esse é o objetivo desse texto.

    Você já ouviu falar em contextualismo funcional? Ele é a base epsitemológica da ACT2. Esta visão epistemológica foi desenvolvida por Steven Pepper, em 1942, e sustenta boa parte das terapias de terceira geração. Alguns conceitos básicos devem ser apresentados antes de se abordar o contextualismo funcional. Alguns deles são o de “teoria” e “precisão”. Teoria são declarações que são relativamente precisas e têm relativo amplo alcance. Já precisão refere-se ao quanto um fenômeno pode ser explicado com um dado conjunto de conceitos analíticos (quanto menos conceitos, melhor) e ao alcance da faixa de fenômenos que pode ser explicada com esses conceitos (quanto maior ao alcance, melhor)3.

    Visto isso, é possível partir para a visão filosófica proposta por Pepper. Esse autor compreende que seja possível mostrar o conhecimento (e o conhecido) na forma de visões diferentes de mundo e, a partir dessas visões, construir o conhecimento ou entender o mundo (incluindo nós, é claro). É uma forma de conhecimento diferente da filosofia tradicional, não tão formalmente sistematizada epistemológica e ontologicamente – como o Positivismo, por exemplo. As visões de mundo respeitam as diversidades de estudo de cada objeto, como se fossem lentes de cores diferentes de um óculos que leva a ver esse objeto de acordo com a cor da lente. São teorias mais amplas e informalmente organizadas, mas que podem ser avaliadas pelo grau de alcance e precisão, tal como referido no conceito de teoria no parágrafo anterior. Essas visões filosóficas de mundo são organizadas e apresentadas através de uma metáfora-raiz e um critério de verdade.

    Para poder explicar as complexidades do mundo, Pepper utiliza as metáforas-raízes Elas seriam algo bem conhecido e análogo ao que se quer explicar. Sua utilização está a serviço da ontologia, ou seja, de apresentar o ponto de vista do ser ou da existência. Porém, é necessário avaliar, a partir de um critério, se esse ponto de vista ontológico é verdadeiro e válido. É aí que entra o critério de verdade como ponto de vista sobre a natureza do conhecimento e da verdade (ou seja, epistemologia). E por isso, visão de mundo e critério de verdade são inseparáveis, pois uma valida a outra. Pepper apresenta quatro visões de mundo: formismo, mecanicismo, organicismo e contextualismo.4

    O formismo tem como metáfora-raiz a similaridade e o critério de verdade é a correspondência. Aqueles que veem o mundo dessa forma, compreendem o mundo discriminando semelhanças e diferenças, não relacionando-as. O mecanicismo trabalha com a metáfora-raiz de um mecanismo de máquina e seu critério de verdade é a verificação da previsão (aquilo que previ, aconteceu?). Aqui o mundo é visto pela identificação de causas e efeitos e pela explicação de como as coisas funcionam (a ampla maioria das Psicoterapias Cognitivo-Comportamentais seguiriam essa visão de mundo).

    A terceira visão é a do organicismo, que tem como metáfora o desenvolvimento orgânico e o critério de verdade a coerência entre todo e parte. Aqui, diferente da ideia mecanicista, não é possível prever apenas somando causas ou partes. Ao se avaliar o sistema, todo o resultado será diferente. Observa-se eventos como sistemas orgânicos integrados que estão vivendo, crescendo e mudando, e a verdade é realizada quando os sistemas de crença tornam-se mais abrangentes e integradores, levando para uma compreensão completa absoluta.

    Por fim, há o contextualismo, que centra o conhecimento nos atos (respostas ou comportamentos) sendo realizados por alguém, com alguma intenção, em algum contexto. Sua metáfora-raiz é o ato que está acontecendo agora (como ver o facebook, falar com amigo, brigar com uma pessoa), nesse contexto (como no celular, próximo ao amigo, na praça em frente a escola). Tem por base o pragmatismo filosófico. O “Sim, mas…”é uma expressão muito utilizada para a análise das ações, pois valida e auxilia na discriminação5. Para os contextualistas, o mundo deve ser olhado na complexidade dos seus contextos e na adaptação permanente às contingências (já antecipando, os comportamentalistas contextuais entendem que o comportamento executado teve uma função, independente da forma como o comportamento em si foi executado). O trabalho bem feito ou a ação efetiva. Fox (2015) apresenta que “o significado de uma ideia é definida por suas consequências práticas e sua verdade pelo grau em que essas consequências refletem uma ação bem-sucedida”. O foco é na função e utilidade da verdade, e não na forma em que a verdade foi dita.

