O impacto do determinismo na clínica analítico-comportamental

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O debate acerca da determinação da conduta humana tem dividido estudiosos de diversas áreas de conhecimento há séculos. Não surpreendentemente, na psicologia há muita controvérsia acerca dos motivos pelos quais homens e mulheres fazem o que fazem. O presente artigo pretende discorrer acerca de duas implicações da adoção de uma abordagem determinista, particularmente no contexto clínico.

De um lado, alguns psicólogos afirmam que todos os eventos do mundo, inclusive aqueles que nos são mais caros e íntimos (como desejos, pensamentos e fantasias) mantêm relações de dependência com outros eventos ambientais. Embora seja difícil se achar defensores do indeterminismo absoluto[1] não é difícil encontrar psicólogos que advogam pelo indeterminismo moderado. Segundo este pensamento, (ao menos) alguns comportamentos humanos não são controlados como os outros. E seria neste âmbito, frequentemente chamado de escolha, decisão ou livre-arbítrio, que determinantes (sejam eles genéticos, ontogenéticos ou culturais) não exerceriam qualquer influência. É importante destacar que existem diversos tipos de determinismo, inclusive na psicologia. Há quem diga que o ser humano é determinado por dinâmicas inconscientes ou por processamentos cognitivos, por exemplo. Entretanto, uma vez que as relações de dependência entre eventos mentais ou cognitivos e comportamentos não são verificáveis, estas asserções parecem estar condenadas a eternidade, permanecendo com status de uma hipótese que não se pode demonstrar.

Do livro "Free Will", de Sam Harris (2012).
Do livro “Free Will”, de Sam Harris (2012).

A função de um pressuposto

O tipo de determinismo adotado pelo behaviorismo radical encontra-se nas relações funcionais entre organismo e ambiente (Dittrich, 2012). O objetivo principal da analise experimental do comportamento, desta forma, é  “encontrar todas as variáveis das quais a probabilidade de resposta é função” (Skinner, 1966, p.214). Ainda que seja razoável afirmar que esta é uma tarefa interminável, isso não significa que este axioma não cumpra um papel importante. A pressuposição de um mundo ordenado leva o pesquisador, quando deparado com um dado inusitado, a assumir que aquele dado só é estranho porque seu conhecimento das relações de dependência do mundo é incompleto. O mesmo vale para o clínico. Quando um cliente tem uma reação aparentemente “desproporcional” a uma análise feita pelo terapeuta, um determinista assumirá que a resposta do cliente é sempre proporcional, no sentido de que o estranhamento do terapeuta se esvai conforme os estímulos que a determinaram sejam conhecidos. Talvez um clínico que suponha que o comportamento de seu cliente seja governado por alguma faculdade interna caprichosa assuma a reação do cliente como uma agressão, afinal, ele não precisava ter reagido assim. O ponto é que, para os deterministas, o cliente não poderia ter agido de nenhuma outra maneira que não aquela naquele momento. No sentido de que as contingências que determinaram aquele comportamento não deixaram espaço para a escolha alguma, uma vez que o próprio “escolher” deve ser explicado. Quando se afirma que alguém faz o que faz porque assim o escolheu, criam-se mais problemas do que havia quando se tentava responder o comportamento observado. Pois, desta forma, ainda resta explicar (1) por que esta resposta de escolha ocorreu? E (2) qual a relação entre a escolha e o comportamento observado?

O determinista poderia, inclusive, tentar descobrir quais são as variáveis ambientais responsáveis pelo comportamento verbal do indeterminista. O ponto crucial parece ser a ausência de um evento ambiental observável imediatamente anterior. Skinner discorre sobre o controle antecedente deste tipo de explicação:

“A falta aparente de uma causa imediata no comportamento operante levou à invenção de um acontecimento iniciante. Diz-se que um comportamento é posto em ação quando uma pessoa deseja agir (…). Com atribuir comportamento inexplicável de outra maneira a um ato de vontade ou de escolha, parece que se resolve o embaraço. Esta talvez seja a principal raison d’être do conceito; o comportamento é satisfatoriamente explicado na medida em que não tivermos necessidade de explicar o ato de vontade. Mas as condições que determinam a forma de probabilidade de um operante estão na história da pessoa. Como não estão manifestamente representadas no ambiente atual, são facilmente negligenciadas. Torna-se então fácil acreditar que a vontade é livre e que a pessoa tem liberdade de escolher. A questão é o determinismo. A geração espontânea do comportamento atingiu o mesmo estágio que a geração espontânea de larvas e microrganismos no tempo de Pasteur” (1974, p.49).

O terapeuta faz parte do ambiente do cliente. Se o objetivo da terapia é, de alguma maneira, promover transformações significativas na vida do cliente, quanto maior for o papel do ambiente maior será a probabilidade de mudança. Ou seja, o alcance da intervenção é proporcionalmente limitado à redução do controle exercido pelo ambiente do qual o terapeuta faz parte.

