[Entrevista Exclusiva] Prof. Silvio Botomé e os desafios da Análise do Comportamento brasileira – III CPAC-Londrina/PR

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Por ocasião do III Congresso de Psicologia e Análise do Comportamento (III CPAC), em Londrina-PR, tivemos a oportunidade de realizar uma entrevista com o prof. Silvio Paulo Botomé (UFSC), que apresentou a palestra A capacitação de analistas do comportamento no Brasil: problemas e perspectivas para os próximos anos. Prof. Botomé formou-se em São Paulo e já se dedica à docência há alguns anos, tendo diversas contribuições neste campo, estudando aprendizagem e a formação de analistas do comportamento. Foi de grande valia para nós poder conversar um pouco com o professor e conhecer sua opinião acerca da situação atual da formação de ACs no Brasil. Confira a entrevista, feita por Raiane Alves, abaixo.
 Prof. Botomé no III CPAC

Raiane Alves/Comporte-se – Gostaria que contasse um pouco da sua história. Como se interessou pela análise do comportamento?

Prof. Silvio Botomé – Em 1968, já tinha uma história de uma década de militância em movimento estudantil, já havia estudado Filosofia, Matemática e Contabilidade além do segundo grau usual (Científico) na época. Havia participado das atividades de um instituto de Psicologia no Sul do Brasil e tinha sido, ao longo de quatro anos, bibliotecário de uma universidade nascente no Sul do Brasil. Chegara a São Paulo, no final de 1968 e fiz vestibular para Psicologia na PUC-SP, uma vez que ela oferecia um curso muito diferenciado do que havia no Sul do Brasil de forte influência das concepções predominantes na Europa por meio da influência dos países com origem de colonização hispânica do sul do continente.
Embora tivesse uma formação predominantemente influenciada pelos estudos dos neopsicanalistas (de orientação social) e dos textos marxistas e da doutrina social da Igreja Católica dos tempos de preparação e realização do Concílio Vaticano II, a orientação da Psicologia no sul do Brasil me parecia muito conservadora e voltada para o indivíduo e para a “patologia!”. E isso contradizia o que estudava, incluindo o existencialismo que trazia uma inversão nas concepções predominantemente derivadas do Aristotelismo e adjacências, afirmando que não era uma “essência que determinava a existência dos seres humanos”, mas uma “existência que influenciava o que se tornaria característica de cada um”. Isso já estava presente para mim, quando na primeira aula (inaugural) que tive no Curso de Psicologia ouvi da professora Maria do Carmos Guedes várias interrogações a respeito da Psicologia que era mais divulgada. Entre as interrogações chamou-me a atenção uma delas: “E se a ‘patologia’ for aprendida como qualquer outro comportamento?”. Isso foi marcante para mim, embora desprezado por muitos de meus colegas como algo sem nexo. Não tinha resposta, mas minha formação me havia sensibilizado para o papel e a forte influência da sociedade, tal como estava, na vida das pessoas. Já trabalhava e vivia de meus próprios recursos há mis de uma década e já havia conhecido e vivido em várias cidades, tendo militado em vários movimentos e sofrido a repressão que se abatera contra a juventude e a academia que protestava contra a cátedra no começo dos anos de 1960. O questionamento de Maria do Carmos Guedes me colocou de frente com as propostas do behaviorismo que começava a surgir no Brasil e me levou a rapidamente ir ao encontro de outro de meus interesses compatíveis com minha formação: o trabalho científico. A professora Neide Solito, minha primeira professora a convidar-me para uma monitoria colocava-me mais próximo a isso e, daí por diante, a aproximação ao laboratório de pesquisas experimentais e aos estudos cada vez mais críticos em relação aos vários tipos de contribuição ao desenvolvimento da Psicologia me levaram ao Behaviorismo e ao estudo de Skinner como o que melhor concretizava tudo o que, até então havia estudado. 
Durante a graduação, como tinha que trabalhar para pagar meus estudos, também fui assistente em um hospital psiquiátrico infantil, em Diadema (Enfance) ao lado de São Paulo, que trabalhava com um enfoque inovador, muito próximo ao que depois seria conhecido como “antipsiquiatria” e que tinha uma concepção mais de saúde pública do que do modelo médico tradicional a respeito dos problemas comportamentais. Era o que se chamava por “ambiente terapia” e que preconizava que se o ambiente for “sadio” (as relações sociais fundamentalmente) as pessoas tenderão a ficar “sadias” também. Isso tudo combinou muito fortemente com as contribuições típicas do behaviorismo skineriano que, mais tarde, seria o “behaviorismo radical”. Desde o começo foi muito fácil para entender que as contribuições de Skinner eram uma “guinada” na concepção do objeto de estudo da Psicologia. E isso, de certa forma, me obrigou a estudar muito as demais contribuições, para assegurar-me que não havia apenas deslumbramento por uma “novidade”. Voltei aos estudos da Psicanálise e do Marxismo e não encontrei contradição. Pelo contrário, pareceu-me sempre que as contribuições da Análise Experimental do Comportamento e as possibilidades de derivar ações sociais ou intervenções profissionais desse conhecimento eram altamente possíveis e promissoras. E minhas experiências de estudante, de estágios e de profissional, ainda no início da carreira, comprovaram isso.

