Imposição de valores entre comunidades

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Não existe apenas uma maneira de conceituar valores, para fins deste texto, podemos entender valores como a descrição do que é aceito para aquela pessoa ou grupo. Por exemplo, quando falamos em valores cristãos ou valores tradicionais, estamos falando de um conjunto de comportamentos que são permitidos e incentivados (reforçados), e de outro conjunto de comportamentos que é proibido (punido).

Entretanto, ao longo da nossa vida não somos apresentados a um único conjunto de valores. Mesmo havendo semelhanças em uma escala macro (valores das culturas ocidentais), em uma escala micro nos temos muitas diferenças, i.e., os valores da nossa família, da nossa escola, da nossa região, do nível de urbanização da nossa cidade, de algum grupo minoritário do qual podemos fazer parte, etc. Sendo assim, é bem provável que em algum momento da vida boa parte das pessoas faça algo que vai de encontro aos valores da comunidade, mas que não ferem os seus valores (é claro que isso é feito as escondidas, afinal são coisas passiveis de punição dos outros membros da sociedade)[i].

Casos em que pessoas chegam ao consultório por que seus valores entram em conflito com o contexto em que estão inseridos não são raros, e.g., jovens homoafetivos dentro de certos ambientes familiares; empresas que colocam seus funcionários em jornadas competitivas de trabalho; entre outros exemplos. Mas será que existem casos em que os valores podem gerar problemas, mesmo quando há uma sincronia entre os valores do grupo e os do indivíduo?

Um primeiro ponto – que eu já discuti em outros textos, por isso não vou me alongar neste – é que não cabe ao psicólogo impor os seus valores. Ele tem que ter o cuidado de clarificar as relações que existem entre o seu paciente e o contexto, mostrando o que seus comportamentos produzem e o impacto deles nas pessoas à sua volta, porém não existem valores certos e errados. O maniqueísmo só dificulta mais o trabalho na seara dos valores.[ii]

Mas existe outro ponto importante: valores são construídos. Valores podem emergir dentro de uma cultura a partir do estabelecimento de novas relações entre seus membros. No final do período feudal, quando a burguesia conseguiu poder financeiro e politico capaz de rivalizar com a nobreza, novos valores passaram a surgir na sociedade, sintonizados com os novos tempos. Um exemplo disso é o luteranismo, que agrega os valores burgueses à igreja medieval.

Além disso, valores também podem ser impostos de um grupo para outro grupo. Na história essa imposição é bem clara, como quando espanhóis e portugueses usavam das campanhas dos jesuítas para doutrinar os ameríndios. Com o passar dos séculos e a sofisticação das relações na sociedade esta imposição se tornou mais sofisticada e mais difícil de perceber. A aculturação por meio da imposição dos valores europeus foi uma ferramenta de colonização que ajudou no controle dos povos do continente americano.

A questão da imposição de valores toma outra proporção na nossa sociedade atual, quando cada vez mais a globalização aumenta a interdependência socioeconômica das várias comunidades/cidades/países/etc do mundo. Agora, além de impor seus valores por meio de guerras, existe o controle econômico.[iii] Irei analisar brevemente uma maneira de imposição de valores presente dentro de contextos urbanos em vários níveis de desenvolvimento.

Relações econômicas, entre centros urbanos já desenvolvidos e centros urbanos em desenvolvimento, são fundamentais para o crescimento de ambos. São as relações econômicas que eles estabelecem que permitem o acesso aos recursos necessários para o desenvolvimento. Alguns autores tratam desse fenômeno sob a ótica da relação ambivalente centro-periferia. Deve-se entender ambas as categorias como categorias funcionais, na qual o centro é aquela já urbanizada e que ira dinamizar o desenvolvimento da periferia, enquanto que a periferia é aquela que irá assumir demandas do centro para conseguir manter as relações com o mesmo.[iv]

O que costuma acontecer é que o centro não passa a ditar apenas o que deve ser produzido pela periferia, e sim, a forma, o tempo de produção, as técnicas a serem empregadas. Chega-se ao ponto dos valores de um passarem ao outro. Já não na forma de uma imposição armada ou de uma santa inquisição, apenas com a sutileza do reforçamento diferencial. Esse tipo de imposição de valores ocorre em diversos níveis: vemos uma aculturação do funk da periferia que tem que mudar suas letras, por que certo tipo de linguagem não é aceito pelo grupo que está no poder; pode se notar a difusão de padrões de beleza de certas regiões do país, para outras regiões nas quais aquele padrão não tem qualquer semelhança com as pessoas da região.

O grande problema é que essa imposição se dá pelo mecanismo do reforçamento positivos, e uma das características mais marcantes desse processo é que ele não permite o contracontrole[v]. Ou seja, dificilmente uma pessoa que assuma os valores do grupo dominante – mesmo que isso se choque com o seu ambiente cotidiano – e seja reforçado socialmente por isso, irá trazer isso como queixa para o consultório do terapeuta.

Mas será que isso chega a ser um problema? Afinal o indivíduo está sendo reforçado pelo grupo… Sim, um indivíduo pode viver uma vida inteira sem ter problemas com relação a isso. Entretanto, manter estas relações comportamentais é perpetuar essa soberania entre culturas. Além de manter indivíduos mais sobre o controle de regras construídas em contextos (muita das vezes) bem diferentes dos seus, do que de contingências derivadas do seu próprio ambiente.

É claro que o intercambio entre culturas traz oportunidades para ambas: seja em tecnologias, no comércio, ou mesmo na discussão sobre seus próprios valores. O problema reside em como se dará esta troca: se por meio de culturas que tiveram a oportunidade de construir seus próprios valores; ou entre culturas que não tiveram as mesmas oportunidades.

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[i] Skinner (1953/1981). Ciência e comportamento humano. São Paulo: Martins Fontes.

[ii] Kanter, J. W. Et al (Orgs). The practice of functional analytic psychotherapy. (pp. 97-122). Seatle: Springer.

[iii] Becker, B. K. (1974) A Amazônia na estrutura espacial do Brasil. Revista brasileira de geografia, 36(2), pp. 3-36.

Friedmann, J. R. P. (1960) Introdução ao planejamento regional. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas

[iv] Idem ao anterior

[v] Perone, M. Negatives effects of positive reinforcement. The Behavior Analyst. Vol. 26, n. 1, p. 1-14, 2003.

 

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