Variabilidade comportamental nas férias escolares

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Alguns assuntos são recorrentes e sazonais, e as férias escolares trazem novamente o questionamento de muitos pais acerca de como entreter as crianças – especialmente durante este período. É muito comum ouvirmos falas de que as “crianças de hoje só brincam das mesmas coisas”, que “a infância mudou”, e também vem à tona a difícil batalha de afastar os pequenos do uso excessivo dos eletrônicos.

Mafalda | Depósito de Tirinhas
Mafalda | Depósito de Tirinhas

A estes questionamentos sobre o modo de diversão das crianças soma-se a dificuldade gerada para os adultos (tecnicamente chamada de custo de resposta) para disponibilizar atividades que contemplem todos estes objetivos de resgatar uma infância leve e construtiva, simultaneamente. Está explicado por que as férias escolares são ocasião de preocupação para muitos pais!

Um dos conceitos que pode nos ajudar na reflexão é como fazer para incentivar a diversidade de atividades. A variabilidade comportamental, ou seja, a existência de variação nas atividades ou na forma como uma dada atividade é realizada, é um conceito estudado pelos analistas do comportamento. O objetivo de diversas pesquisas da área tem sido identificar quais arranjos ambientais podem favorecer a variabilidade. Vamos a dois deles.

Em primeiro lugar, a história de aprendizagem é um fator relevante para a produção de variabilidade comportamental. Traduzindo: indivíduos que, ao aprender uma determinada tarefa, não devem apenas saber fazê-la, mas atender à exigência de fazê-la de formas diferentes, são indivíduos que terão maior variação em suas respostas. Exemplos: “Vamos brincar de massinha? Mas não vale fazer os mesmos bonequinhos que montamos da última vez, vamos inventar outros!”, “Vamos inventar uma coreografia diferente para esta música que tem o jogo de dança do vídeo game?”. Dica número 1: para termos crianças criativas, não precisamos de uma infinidade de atividades para engajá-las, mas podemos variar dentro da mesma brincadeira!

Outro aspecto conceitual apontado pela literatura é que a disponibilidade da consequência também interfere no desenvolvimento de variações. Reforçamento contínuo (ou seja, acesso à consequência a cada emissão do comportamento) é um aspecto que favorece as estereotipias – fazer algo sempre da mesma maneira, enquanto a extinção (ausência de consequências para a emissão de um comportamento) favorece o surgimento de variações na forma como o comportamento é apresentado. Exemplos: no lugar de propor que a criança faça um desenho e te mostre sempre que ele estiver pronto, proponha que ela prepare uma “exposição de desenhos”. Depois de fazer três ou quatro desenhos, observe a produção, valorize as diferenças entre eles: se um foi feito com lápis de cor, outro com giz de cera; se um contém desenhos de animais e outro contém o super-herói preferido. Dica 2: Você verá mais variações se priorizar que um conjunto de tentativas seja apresentado pela criança para que então você aplique consequências.

Uma das conclusões dos estudos sobre a variabilidade comportamental é que os indivíduos variam somente o mínimo necessário para que seus comportamentos atendam às exigências ambientais e produzam os efeitos que desejam. Se o ambiente não apresentar esta demanda de variação, a tendência é seguirmos uma rotina que se aproximará de rituais. Vamos dizer não à mesmice? Podemos começar a praticar isso com as crianças em férias.

Abreu-Rodrigues, J. (2005). Variabilidade comportamental. Em: J. Abreu-Rodrigues e M. R. Ribeiro (Orgs). Análise do comportamento: pesquisa, teoria e aplicação (pp.189-210). Porto Alegre: Artmed.

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