Doenças Psicossomáticas: o que a Análise do Comportamento tem a dizer

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Paula Grandiwww.paulagrandi.com.br

As chamadas doenças psicossomáticas são alvo de investigação em diversas abordagens teóricas dentro do campo de conhecimento da Psicologia, bem como de outras áreas, como a medicina. O campo de estudo denominado Psicossomática enfatiza a dicotomia entre mente e corpo, considerando-os como de naturezas diferentes e buscando estudar a influência de um sobre o outro. A Psicossomática compartilha a definição de saúde e doença da Organização Mundial da Saúde (OMS): “saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental, social e não apenas a ausência de doença”, considerando, em sua visão de homem integral, o papel das influências biopsicosociais. A partir desta compreensão de homem, as causas das doenças psicossomáticas deveriam ser buscadas na psique, na mente, a qual estaria diretamente influenciando o corpo. A concepção Behaviorista Radical de homem difere da apresentada pela Psicossomática e pelas abordagens tradicionais ao negar o dualismo que atribui à mente e ao corpo naturezas diferentes. O Behaviorismo radical não realiza essa divisão.

Segundo Skinner “uma pequena parte do universo está contida dentro da pele de cada um de nós. Não há razão de ela dever ter uma condição física especial por estar situada dentro desses limites.” (Skinner, 1974, p.23). O que apenas nós mesmos temos acesso não possuiria, portanto, uma estrutura ou natureza especial, e deveria ser examinado, já que é ambiente para muitos de nossos comportamentos. É importante salientar que a concepção de ambiente para a análise do comportamento, muito comumente incompreendida por críticas realizadas a abordagem, abrange qualquer evento do universo capaz de afetar o organismo, sendo ele privado (apenas nós mesmos temos acesso) ou público (acessível a várias pessoas). Indo além, a conhecida frase de Skinner nos ajuda a compreender a concepção de homem e ambiente para o Behaviorismo Radical: “Os homens agem sobre o mundo e o modificam e, por sua vez, são modificados pelas consequências de sua ação.” (Skinner, 1957, p.15).

A relação entre homem e ambiente é vista como uma interação e, de modo algum, o homem é considerado como um ser passivo que apenas sofre as influências de seu meio. A frase de Skinner colocada acima deixa claro como o homem é produto e também produtor de seu próprio ambiente, podendo, até certo ponto, vir a controlar seu próprio comportamento ao alterar as variáveis das quais ele é função (o que é conhecido como auto-controle, e é assunto para outro momento).

Deve-se esclarecer, também, que a análise do comportamento não busca a resposta para a pergunta “por que nos comportamos de determinada forma?” no conjunto corpo-cérebro, já que o cérebro é parte do corpo e o que ele faz também deve ser explicado (Skinner, 1999). A resposta para esta pergunta estaria nas contingências, pois o comportamento do organismo é produto de três tipos de variação e seleção (para mais informações sobre este tópico veja Skinner, 1990).

Colocadas estas considerações, o Behaviorismo Radical compreende que, tanto o que fazemos (nossos comportamentos) como as nossas emoções e sentimentos são produtos das contingências às quais estamos expostos. As doenças psicossomáticas estariam também diretamente relacionadas às contingências, o que explicito mais detalhadamente a seguir. Dores de cabeça e nas costas, alterações gastrointestinais como diarreia, gastrite e úlceras, taquicardia, hipertensão, alterações dermatológicas como psoríase, dermatites, herpes e urticárias entre outras alterações fisiológicas são comumente denominadas doenças psicossomáticas.

Para o senso-comum é provável que frente a uma dessas doenças, que não possuem causas orgânicas identificáveis, lhes seja dito: “Você deve ficar menos estressado”, “Não se preocupe tanto com os problemas”, “Isso é emocional, você tem que relaxar”. No entanto, estas colocações não apenas culpabilizam aquele que sofre de uma doença psicossomática (partindo do pressuposto de que ele poderia, de alguma forma, resolvê-la sozinho), como também não ajudam a encontrar as reais causas da doença, as quais estariam nas contingências.

É importante ressaltar que não é qualquer tipo de contingência que pode culminar em doenças psicossomáticas. São as contingências aversivas presentes constantemente, por um longo período, na vida de um indivíduo que não tem como delas escapar ou até mesmo contra-controlar aquele que as estabelece, que geram as alterações fisiológicas que levam a essas doenças. É possível que uma pessoa não possa escapar das contingências aversivas ou porque não é possível, ou porque não possui o repertório de esquiva necessário. Um bom exemplo é o de uma pessoa que está constantemente a expectativa da punição, a qual pode ser apresentada frente a diversos comportamentos em diversos ambientes (Sidman, 1989). Provavelmente diríamos que ela é uma pessoa ansiosa ou estressada, mas para compreendermos este exemplo é importante saber um pouco mais sobre a punição e levarmos em consideração a interação que ocorre entre comportamento operante e respondente (Thomaz, 2012).

