Entrevista com Denis Roberto Zamignani: Sistema Multidimensional de Comportamentos na Interação Terapêutica

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Em 29 de maio de 2015 o Analista do Comportamento Denis Roberto Zamignani fará o lançamento dos livros “A Pesquisa de Processo em Psicoterapia: Vol I – Desenvolvimento do SIMCCIT/ Sistema Multidimensional para a Categorização de Comportamentos na Interação Terapêutica” e “A Pesquisa de Processo em Psicoterapia: Vol II – Estudos à Partir do SIMCCIT”, no III Congresso Brasileiro de Terapia por Contingências de Reforçamento e Encontro de Terapeutas Comportamentais. As duas obras são derivadas de sua tese de doutorado, desenvolvida sob orientação da Prof. Dra. Sônia Beatriz Meyer, na Universidade de São Paulo (USP). Dada a relevância do tema, o Comporte-se convidou Denis Zamignani para falar sobre os livros que serão lançados em uma entrevista exclusiva, que você confere logo abaixo.

1)     Como surgiu seu interesse pelo desenvolvimento de um sistema multidimensional para categorização de comportamentos na interação terapêutica?

Olá Esequias, equipe e todos os leitores do Comporte-se.

Desde a minha graduação, sob a orientação do Prof. Roberto Banaco, faço pesquisa sobre o processo clínico. Minha primeira pesquisa foi sobre o processo de tomada de decisão do terapeuta durante a sessão. Filmávamos a sessão terapêutica e depois entrevistávamos o terapeuta sobre seus pensamentos e emoções em momentos-chave de sua intervenção. Essa foi a primeira vez que foi necessário o desenvolvimento de categorias de comportamento. Alguns anos depois, já no desenvolvimento de meu mestrado, sob a orientação da Profa. Maria Amalia, novamente fui estudar a sessão terapêutica, dessa vez analisando a interação terapêutica no atendimento de clientes com o diagnóstico de Transtorno Obsessivo-Compulsivo. Foi a primeira vez que começou a me chamar atenção o fato de que cada pesquisador que se aventurava a estudar a interação terapêutica “começava do zero” sua pesquisa, criando novas categorias a partir dos dados observados. Naquela época eu já discutia em nosso grupo de pesquisa que devíamos desenvolver categorias compatíveis entre si, pois isso favoreceria que nossos dados fossem comparáveis. Na ocasião isso não foi possível. No doutorado então, propus para a Sonia Meyer, minha orientadora, o desenvolvimento de um sistema de categorias. Mas eu achava importante que esse sistema não envolvesse apenas comportamento verbal vocal, mas as diferentes dimensões da interação terapêutica. Cinco anos depois nasceu o SiMCCIT – Sistema Multidimensional para a Categorização de Comportamentos na Interação Terapêutica.   

2)     No Volume I do livro você irá falar sobre as categorias de comportamento verbal às quais chegou através de sua pesquisa de doutorado. Quais são estas categorias?

O SiMCCIT é composto por três Eixos de categorização de comportamentos do terapeuta e do cliente na sessão, cada um dos quais representa uma dimensão ou aspecto do comportamento dos participantes: Eixo I: Comportamento verbal; Eixo II: Temas e Eixo III: Respostas motoras. Os dois primeiros eixos são compostos também por Qualificadores, que especificam algumas propriedades do comportamento categorizado. O Eixo de categorização referente ao Comportamento verbal tem como qualificadores o Tom emocional e a presença ou ausência de Gestos ilustrativos. O eixo Tema tem como qualificadores o Enfoque no tempo e a Condução do tema pelos participantes.

3)     No Volume II do livro você apresenta estudos desenvolvidos a partir do SIMCCIT. Poderia dar uma prévia dos resultados obtidos?

