Ela não está tão afim de você! A percepção de interesse sexual de homens e mulheres

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Um grande número de pesquisas tem demonstrado que os homens interpretam os indicadores de potencial interesse sexual das mulheres de maneira equivocada do que elas tinham intenção de transmitir. Esse fenômeno é chamado de alarme falso, quando uma pessoa confunde comportamentos de ser agradável ou amigável por interesse sexual. O seu inverso é a perda (miss) que é não perceber interesse sexual quando este é presente.  Esses dois erros de percepção levam a falhas para detectar parceiros potencialmente interessados, ou ainda, fazer com que uma pessoa continue a buscar um parceiro que já sinalizou não ter interesse.

Uma dificuldade dessas pesquisas é interpretar as diferenças observadas entre os sexos e investigar a fonte etiológica dessas diferenças. Isso porque, é importante destacar que o fato dos homens perceberem mais sinais de interesse não significa que eles estejam errados, outros fatores talvez façam com que as mulheres não apontem os mesmos dados, como vergonha de social de se mostrar interessada. Duas explicações têm sido utilizadas para explicar as diferenças entre homens e mulheres:

  1. Sensibilidade: os homens não percebem as diferenças entre dicas sutis de interesse e desinteresse por parte das mulheres, ou seja, não há uma discriminação refinada dos estímulos;
  2. Viés: homens precisam de menos dicas de interesse para nomear um comportamento como de interesse, ou seja, em termos comportamentais é mais eficiente insistir com parceiras não interessadas do que correr o risco de ter uma perda (miss).

Para verificar se esse padrão de comportamentos masculinos ocorre em diferentes idades e culturas Bendixen (2014) testou a percepção sexual de homens da Noruega, um dos países mais igualitários do mundo. As mulheres norueguesas relataram maior número de percepções equivocadas por parte dos homens, ou seja, mais homens confundiram comportamentos amigáveis por interesse sexual. Dessa maneira, uma cultura igualitária não apresentou dados mais parecidos sobre percepção sexual entre os sexos, indicando uma estabilidade independente dos aspectos culturais em que as pessoas estão inseridas.

Perilloux e Kurban (2014) buscaram compreender outro fato interessante sobre esse tema: como uma mulher avalia o interesse de outra? As participantes avaliaram quanto interesse sexual uma mulher apresentava e essa informação era verificada em comparação com o que a própria mulher havia dito sobre si. Os pesquisadores encontraram que ao avaliar o interesse sexual de outra mulher era apontado um valor maior do que o afirmado pelas primeiras participantes. De forma que, os autores afirmam que é possível que as mulheres subreportem suas intenções sexuais enquanto os homens acertam, além disso, que as mulheres sabem que outras mulheres subrelatam suas intenções sexuais, mas não quanto e em quais situações o interesse é de fato subreportado e quando ele é legítimo.

O fato das mulheres indicarem que os homens superestimam seu interesse sexual pode ser benéfico por diminuir contatos sexuais não desejados, encorajar os homens a mostrar outras habilidades e evitar uma reputação social indesejada. Para a maioria dos indivíduos, um erro sobre interesse sexual não extrapola uma situação momentânea de embaraço social. Contudo, para um grupo, aumenta a probabilidade de comportamentos sociais problemáticos como a coerção sexual. A ocorrência de um alarme falso pode ser um facilitador para homens que praticam violência sexual utilizarem um suposto interesse como justificativa para a violência. Por essa razão, o estudo da percepção sexual é importante. Somente conhecendo-se quais seriam os sinais de interesse sexual é possível o planejamento adequado de programas de prevenção para adolescentes e adultos em relação à violência sexual. Essa lacuna do conhecimento merece a atenção e deve ser explorada de maneira mais ampla pelas oportunidades de aplicação prática que possui.

 

Para saber mais:

Bendixen, M. (2014). Evidence of systematic bias in sexual over – and underperception of naturally occurring events: a direct replication of Haselton (2003) in a more gender-equal culture. Evolutionary Psychology, 12(5), 1004-1021.

Perilloux, C., & Kurzban, R. (2014). Do Men Overperceive Women’s Sexual Interest?. Psychological Science, 26(1), 70-77. doi:10.1177/0956797614555727

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4 COMENTÁRIOS

  1. O fenómeno dos falsos alarmes e miss é bem conhecido e clássico e seriam desnecessários estudos. O facto é que a mulher não tem capacidade de manifestar o interesse pelo homem. Fá-lo, mas de uma forma tão subtil que é impercetível à maioria dos homens, pois é impossível de distinguir de uma simples manifestação de amizade ou mesmo de respeito. Um simples “desculpe, mas está na fila?” pode servir qualquer um dos propósitos, então como pode ter um homem capacidade de distinguir? Faz parte da psicologia feminina. O artigo limita-se a explorar a versão masculina do problema, mas seria bastante interessante explorar também a versão feminina, pois as mulheres sentem uma enorme frustração com os falsos alarmes e com os miss que propiciam e não têm qualquer capacidade de evitar, mas não por culpa dos homens.

  2. Já passei por vários alarmes falsos rsrsrsrs me parece que é aprendido do homem o comportamento de “caçar a presa” a milênios,mas como hoje não se é tão fácil conquistar a mulher,muitos homens se sentem frustrados.

  3. Concordo. A melhora na comunicação exige não apenas a melhora no treino discriminativo do ouvinte, mas também na melhora da topografia do emitente. Neste sentido a melhora deve ser de ambos (não estou falando aqui do(a) machista imbecil, mas de pessoas normais).
    Deveria haver outro estudo: o de uma mulher avaliando o interesse sexual de outra mulher quando esta é amigável com seu namorado. Aí veríamos se o problema é gênero, falta de sinais da mulher ou excesso de confiança do homem.
    Atuo na área clínica e percebo que tanto mulheres quando homens se complicam nesta questão.
    Existe também outro viés: É reforçador para o homem ou a mulher manifestar sinais de interesse quando não há interesse real, ver alguém se encantando em isso, mas no final apenas queríamos um admirador e não alguém para contato físico de afeto. Isso confunde tudo… A questão é bem mais complexa do que o estudo aponta. Estatísticas não são eficazes para identificar causas de comportamento pois sua análise é topográfica. Devemos ter um olhar funcional (contextual, relacional, contingencial, etc).

  4. A melhora na comunicação exige não apenas a melhora no treino discriminativo do ouvinte, mas também na melhora da topografia do emitente. Neste sentido a melhora deve ser de ambos (não estou falando aqui do(a) machista imbecil, mas de pessoas normais).
    Deveria haver outro estudo: o de uma mulher avaliando o interesse sexual de outra mulher quando esta é amigável com seu namorado. Aí veríamos se o problema é gênero, falta de sinais da mulher ou excesso de confiança do homem.
    Atuo na área clínica e percebo que tanto mulheres quando homens se complicam nesta questão.
    Existe também outro viés: É reforçador para o homem ou a mulher manifestar sinais de interesse quando não há interesse real, ver alguém se encantando em isso, mas no final apenas queríamos um admirador e não alguém para contato físico de afeto. Isso confunde tudo… A questão é bem mais complexa do que o estudo aponta. Estatísticas não são eficazes para identificar causas de comportamento pois sua análise é topográfica. Devemos ter um olhar funcional (contextual, relacional, contingencial, etc).

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