Comporte-se – No III CPAC (Londrina/ 2014) o senhor falou um pouco sobre a certificação de analistas do comportamento. O senhor poderia falar um pouco mais sobre isso? Acha necessário? Como deveria ser feito? A própria formação já não exclui isso? 
Botomé – Se houvesse, nos cursos de Psicologia, uma formação ou uma capacitação efetiva para o trabalho com o comportamento, talvez não houvesse necessidade de algo desse tipo. Não tenho uma definição muito clara a respeito de ser necessário ou não. No momento atual, nesse estágio de desenvolvimento da análise do comportamento no país, creio que talvez seja útil para obrigar-nos a esforços de criar condições de desenvolvimento da capacitação de novas gerações de analistas de comportamento de forma minimamente coerente pelo país. Não há um projeto (ou currículo) que tenhamos claro como importante para isso. O que é feito é uma descoberta, durante algumas disciplinas que variam de curso para curso, em relação ao que é o “behaviorismo” e há alguns poucos de cada curso que aparecem em algum congresso e começam a ver um pouco mais o que é a Análise do Comportamento. Na primeira década deste século aparecem alguns recursos mais sistemáticos (cursos, instituições, congressos regulares) que trazem algumas oportunidades adicionas para conhecer um pouco mais o que é o behaviorismo e a Análise do comportamento, tanto como conhecimento filosófico, como científico e como instrumental de trabalho profissional no campo de atuação da Psicologia. Mas isso é muito heterogêneo pelo país e as oportunidades são limitadas, custosas e para muitos são inacessíveis. A maioria dos estudantes de Psicologia tem apenas oportunidades de lidar com equívocos e preconceitos a respeito de Análise do Comportamento. Nem sequer entendem as contribuições dos pré-behavioristas e ficam orbitando no conhecimento das primeiras contribuições que viabilizaram a análise experimental do comportamento (já depois do behaviorismo watsoniano e desenvolvendo muito além das descobertas de Pavlov). 
Com tudo isso, um trabalho de credenciamento de profissionais, sustentado por condições que viabilizem atender a exigências mínimas para o exercício de um trabalho de analistas de comportamento, pode ser uma contribuição útil para um desenvolvimento e uma maior relevância do trabalho desses profissionais para a Psicologia e para o País. Mas não é algo fácil ou simples de fazer e terá que ser constantemente aperfeiçoado, tanto nos seus procedimentos, quanto nas suas exigências para não se tornar um instrumento de mero controle burocrático ou administrativo. Esse tipo de trabalho precisa ter uma função reguladora da qualidade e de um padrão mínimo de trabalho para poder ser chamado de “análise do comportamento” ou qualquer nome equivalente que venha a ser dado para tal tipo de trabalho no âmbito da psicologia ou de campos de atuação afins.
Algumas das condições que poderiam ser garantidas para diminuir a necessidade ou uma alta exigência para acreditação de profissionais são as características dos currículos de cursos de graduação e de mestrados e doutorados nessa área e para esse campo de atuação profissional. Se for possível homogeneizar e garantir uma preparação adequada de analistas de comportamento no âmbito desses cursos, seria menos importante ou necessária uma acreditação de profissionais no exercício da profissão. Mas, nem sequer há professores para tanto. A formação específica e com um mínimo de qualidade é rara, inexistente ou improvisada em grande parte dos cursos de Psicologia do país, com o risco de superficialidade, equívocos e descaracterização do que, fundamentalmente, é nuclear na concepção do que seja “análise do comportamento” como área de conhecimento e como campo de atuação profissional.
Comporte-se – Na sua conferência o senhor apresentou alguns desafios enfrentados dentro da AC, dentre eles a expansão da ciência que considera ainda pouco vasta. O que é preciso para mudar desse panorama? É possível isso? Quais projetos podem ser desenvolvidos?

Botomé – Considero a Análise do Comportamento, particularmente a Análise Experimental do Comportamento, muito ampla e extensa como conhecimento e como experiência profissional. O que considero restrita é a sua expansão ou o acesso ao conhecimento produzido que me parece grande, desafiador, novo e complexo para quem não o estudou com alguma profundidade. O que respondi anteriormente a respeito de acreditação de analistas de comportamento responde em parte o que fazer para mudar isso. Desenvolver melhor a capacitação de analistas de comportamento no âmbito dos cursos de graduação, criar linhas de pesquisa e áreas de concentração nos programas de pós-graduação ou até programas de pós-graduação específicos para isso. Além de, nos Reuniões Anuais da ABPMC realizar cursos de atualização, iniciação, aperfeiçoamento e até de especialização em diferentes tipos de trabalho nesse campo de atuação. Um projeto coletivo de capacitação de analistas de comportamento, mesmo que não fosse desenvolvido integralmente por todos, mas servisse de orientação possibilitaria isso. Já fizemos esse tipo de experiência com várias turmas de especialização, de mestrado e de doutorado e é viável. O que não dá para fazer é construir um projeto de capacitação nos moldes dos currículos tradicionais, formulado por meio de temas ou de assuntos e não de classes de comportamentos que configurem com clareza e coerência o trabalho de um analista de comportamento de acordo com os referenciais da Análise Experimental do Comportamento. 