É importante salientar que a adoção de uma perspectiva determinista não implica que ao cliente restará um papel “passivo” durante o atendimento. Cabe ao cliente mudar as variáveis das qual seu comportamento é função. A questão é que o todo o responder do cliente é assumido como determinado. Uma vez que o comportamento operante é selecionado por suas consequências, seria incompatível com o referencial da análise do comportamento um processo terapêutico que não exigisse do cliente a emissão de diversas respostas.  Mais uma vez, recorremos a Skinner para ilustrar o raciocínio:

“O homem autônomo é um dispositivo empregado para explicar o que não podemos explicar por outro meio qualquer. Foi produto de nossa ignorância, e, à medida que nossa compreensão aumenta, a verdadeira essência de que se compõe desaparece (…)Somente o desapossando poderemos voltar-nos para as causas reais do comportamento humano. Somente então poderemos voltar-nos do inferido para o observado, do milagroso para o natural, do inacessível para o manipulável.” (1971,p.157)

Determinismo e julgamento

À medida que se busca e identifica as variáveis de controle sobre o comportamento do cliente, há uma alteração no comportamento verbal do clínico que o analisa. No início, muitos comportamentos frequentemente parecem “bizarros” ou “sem sentido”. Alguns psicólogos poderiam os chamar de patológicos ou de disfuncionais. Contudo, como poderia um behaviorista radical pensar assim se:

“A crença na seleção (por conseqüências) leva ao impedimento de um julgamento sobre os comportamentos (…) leva a, no mínimo, pensar que todo e qualquer comportamento seja adaptativo, dentro das contingências que o mantém. E se for possível proceder a uma análise funcional da situação na qual o comportamento dito “patológico” se insere, chegar-se-á à conclusão de que aquele seria o único comportamento que poderia acontecer, dadas aquelas contingências”

 Banaco, 1997 p.81

Para um determinista, não importa o quão inusitado seja um comportamento de um cliente, sempre há de ser supor que os motivos de sua ocorrência podem ser encontrados nas relações ambientais.

Esta compreensão parece ser proporcionalmente inversa a sentimentos associados a julgamentos morais. Portanto, clínico analítico-comportamental, entendendo mundo desta maneira, estará numa posição melhor para empatizar com o cliente. Provavelmente, deixará sentirá raiva (ou sentirá menos) de um cliente quando este responder agressivamente a uma pergunta sobre sua relação com seu pai, por exemplo, ao conseguir identificar as variáveis determinantes desta agressão (e.g. aversividade do tema).

Um dos papéis do terapeuta é criar controle discriminativo modelando suas respostas verbais descritivas para que ele esteja numa posição melhor para se autocontrolar “O autoconhecimento tem origem social, e ele e útil primeiro a comunidade que faz as questões. Depois, ele se torna importante para a própria pessoa – por exemplo, em se gerenciar ou controlar” Skinner, 1974, p.169. Isso pode implicar que o próprio cliente sinta menos raiva de si, relativizando uma culpa que outrora poderia ser insuportável.

Entretanto quando se fala em julgamentos morais também pode se estar falando de atitudes de glorificação, Skinner destaca que “o grau de louvor que damos é inversamente proporcional à evidência das causas do comportamento” (1971, p.50). Consequentemente, um clínico analítico-comportamental não atribuirá à melhora de um cliente que parou de beber à sua força de vontade ou ao seu caráter, mas sim às variáveis ambientais (e.g. tratamento, apoio familiar).

Como um compromisso epistemológico, o determinismo não pode ser “provado”. Entretanto, sua utilidade pode ser evidenciada quando ele passa a orientar uma prática que persevera na busca por determinantes e que promove uma compreensão empática do comportamento humano.

É preciso enfatizar que as implicações de uma abordagem determinista nos moldes do behaviorismo radical não se limitam ao âmbito clínico. O analista do comportamento tem muito a contribuir com este olhar aonde quer que ele atue.

Referências:

BANACO, Roberto. Auto-regras e patologia comportamental. In Denis Roberto Zamignani (org.) Sobre Comportamento e Cognição – A aplicação da análise do comportamento e da terapia cognitivo-comportamental no hospital geral e nos transtornos psiquiátricos. Capítulo 12. Santo André: Arbytes, 1997.

DITTRICH, Alexandre. O conceito de liberdade e suas implicações para a clínica. In: Nicodemos Batista Borges; Fernando Albregard Cassas. (Org.). Clínica analítico-comportamental: Aspectos teóricos e práticos. Porto Alegre: Artmed, 2012, v. , p. 87-94.

SKINNER, B.F. About behaviorism. Nova York: Alfred A. Knopf, 1974.

SKINNER, B.F. Beyond freedom and dignity. Nova York: Alfred A. Knopf, 1971.

SKINNER, B.F. What is the experimental analysis of behavior? Journal of the Experimental Analysis of Behavior, v.9, n.3, p.21318, 1966.

[1] É interessante avaliar os motivos disso: uma vez que o pressuposto de que o comportamento humano ocorre de maneira totalmente errática orientaria uma prática que levaria a inexistência de pesquisadores (uma vez que não haveria motivo para procurar relações dadas como inexistentes) e ao desamparo do psicólogo clínico, que contaria com apenas a sorte para que sua intervenção fosse bem-sucedida.

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