Tudo é uma questão de controle: Apostando na Experimentação

Esse é o primeiro de uma série de artigos nos quais iremos propor uma discussão acerca da Experimentação como método de pesquisa, especificamente, em Análise do Comportamento. Mas por que você deveria se interessar por esse assunto? Christensen, Johnson e Turner (2011) listam algumas boas razões:

  • aprender a conduzir uma pesquisa psicológica;
  • ter base para compreender e participar com bom aproveitamento de disciplinas como Análise Experimental do Comportamento, Psicologia Social, Psicologia do Desenvolvimento, entre outras.
  • ser um consumidor mais informado e crítico da informação;
  • desenvolver seu pensamento crítico e analítico;
  • obter as informações necessárias para ler criticamente artigos científicos;
  • possuir requisito necessário para a admissão em grande parte dos programas de pós-graduação em psicologia no Brasil e no mundo

E a lista não precisa parar por aí. Esperamos que, tanto pesquisadores como profissionais das diversas áreas da psicologia analítico-comportamental possam se beneficiar com as discussões trazidas nessa coluna, uma vez que a prática do analista do comportamento se ampara na filosofia do behaviorismo radical e em um corpo de conhecimentos cientificamente produzidos a partir de pesquisas básica e aplicada em Análise Experimental do Comportamento (Tourinho, 1999). Lattal (2005) enfatiza, ainda, que o conhecimento científico produzido a partir do estudo de relações comportamentais irá fornecer subsídios para a produção de tecnologias que, por sua vez, poderão contribuir para a elaboração de novas pesquisas. O autor ainda aponta que um dos objetivos da Análise do Comportamento, enquanto ciência, é “desenvolver princípios comportamentais gerais que podem ser aplicados igualmente a humanos e a não humanos” (p. 16). Posto isso, podemos inferir que o rigor metodológico favorece a realização de um trabalho mais sistemático, eficaz e uma análise mais clara dos seus resultados. Conhecendo as possíveis vantagens que o método experimental pode lhe proporcionar, precisamos discutir como esse método pode favorecer o estudo do comportamento, que é a proposta da Análise do Comportamento.

sRc (2)Baseada nos pressupostos do Behaviorismo Radical, a Análise do Comportamento é uma ciência que se propõe estudar o comportamento, entendendo-o como produto das interações do organismo com o ambiente no qual está inserido. Assim, explicações baseadas em traços, constructos hipotéticos, mentais ou metafísicos são consideradas equivocadas. A autoestima, a vontade, o desejo ou mesmo intenções, não são entendidas como causas do comportamento, mas sim como parte do próprio comportamento. Uma criança não faz birra porque é dengosa, bate no colega porque é agressiva ou uma pessoa chora porque está triste. A explicação para a pergunta “por que o homem se comporta da maneira como ele se comporta?” está nas relações que o indivíduo estabelece com seu ambiente físico e social.

Entretanto, como afirmou Skinner (1953/2003), falar de uma ciência do comportamento e pensar em sua aplicação não é uma tarefa fácil. Muito além de descrições topográficas de fenômenos, a proposta skinneriana de ciência busca uma ordem, leis gerais que possam favorecer a compreensão desse objeto de estudo tão complexo: o comportamento humano. Isso implica em analisá-lo sob uma ótica funcional, determinista, ou seja, demonstrando que os eventos comportamentais estão ordenadamente relacionados com eventos ambientais.

Para fazer tal afirmação, antes nos perguntamos: Qual a melhor forma de buscar tais regularidades e torná-las explícitas? Como podemos, efetivamente, responder a pergunta sobre porque o homem se comporta da maneira que se comporta? Como iremos identificar de maneira fidedigna quais condições exercem algum tipo de influência sobre a forma como o homem faz o que faz? Skinner (1953/2003) defende que se quisermos nos aprofundar na compreensão do comportamento humano, devemos melhorar o rigor metodológico utilizado na identificação de suas variáveis de controle.

É interessante entender que, para além da genética com a qual cada um de nós nasce, o ambiente que cada um experimenta ao longo de suas vidas possui grande influência sobre nossos comportamentos (Johnston & Pennypacker, 1993). Esse ambiente é composto por uma variedade de fatores, o que torna nossos comportamentos complexos e multideterminados. Um exemplo simples disso é quando um adolescente tem seu comportamento de estudar reforçado positivamente pelo elogio da professora por seu desempenho e negativamente por se esquivar da bronca de sua mãe quando sai mal na escola. Nessa situação, o comportamento do jovem está sendo influenciado por duas variáveis. Em casos reais, para cada comportamento podemos ter muito mais que dois fatores influenciando-o. Pense em um comportamento do seu dia a dia e reflita sobre os fatores ambientais (históricos ou atuais, internos ou externos, físicos ou sociais) que possam ter apresentado algum efeito sobre ele. Conseguiu perceber quão complexo é o comportamento?

