Psicologia do Esporte: da Grécia Antiga – 776 AC até 1930 DC

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Na Grécia antiga, onde filósofos como Platão e Aristóteles já discutiam a relação entre corpo e mente – se referindo a prática esportiva como sendo parte do bem estar psicológico (Vieira et al, 2005, Barreto, 2003) – já havia um sistema de preparação para atletas, que se comparado aos dias de hoje, pode ser entendido como a periodização esportiva (Kremer e Moran, 2008). Utilizado na preparação dos atletas nas primeiras Olimpíadas – por volta de 771 A.C. – o sistema chamado de “Tetrad System”, ou sistema dos quatro dias, previa uma preparação esportiva de quatro dias (Eklund, 2014). Para Kremer e Moran (2012) o primeiro dia era dedicado a Preparação Física, o segundo dia era dedicado à preparação psicológica, ou, Concentração. O terceiro dia era dedicado à Moderação – que se comparado aos dias de hoje, pode ser entendido como uma diminuição gradual dos treinos, a fim de economizar energia e chegar a competição sem muito desgaste físico e Psicológico. Por fim, o quarto dia era dedicado inteiramente ao Relaxamento. Para Lavalle et al (2013) pode se concluir que através da aplicação desse sistema os técnicos da época já poderiam ser chamados de psicólogos do esporte.

Muitos anos depois, nos períodos entre fim do século 1800 e inicio do século 1900 os estudos, voltaram-se para a aprendizagem motora, tempo de reação e transferência de treinamento (David, Huss & Becker, 1995). Em 1871, um dos primeiros ensaios documentados, sem necessariamente haver uma sistematização, é uma reflexão de Herman Holmheltz, físico e fisiologista da universidade de Edimburgo. Nesse ensaio o autor reflete sobre a complexidade na tomada de decisão no golf, onde vários aspectos como a força do vento, declive do terreno e tipo de taco a ser usado no lançamento da bola, deveriam ser levados em consideração pelo jogador (Wade & Swanston, 2000). Aproximadamente em 1875 o anatomista russo Pyotr Francevich Lesgaft iniciou o desenvolvimento de um sistema de educação física, cujo intuito era promover a harmonia entre mente e corpo. Lesgaft propunha, com seu método, o controle consciente do corpo através do treino do sistema nervoso, pela atividade física, influenciando, também, a formação do caráter (Baumler, 2009).

Outro ensaio documentado é o de Emil du Bois-Reymond em 1881, em que, segundo Hobbermaan (2001) e Finkelstein (2013) o autor já argumentava sobre a melhoria da integração sensório motora através de exercícios físicos, defendendo que o exercício para melhora de habilidades motoras era o mesmo que o exercício e o treinamento do sistema nervoso central.

Em seus primeiros trabalhos Edward Wheeler Scripture realizou ensaios para determinar que o tempo de reação e discriminação eram diferentes entres esgrimistas iniciantes e experts. Além de também ter utilizado exemplos de corredores ao iniciar a prova após o disparo do sinal de largada, como exemplo para o tempo de reação. Para Baumler (2009), a palavra psicologia ainda não era relacionada à palavra esporte e as primeiras relações foram encontradas no estudo de Tissié, intitulado “Psicologia do treino intensivo”. Publicado em 1894, o estudo do médico francês Philippe Tissié e do psicólogo americano Edward Scripture, procurava entender a relação entre fisiologia e psicologia nas atividades de esforço intenso, mensurando os efeitos fisiológicos e bioquímicos de ciclistas após 24 horas de exercício em um velódromo, relacionando os fatores psicológicos a esse tipo de atividade de resistência (Green & Benjamin, 2009). Para Kornspan (2009) esses foram os primeiros estudos que obtiveram a atenção da mídia da época. Nos estudos da época se encontram também os trabalhos de G. W. Fitz, professor de Harvard, sobre o mesmo tema de Scripturer, o tempo de reação. George Wells Fitz estabeleceu o primeiro laboratório de educação física na América do norte, no Departamento de Anatomia, Fisiologia e Educação Física da Universidade de Harvard, em 1891.

Enquanto isso, na Rússia, em 1896, o Dr. Pyotr Francevich Lesgaft funda o Instituto de Cultura Física (Volkov, Gorbunov, & Stambulova, 1998). A inda na Europa, mais precisamente na Itália, o precursor da psicologia do esporte foi Angelo Mosso; em seus estudos o autor constatou que o trabalho mental intensivo provocava um enfraquecimento transitório da força muscular e que o trabalho físico em excesso enfraquecia o desempenho mental. A partir disso concluiu que a ginástica na escola não poderia contrariar a “exaustão do cérebro” e recomendou que os treinos de ginástica nas escolas não poderiam ser intercalados com os horários normais de aulas. Em um artigo publicado em 1897, Mosso apontou os efeitos da escalada em altitudes extremas (montanhismo), sugerindo que o líder do grupo era o primeiro a sofrer os sinais de fadiga e ansiedade devido à máxima atenção ao guiar grupos pelas montanhas, procurando os caminhos mais seguros para o grupo.