Ao buscar compreender um fenômeno complexo como a ansiedade, devemos, primeiramente, considerá-lo como um episódio emocional no qual ocorre uma interação entre comportamento operante e respondente (Thomaz, 2012). Neste episódio: 1. Poderão ser verificadas respostas respondentes eliciadas de taquicardia, sudorese, respiração acelerada, entre tantas outras; 2. Ocorrerá uma alteração na predisposição para responder (comportamento operante), já que respostas de fuga e esquiva que evitam ou reduzem o contato com a estimulação aversiva tem sua probabilidade de ocorrência aumentada; e 3. A efetividade reforçadora de outros estímulos poderá ser diminuída. Como exemplo, uma pessoa sujeita a contingências aversivas no trabalho, relatará sentir-se ansiosa neste ambiente e 1. Perceberá alterações em seu corpo; 2. Fará o possível para se afastar do ambiente do trabalho, faltando ou realizando outras atividades durante o experiente; e 3. Reforçadores positivos como sair com os amigos ou um apreciar um bom jantar terão a sua efetividade reduzida. A ansiedade, portanto, não se restringe apenas aquilo que a pessoa sente, mas também engloba as alterações no repertório total do indivíduo (Thomaz, 2012). (Para saber mais sobre como a Análise do Comportamento compreende respostas emocionais e a interação respondente e operante, veja Darwich e Tourinho, 2005).

Voltemos agora para a punição, o que nos possibilitará compreender como se instalam as doenças psicossomáticas. Skinner (1953) descreve que devemos definir a punição sem pressupor qualquer efeito. A punição é definida pelo seu procedimento, que pode ocorrer de duas formas: 1. Punição positiva, quando ocorre a apresentação de um estímulo aversivo, em consequência a uma dada resposta do organismo; 2. Punição negativa, quando há a retirada de um estímulo reforçador positivo, após a emissão de uma resposta. Como exemplo de punição positiva: uma criança que recebe um beliscão de um colega, após pegar o seu brinquedo; e de punição negativa: uma criança que, após quebrar um objeto de sua casa, tem o seu videogame (reforçador positivo) retirado por seus pais.

No entanto, apesar de não ser definida pelos seus efeitos, a punição resulta para o organismo em três efeitos colaterais muitíssimo danosos, os quais descreverei brevemente. O primeiro efeito se refere a supressão temporária da re
sposta que é punida, dada a eliciação de respostas emocionais incompatíveis que competem, temporariamente, com a emissão da resposta indesejada. Por respostas emocionais me refiro a mudanças reflexas no corpo (por exemplo, o aumento de batimentos cardíacos, descarga de adrenalina, liberação de suco gástrico, entre outros) e a alterações nas probabilidades de resposta. Aqui, o comportamento punido não é observado no organismo, pois outras respostas estão sendo eliciadas em seu repertório, respostas estas que cessam se a estimulação aversiva for descontinuada. A criança que recebeu uma bronca enfática dos pais, apenas para de emitir o comportamento que seria indesejável temporariamente devido a estas respostas eliciadas. Quando a bronca não mais estiver presente, é provável que ela volte a emitir o comportamento indesejado se este for reforçado. (Um livro infantil que retrata bem este efeito chama-se Mamãe Zangada de Jutta Bauer, 2008).

O segundo efeito descrito por Skinner está relacionado à produção de estímulos aversivos condicionados e parece ser o mais importante para compreender as doenças psicossomáticas. Quando uma resposta é punida, todos os estímulos outros que estavam presentes no momento da punição, bem como a pessoa que pune, tornam-se estímulos aversivos condicionados e passam a eliciar as mesmas reações descritas no primeiro efeito. Se no trabalho o seu chefe critica constantemente o seu trabalho de forma inesperada e constante, humilha-o frente aos seus colegas ou lhe apresenta um problema que você não possui um repertório para resolver e critica em seguida o seu desempenho, não apenas o seu chefe se torna um aversivo condicionado, mas também todo o ambiente de trabalho, a rua que leva ao trabalho, o material e o e-mail que lá você utiliza, aquela reunião que ocorre toda semana e que provavelmente lhe remete a problemas, bem como diversos outros estímulos que podem estar presentes no momento da punição. Como muito bem colocou Sidman (1989), aquele que fornece o choque se torna, ele mesmo, um choque.

A situação é ainda agravada pelo fato de que a própria resposta punida e qualquer tendência a se comportar nesta direção podem também se tornarem aversivos condicionados. Alguém que foi extremamente punido no trabalho, provavelmente sofrerá com as respostas emocionais apenas ao pensar no trabalho ou ao ligar o computador para realizar um relatório (estágios iniciais da resposta que foi punida). São os efeitos colaterais da punição que geralmente levam as pessoas à terapia.