Apesar de sua complexidade, para Johnston e Pennypacker (1993), o comportamento de todos animais humanos e não humanos é tão parte da natureza como qualquer outro assunto científico e pode ser abordado da mesma forma. Isso nos permite dizer que o método experimental é um método legítimo para estudar comportamento. Na realidade, não só é legítimo, como é ideal para esse objeto complexo de estudo uma vez que permite a identificação das contingências controladoras de uma resposta favorecendo sua previsão e controle. Conforme Johnston e Pennypacker (1993) e Christensen, Johnson e Turner (2011), podemos dizer que a essência da experimentação, ou seja, da investigação sobre a relação de causalidade, está no controle experimental. Ou seja, no controle das condições sob as quais os efeitos estão sob estudo (variáveis independentes) e controle de todos os outros fatores que possam afetar a clareza desses efeitos (variáveis externas).

Chiesa (1994/2006) destaca que, apesar da utilização do método experimental como forma técnica de obter informações e elaborar explicações acerca do comportamento humano, a Análise do Comportamento difere de grande parte na Psicologia Experimental Contemporânea. Por esse motivo, posteriormente, vamos discutir algumas estratégias metodológicas utilizadas para a identificação de variáveis de controle, relacionando-as com algumas especificidades da proposta behaviorista radical. Portanto, abordaremos nessa coluna temas como: definição do problema de pesquisa, ética na pesquisa comportamental, tipos de variáveis, delineamentos experimentais, controle experimental, interpretação dos dados. E, dentre as discussões trazidas estarão a realização de pesquisas com grupo versus sujeito único, estudos com humanos versus não humanos e análise estatísticas versus gráfica.

Skinner (1953/2003) argumenta de forma categórica que o controle existe, quer gostemos ou não. O objetivo da ciência será, então, produzir conhecimento que nos ajude compreender melhor as formas de controle, minimizando a possibilidade de contato com contingências coercitivas e aumentando a probabilidade de obtenção de reforçadores positivos. Portanto, vamos apostar na Experimentação!!!

Déborah Lôbo e Daniela Vilarinho-Rezende

Referências

Chiesa, M. (2006). Behaviorismo Radical: A filosofia e a ciência. (C. E. Cameschi Trad.). Celeiro, Brasília – DF (Trabalho originalmente publicado em 1994)

Christensen, L. B., Johnson, R. B., & Turner, L. A. (2011). Research methods, design, and analysis. Boston: Pearson.

Johnston, J. M., & Pennypacker, H. S. (1993). Strategies and tactics of behavioral research. Hillsdale, NJ: Lawrence Erlbaum.

Lattal, K. A. (2005). Ciência, tecnologia e análise do comportamento. Em J. Abreu-Rodrigues & M. R. Ribeiro (Orgs.), Análise do comportamento: Pesquisa, teoria e aplicação. Porto Alegre: Artmed.

Skinner, B. F. (2003). Ciência e comportamento humano. (J. C. Todorov e R. Azzi, Trads.). Brasília: Editora Universidade de Brasília. (Trabalho original publicado em 1953)

Tourinho, E. Z. (1999). Estudos conceituais na análise do comportamento. Temas em Psicologia, 7(3), 213-222.

Tourinho, E. Z. (2003). A produção de conhecimento em psicologia: A análise do comportamento.  Psicologia: Ciência e Profissão, 23(2), 30-41.

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Déborah Lôbo e Daniela Vilarinho-Rezende
Déborah Fernandes Vieira Lôbo - Graduada em Psicologia pela Universidade de Fortaleza – Unifor (2009). Mestre em Ciências do Comportamento, área de atuação Análise do Comportamento, pela Universidade de Brasília – UnB (2012). Professora do curso de Psicologia da Universidade de Fortaleza (Unifor). Também atua em clínica particular como terapeuta analítico-comportamental infantil, de adultos e supervisora. / Daniela Vilarinho-Rezende - Graduada em Psicologia (2009) e mestre em Ciências do Comportamento com ênfase em Análise do Comportamento pela Universidade de Brasília (2012). Especialista em Neuropsicologia Clínica pelo Instituto Brasiliense de Neuropsicologia e Ciências Cognitivas (IBNeuro). Atualmente é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Processos de Desenvolvimento Humano e Saúde (PGPDS) da Universidade de Brasília.
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