Comporte-se – Como anda o panorama de pesquisas na área de AC? Quais as novidades? Quais os principais avanços? 
Botomé – As pesquisas na área da Análise do Comportamento estão muito diversificadas e abrangem não só diferentes fenômenos e processos como também uma variabilidade de tecnologias de produção de conhecimento tanto em processos básicos quanto em processos envolvidos no trabalho de intervenção profissional. No que diz respeito aos comportamentos-alvo de intervenção como nos comportamentos instrumentais dessa intervenção (os comportamentos dos próprios profissionais). Isso é muito bom, mas ainda estamos com uma terminologia emprestada de outras áreas, inventada ad hoc ou inadequada para nomear os processos comportamentais que estamos realizando ou nos quais estamos interferindo. Ainda usamos a terminologia do campo da saúde (diagnóstico, classificação das patologias mentais, nomes de técnicas ou procedimentos de intervenção que não são adequados aos processos que efetivamente são realizados etc.) ou, mesmo de outras áreas como administração, etologia etc. Isso não é um problema insolúvel… é quase uma condição natural do estágio de desenvolvimento… O que precisamos é administrar isso antes que se transforme em uma grande variedade de seitas ciosas de suas prerrogativas de nomenclatura e ascendência como se começar um trabalho ou descobrir um fenômeno, uma técnica ou nomear um procedimento fosse uma nova área de conhecimento ou um patrimônio particular que os demais não podem questionar ou avaliar.
Novamente, precisamos aumentar a troca de idéias, maximizar as críticas e avaliações aos nossos trabalhos de forma organizadas, coordenada, articulada e partilhada, sem disputas ou concorrências que tenderão a aumentar os comportamentos de esquiva, fuga, isolamento e outros sob controle de reforçamento negativo ou de punição. Precisamos ser capazes de criticar de forma a auxiliar o crescimento uns dos outros e não o contrário, embora isso também exija repertórios (ou condições estabelecedoras) adequados também de quem recebe a crítica e as avaliações. Nisso também a acreditação será algo delicado e exigente para realizar. As pesquisas estão sendo feitas, estão sendo apresentadas e exibidas nas reuniões e congressos… Parece faltar um debate profundo e autêntico, não meramente adulativo ou genérico a respeito delas e de sua inserção na corrente de contribuições para o desenvolvimento da Análise do Comportamento. Mas parece que deixamos a “reflexão crítica, pública e coletiva de nossas ações” ser substituída pela noção de “ocupação de espaço” com as consequentes “proteção” e “garantia” de “espaço” como se nosso “poder” fosse diminuído pelo debate e eventuais críticas e avaliações de colegas. Quando o que ocorre é o contrário: o respeito nasce da troca respeitosa e da avaliação recíproca que possamos fazer como contribuição para o outro crescer. Talvez nisso esteja o nosso “Calcanhar de Aquiles” e nisso há muitas possibilidades de desenvolvimento. Não estamos aproveitando da quantidade de nossa própria produção de conhecimento e experiência profissional na Análise do Comportamento no país.
Comporte-se – Por fim, gostaria que o senhor deixasse alguma dica ou sugestão para quem se interessa pela AC e pelo campo de pesquisa. 
Botomé – Para quem se interessa pela Análise do Comportamento… em qualquer de suas possibilidades de atuação (seja na pesquisa, seja na intervenção) o que importa é procurar sempre estudar, acompanhar o que está sendo feito, participar dos eventos e integrar-se em movimentos organizados de desenvolvimento dessa área de conhecimento e desse campo de atuação profissional. As Jornadas de Análise do Comportamento organizadas por estudantes tem sido um exemplo disso. Os recursos eletrônicos (sites, periódicos, institutos com seus recursos informativos etc), a ABPMC e as associações ou congressos regionais ou internacionais também têm ajudado nisso. A troca de correspondência, a constituição de grupos de intercâmbio idem. Creio que as publicações, hoje muito mais abundantes que em outras épocas, também estão aí não só disponíveis como muito mais acessíveis que em outras épocas, divulgadas nas referências dos artigos dos periódicos, nos anais dos congressos, nos sites existentes etc.
Não será a universidade que fará analistas de comportamento, mas os que se dedicarem a isso é que farão a “universidade feita por eles” ser diferente. E isso depende de comportamentos de cada um e não da burocracia ou da sorte ocasional. É possível articular novos sistemas de capacitação de analistas de comportamento como nunca fizemos antes… E as condições atuais parecem necessitar disso…

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