O Volume II é um trabalho que me traz especial satisfação, pois mostra que o trabalho desenvolvido gerou frutos e o SiMCCIT continua sendo uma ferramenta útil para o desenvolvimento de vários estudos em terapia analítico-comportamental. Os capítulos que compõem o livro foram desenvolvidos por pesquisadores de diferentes grupos  de pesquisa do país (USP-SP, PUC-SP, Núcleo Paradigma, UNESP-Bauru) e tratam de adaptações do SiMCCIT a diferentes modalidades de intervenção, tais como  terapia infantil, de grupo e de casal, além do estudo de temas e queixas diversas, como o uso de orientações e intervenções reflexivas na terapia, a terapia com clientes difíceis e clientes borderline, jovens em conflito com a lei, mães de adolescentes com problema de comportamento, terapia infantil e de adultos.

4)     De que forma os dados apresentados nos livros podem contribuir com a prática clínica do terapeuta analítico-comportamental?

Os estudos apresentados no livro, além de contribuírem para o desenvolvimento da pesquisa em terapia analítico-comportamental, trazem alguns achados bastante importantes sobre cada uma das questões estudadas. A grande contribuição de estudos desse tipo é a identificação de padrões da interação terapêutica que podem contribuir para a descrição de processos de mudança, favorecendo o ensino da terapia analítico-comportamental e também auxiliando no aprimoramento da prática clínica. 

5)     Existem outros estudos sendo desenvolvidos sobre o tema no Brasil? Se sim, quais?

Sim. Em Florianópolis, Luciana Moskorz desenvolveu seu doutorado com a orientação de Olga Kubo,  um estudo muito interessante e importante  (clique aqui), no qual ela derivou classes de comportamento a partir de algumas categorias do SiMCCIT. É incrível a quantidade de classes que compõem uma única categoria de comportamento! O trabalho de Luciana tem um valor heurístico fantástico e merece ser mais explorado, pois contribui muito para o desenvolvimento de treino de terapeutas. Uma pena que quando ela defendeu sua tese o livro já estava bem avançado e não havia mais tempo para solicitar um texto dela. Quem sabe não haverá um próximo? O grupo da Sonia Meyer, na USP e outros grupos de pesquisa que publicaram no livro continuam utilizando o SiMCCIT em suas pesquisas. Também na Universidade São Judas e no Mackenzie sei que há alguns trabalhos desenvolvidos e em desenvolvimento. E acredito que, com o lançamento do livro virão ainda mais estudos. 

6)     Quais foram suas principais dificuldades no desenvolvimento da pesquisa de doutorado que deu origem ao livro e na elaboração do livro?

Principalmente a enorme massa de dados e a complexidade dos estudos que envolvem comportamento não-verbal e comportamento verbal não-vocal. Eu precisava desenvolver um sistema de categorização que fosse de fácil aplicação e que não exigisse grandes aparatos tecnológicos e a literatura dessa área trazia métodos interessantíssimos de estudo de comportamento não vocal, mas que envolviam enorme complexidade. Optei por simplificar bastante as categorias para não inviabilizar a continuidade da pesquisa por outros pesquisadores.

7)     Em sua opinião, quais foram as principais contribuições deste trabalho para seu desenvolvimento profissional e pessoal?

Aprendi demais, em especial sobre metodologia de pesquisa aplicada e sobre o que faz o terapeuta comportamental. Durante a qualificação, alguns membros da banca me chamaram a atenção para o fato de que eu não tinha apenas um sistema para a pesquisa, mas um material rico para o ensino de terapeutas. Só então fui atentar para isso, e vi que cada categoria descrita no SiMCCIT representava um comportamento que deveria ser desenvolvido pelo terapeuta ou ser observado no comportamento do cliente. Isso me levou a descobrir toda uma linha de estudo chamada de “helping skills” (que traduzi livremente como “habilidades terapêuticas”), voltada para o desenvolvimento desses comportamentos ou habilidades. Isso deu origem ao capítulo do Volume I “Um exercício de descrição do processo terapêutico analítico-comportamental a partir das categorias de comportamento do SiMCCIT”, no qual eu faço uma descrição geral do processo terapêutico, aplicando as categorias do SiMCCIT em cada uma das etapas do processo. Enfim, aprendi como terapeuta, como pesquisador e também como professor e supervisor de novos terapeutas. Espero que o livro contribua para a formação e o aprimoramento daqueles interessados na prática terapêutica.

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