Em 1898, Norman Triplett – um dos precursores da Psicologia do Esporte da América do Norte, em sua tese de mestrado, comparou o tempo de ciclistas que treinavam sozinhos com o tempo desses mesmos ciclistas durante as competições. As comparações mostraram que os ciclistas quando pedalavam em competições atingiam tempo melhor do que quando pedalavam sozinhos. Psicólogos sociais nomearam esse fenômeno de “Facilitador Social”. Para validar sua tese, Triplett (1898) conduziu um experimento, desafiando crianças a chegarem à linha de chegada o mais rápido que pudessem. Por fim chegou a conclusão de que crianças que pedalavam na presença de outras tinham melhor tempo do que as que pedalavam sozinhas.

Os estudos não utilizavam, necessariamente, a nomenclatura de psicologia do Esporte ou a relação dessas palavras. As primeiras utilizações dos termos são atribuídas a Tissié, como já citado, e Brian Groller (Baumler, 2009). O estudo de Groller, publicado em 1899, chamado “Zur Psychologie des Sports” – Sobre Psicologia do Esporte – no jornal Die Wage, e investigou os componentes psicológicos presentes na competição de ciclistas¸ mais necessariamente o fato de dirigir sua atenção à roda traseira do ciclista guia para se manter na linha do grupo que pedalava (Baumler, 2009).

O que pode ser entendido como Psicologia Social do Esporte também apresentava seus primeiros indícios. O psicólogo da Universidade de Iowa, George T. W. Patrick publicou em 1903 um estudo sobre a psicologia do futebol americano, observando a obsessão pelo jogo nos espectadores dos Estados Unidos, dizendo que havia uma grande força exercendo influencia sob esse fenômeno, psicológica ou social, que ainda não havia sido investigada. Por outro lado, o estudo de Howard (1912) também não fazia referencia direta a atletas e sim o fenômeno social causado pelos espectadores do futebol americano, sugerindo que o sucesso dos esportes violentos (considerando-se que na época não havia uma preocupação com a segurança dos jogadores de futebol americano como há atualmente), tinha como característica evocar comportamentos primitivos, ou seja, como explica Green e Benjamin (2009), o jogo exercia uma espécie de função catártica nos expectadores.

Outro personagem importante para o surgimento do termo “Psicologia do Esporte”, segundo Kornspan (2009), foi Pierre de Coubertain, fundador das Olimpíadas dos tempos modernos. Coubertain foi autor de diversos artigos, tais como; a razão pelas quais as crianças participavam de atividades esportivas, a importância da auto regulação e o papel dos fatores psicológicos no desempenho esportivo. Além disso, Pierre foi o organizador dos congressos olímpicos, dos quais dois desses encontros foram dedicados a Psicologia do Esporte. No congresso de 1913 procurou encorajar a comunidade médica a considerar os aspectos psicológicos do esporte e exercício, já que em seu entendimento as pesquisa
s da época voltavam sua atenção somente para fatores fisiológicos do fenômeno esportivo.

Para Kremer e Moran (2008) a continuidade dos estudos de Grifith ficou a cargo de Judd (1908), Swift (1910) e Lashley (1915). Os autores investigaram a aquisição de habilidades no arremesso de bola e nos esportes com arco e flecha. E em 1913 Harry K. Wolfe, professor de psicologia da Universidade de Nebraska, propõe o desenvolvimento de um laboratório voltado ao estudo da Psicologia do Futebol Americano (Kornspan, 2009).

Considerado o pai da Psicologia do Esporte nos Estados Unidos, Colleman Robert Griffith começou a se interessar por psicóloga do esporte durante seu doutorado, embora sua tese tivesse como tema o estudo do aparelho vestibular, Em 1917 Griffith já produzia uma série de observações informais no futebol americano e no basquetebol (Green, 2003). Logo após sua graduação se tornou professor assistente e passou a oferecer um curso voltado para o interesse de atletas e em 1923 ofereceu um curso intitulado “Psicologia e Atletas”, além de, no mesmo período, escrever seu primeiro livro chamado “Introdução geral a psicologia”. Após essa fase passou estabelecer contato com técnicos e jogadores, falando sobre os aspectos psicológicos do jogo. Ao saber do trabalho de Griffith, o superior do departamento de bem estar físico da Universidade de Illinois, George Huff, o convenceu a fundar o primeiro laboratório de pesquisas com atletas em 1925, no qual foi o primeiro diretor (Kremer & Moran, 2008).