    No contextualismo há duas variações: o contextualismo descritivo e o contextualismo funcional. No contextualismo descritivo há a busca da construção do conhecimento de forma específica, pessoal, espaço-temporalmente restrita, como uma narrativa histórica. Já o contextualismo funcional visa o desenvolvimento de um princípio científico. Respeitando os preceitos da matriz e do critério de verdade do contextualismo, os que veem o mundo dessa forma focam em estudar a previsão e influência de eventos com precisão, alcance e profundidade utilizando conceitos e regras com base empírica; buscam a construção do conhecimento que é generalista, abstrata, e espaço-temporalmente irrestrita6. Dessa forma, buscar-se-ia uma ciência natural pragmática. E essa busca já era vista nos próprios escritos de Skinner, em seus últimos estudos.

    Do contextualismo funcional vem, então, o desenvolvimento de uma ciência comportamental-contextual. A ideia dessa ciência é a criação de uma ciência natural pragmática que visa o desenvolvimento de um sistema organizado de conceitos e regras verbais com base empírica que permitam prever e influenciar fenômenos comportamentais com precisão, alcance e profundidade7.

    E é ai, numa ciência comportamental-contextual, que a ACT se encontra. Essa terapia entende que as psicopatologias de uma forma em geral são mantidas devido aos esforços em ignorar as experiências/vivencias internas do indivíduo, incluindo pensamentos. Essa esquiva experiencial é reforçada negativamente (conceito do condicionamento operante de Skinner). E é por isso que utilizar essa estratégia torna-a cada vez mais prevista. Porém, a ACT preconiza, assim como o próprio Skinner fundamentava, que a única consequência que não se torna um controle aversivo é o reforço positivo. Sendo assim, a ACT trabalha no intuito de estimular a pessoa a focar em estratégias e comportamentos que a direcione aos seus valores (utilizando-os como critério de verdade), respeitando e analisando o contexto em que o comportamento foi realizado, dentro da visão do contextualismo funcional.

    Sob o ponto de vista do contextualismo funcional, não há comportamento certo ou errado. E sim comportamentos que cumprem (ou não) com sua função específica. O que você está fazendo, nesse momento e nesse contexto em que está (ambiental, relacional ou verbal) é um trabalho bem feito? Ou seja, o seu comportamento cumpre (ou cumpriu) com o que ele deveria cumprir? Ótimo! Boa observação. Isso é uma visão contextual funcional. Não há nada de errado em optar pela esquiva da experiência emocional desagradável, por exemplo, se a esquiva cumpre com sua função. Mas, observe bem… ao longo da sua história de vida, a esquiva experiencial realmente é um trabalho bem feito? Realmente você não sofre novamente desde quando começou a utilizá-la? Se ainda sofre, isso é um trabalho bem feito, então? Observe isso na sua vida e discrimine. Bem-vindo(a)! Isso é ACT.

Notas:

1 – Conheça mais sobre em Hofmann, S. G., Sawyer, A. T., & Fang, A. (2010). The empirical status of the “new wave” of CBT. Psychiatric Clinics of North America, 33(3),701-710.

2 – Para saber mais, leia Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (2012). Acceptance and Commitment Therapy (2 ed.). New York: Guilford.

3 – Leia mais em Fox, E. (2015). Contextualistic Perspectives. Acessado em maio de 2015 em http://ericfox.com/sites/ericfox.com/files/publications/ContextualismChapter.pdf

4 – igual a nota acima.

5 – Leia mais em Vargas-Mendonza, J. E. (2006). Pragmatismo, contextualismo y epistemología: apuntes para un seminario. México: Asociación Oaxaqueña de Psicología.

6 – Veja mais em Fox, E. (2015). Contextualistic Perspectives. Acessado em maio de 2015 em http://ericfox.com/sites/ericfox.com/files/publications/ContextualismChapter.pdf

7 – Hayes aprofunda mais essa questão em Hayes, S., Barnes-Holmes, D, & Wilson, K. (2012). Contextual Behavioral Science: Creating a science more adequate to the challenge of the human condition. Journal of Contextual Behavioral Science 1, p. 1–16.

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