Frente a um ambiente cada vez mais aversivo, as reações corporais descritas (alterações fisiológicas eliciadas) tornam-se constantes e crônicas e passam a prejudicar a saúde do indivíduo. É neste momento que se instala a doença psicossomática, devido às alterações fisiológicas crônicas. Como muitas das variáveis responsáveis por esses padrões emocionais são geradas pelo próprio comportamento do organismo, nenhuma resposta de fuga se apresenta como possível (Skinner, 1953). Assim, por vezes podemos dizer que um estado emocional culmina em um distúrbio médico, como quando uma resposta crônica das glândulas ou músculos lisos produz uma mudança estrutural, como uma úlcera. Porém, esse estado emocional deve ser explicado e tratado ao se compreender as contingências em vigor (Skinner, 1953).

Veja que a análise do comportamento não direciona a causalidade de uma doença psicossomática diretamente ao estresse ou à ansiedade, mas recorre as contingências para explicar o funcionamento do organismo, seja nos seus aspectos públicos ou privados (o que ocorre dentro da pele). “Dizer, por exemplo, que a doença física é devida ao estresse não explica a doença e nem como tratá-la, até que o estresse seja ele próprio explicado” (Skinner, 1989, p.113). O estresse ou a ansiedade, a doença psicossomática e os seus comportamentos frente às situações aversivas são todos causados pelas contingências. Como exemplo, se uma pessoa está sob estresse por está sobrecarregada, o que deve ser alterado é a quantidade de atividades que ela tem que desempenhar (Skinner, 1989). Para a Análise do Comportamento não são as emoções, mas as contingências que teríamos que alterar (as circunstâncias aversivas responsáveis pelo que estamos sentido).

Por fim, o terceiro efeito da punição descreve como, diante de um evento aversivo, qualquer resposta capaz de promover a remoção ou redução do contato com esta estimulação será reforçada, fortalecendo respostas de fuga e esquiva. Um indivíduo que é constantemente exposto a situações aversivas provavelmente fará qualquer outra coisa que o afaste desta situação (reforçamento negativo: quando a retirada de uma estimulação aversiva aumenta a probabilidade da resposta). Devemos nos atentar as nossas próprias vidas e avaliar se a maioria das atividades que desempenhamos é mantida por reforçamento negativo ou reforçamento positivo.

Se estamos constantemente tentando nos livrar de problemas e de situações degradáveis e o sentimento mais presente em nosso dia-a-dia é o alívio, é possível que um dia venhamos a desenvolver uma doença psicossomática. Explicado de outra forma, se vivemos em um mundo repleto de contingências aversivas, fugimos e nos esquivamos constantemente. Quando somos bem sucedidos em fugir ou esquivar, sentimos o que é comumente denominado alívio. O alívio indica, portanto, a presença de contingências aversivas, as quais culminam em alterações fisiológicas danosas ao nosso corpo (conforme descrito acima ao explicitar os três efeitos colaterais da punição). Essas alterações, se presentes de forma crônica, dão origem as chamadas doenças psicossomáticas.

Isto posto, contingências aversivas estão, na maioria dos casos, diretamente relacionadas com as chamadas doenças psicossomáticas. É preciso que nos empenhemos em construir um mundo no qual estas contingências sejam atenuadas, dando espaço a atividades que gostamos e que nos dão prazer (contingências de reforçamento positivo), se pretendemos diminuir a incidência de doenças psicossomáticas.

REFERÊNCIAS

Bauer, Juttta (2008). Mamãe zangada. São Paulo: Cosac Naify

Darwich, R. A., Tourinho, E. Z. (2005). Respostas emocionais à luz do modo causal de seleção por consequências. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, vol. VII, nº1, p.107-118.

Sidman, M. (1989/2009). Coerção e suas implicações. Campinas, São Paulo: Ed. Livro Pleno.

Skinner, B. F. (1953/2003). Ciência e Comportamento Humano. São Paulo: Martins Fontes.

Skinner, B. F. (1957/1978). O Comportamento Verbal. São Paulo: Cultrix: Ed. da Universidade de São Paulo.

Skinner, B. F. (1974/2006). Sobre o Behaviorismo. São Paulo: Cultrix.

Skinner, B. F. (1989). Questões recentes na Análise do Comportamento. Campinas: Papirus.

Skinner, B. F. (1990). Can psychology be a science of mind? American Psychologist, 45, p.1206-1210.

Thomaz, C. R. C. (2012). Episódios emocionais como interações entre operantes e respondentes. Em: Borges, N. B. e Cassas, F. A. e cols. Clínica analítico-comportamental: aspectos teóricos e práticos. Porto Alegre: Artmed.

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