Alguns anos antes, o primeiro laboratório de psicologia do esporte na Europa foi fundado por Carl Diem em 1920 (Guttmann, 1983) em Berlim, na Alemanha.

Na Rússia em 1927 Avksenty Cezarevich Puni conduziu seu primeiro estudo analisando os efeitos psico-fisiológicos do treino do tênis de mesa. Enquanto Puni estava construindo o programa no Instituto Lesgaft, o pesquisador Piotr Antonovich Roudik já desenvolvia trabalhos no Departamento de Psicologia do Instituto Central Estadual de Cultura Física de Moscou na mesma época. Juntos, Puni e Rudik são considerados os pais da Psicologia do Esporte Russa. Em 1925, Rudik fundou o primeiro laboratório de psicologia do esporte na União Soviética. Nos anos seguintes, ele e sua equipe de pesquisadores direcionaram seu foco na conceituação das noções de volição e moral, atuando na preparação atletas soviéticos (Ryba, Stambulova, & Wrisberg, 2005; Stambulova, Wrisberg, e Ryba, 2006).

Por Fim é interessante destacar alguns aspectos da trajetória da Psicologia do Esporte. Os experimentos realizados entre o fim do século XVII e inicio do século XVIII, com base na fisiologia e aprendizado motor e tempo de reação, foram influenciados pela psicologia experimental de Wundt, que estabeleceu seu laboratório em Leipzig, na Alemanha, e seus experimentos tinham como base os estudos em fisiologia de Holmheltz. Edward Scripture, por exemplo, recebeu seu título de doutor em psicologia experimental das mãos de Wundt – tido como um dos pais da Psicologia.

Os laboratórios do estudo em psicologia e esportes surgiram e, se estabeleceram, nos departamentos de educação física, fato que persiste até hoje, onde a maioria dos laboratórios das universidades, tanto da Europa, quanto dos Estados Unidos são instalados nos departamentos das ciências da educação física.

Com as mudanças sociais ocorridas entre a década de 30 e 50 a psicologia do esporte se desenvolveu de modo lento, porém constante. O laboratório de Griffith sucumbiu ao período da grande depressão na economia americana na década de 30 e, devido aos acontecimentos na Europa e por ordem dos regimes da época, os estudos não eram publicados ou não eram desenvolvidos de fato – aspectos dessa fase da Psicologia do Esporte serão apresentados e discutidos nos próximos textos desta série.

Os trabalhos de Scripture influenciaram o estabelecimento da “Nova Psicologia”, focada em coleta de dados e experimentação versus interpretação subjetiva, assim como a aplicação dessas descobertas científicas ao mundo real, como, por exemplo, o aumento do desempenho esportivo.

Em relação ao Behaviorismo, John B. Watson, fundador do Behaviorismo clássico, também realizou alguns experimentos junto a Karl Lashley. Os estudos não estavam necessariamente voltados ao esporte, mas, ao processo de aquisição de habilidades no arco e flecha. Ambos estavam interessados na efetividade do aprendizado, pesquisando diferentes esquemas de treinamento e sob a supervisão de Watson, Lashley (1915), conseguiu mostrar que a distribuição da pratica de treino é mais proveitoso para o aumento da performance do que a pratica massiva. Após esses estudos os autores não desenvolveram mais conhecimentos relacionados à Psicologia do Esporte.

Referências:

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Barreto, J. A. (2003). Psicologia do Esporte para o atleta de alto rendimento. Shape.

Davis, S. F., Huss, M. T., & Becker, A. H. (1995). Norman Triplett and the dawning of sport psychology. The Sport Psychologist.

Eklund, R. C. (Ed.). (2014). Encyclopedia of Sport and Exercise Psychology. SAGE Publications.

Finkelstein, G. (2013). Emil du Bois-Reymond: Neuroscience, Self, and Society in Nineteenth-Century Germany. MIT Press.

Green, C. D. (2003). Psychology strikes out: Coleman R. Griffith and the Chicago Cubs. History of psychology, 6(3), 267.

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Guttmann, A. (1983). Recent work in European sport history. Journal of Sport History, 10(1), 35-52.

Hoberman, J. M. (2001). Mortal engines: The science of performance and the dehumanization of sport (pp. 213-16). New York: Free Press.

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Volkov, I. P., Gorbunov, G. D., & Stambulova, N. B. (1998). To the centennial of Avksentii Tcezarevich Puni. Theory and Practice of Physical Culture, 11/12, 2–6.

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