Análise do Comportamento Aplicada: em que pé estamos? Considerações 46 anos depois

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    Há algumas semanas, pude participar de um encontro de estudantes de Análise do Comportamento, o qual considero um marco histórico. Um evento pautado na importância da aplicação de uma ciência do comportamento para mudanças efetivas na sociedade. Uma proposta com a qual me identifico bastante.
    Por ser uma ciência, alguns critérios precisam ser estabelecidos na aplicação da Análise do Comportamento. Assim, Baer, Wolf e Risley (1968), no primeiro número do Journal of Applied Behavior Analysis, descreveram pontos importantes que a pesquisa aplicada deve apresentar. Destacam que uma análise do comportamento aplicada vai tornar óbvia a importância de alguns pontos. São eles: A demonstração empírica do comportamento modificado; As manipulações experimentais que analisam o que foi responsável pela mudança; A descrição tecnológica exata de todos os procedimentos que contribuíram para tal mudança; A efetividade destes procedimentos em promover mudanças suficientemente importantes e, finalmente, a generalização desta mudança.
    20 anos depois, os mesmos autores retomaram os pontos que definem uma análise aplicada e enfatizaram que o contexto histórico em que a prática se desenvolve é de fundamental importância para estas análises. Diante disso, se tomarmos como base as mudanças contextuais ocorridas de 1987 para 2014, 27 anos depois, que considerações teríamos?
    Em 1968, nos é descrito que uma pesquisa aplicada deveria pautar-se pela relevância social, ou seja, o estudo do assunto é estipulado de acordo com sua importância para humanidade e sociedade. 20 anos depois, nos deparamos com melhores maneiras de descrever o que é relevante socialmente, em todos os âmbitos: desde os problemas relatados por clientes no consultório até os experenciados pela população. E é aí que entre entra a ação do governo que, querendo ou não, atua selecionando (por meio do fomento) o que será estudado ou não. Diante disso, somos confrontados com questões éticas, desde aquelas que abrangem os valores do terapeuta e seu pagamento, até o interesse dos políticos na reeleição versus a preocupação real com os problemas sociais. Entendo que hoje em dia, 27 anos depois, estas questões éticas não só permanecem, como influenciam uma grande parte de pesquisadores na definição da relevância social de pesquisas.
    No que tange ao pragmatismo comportamental, desde 1968 lidamos com as mesmas bases filosóficas para seus desdobramentos práticos. Porém, podemos acompanhar diferenças significativas ao longo do tempo, se pensarmos por exemplo na relação entre o contexto histórico da psicologia e o estudo do comportamento humano. Como os apontamentos do texto de 1987 bem colocam, o ponto em questão é o que mais ilustra o sucesso da análise comportamental: houve um “boom” de práticas e constructos ditos “comportamentais”, inclusive de outras áreas e disciplinas. Porém, podemos notar diferenças entre estas práticas e constructos, no que se refere ao tipo de linguagem evidenciada e o que isso provoca nas respectivas audiências, o que tem relação direta com a sistematicidade de cada uma. 27 anos depois, podemos acrescentar aqui uma série de outras mudanças, inclusive dentro da própria Análise do Comportamento. Caberia discutirmos aqui a questão da “3ª onda” de terapias? Para quem achar que sim, há uma discussão sobre isso disponível no Youtube, com Helio Guilhardi e Roosevelt Starling no XXI Encontro Brasileiro de Psicologia e Medicina Comportamental.
    Há 46 anos, dois pontos eram discutidos separadamente pelos autores: analítico e conceitual. Desde então entendemos que quando há controle sobre as variáveis, um experimentador alcançou a análise de um dado comportamento ou resposta. Para isso, são apresentadas duas técnicas importantes: a reversibilidade (consiste em verificar se a mudança está relacionada ao procedimento) e a linha de base múltipla (em que respostas são quantificadas e medidas com uma sistematicidade temporal para tornar possível a análise das mudanças ocorridas). Em 1987 este ponto é analisado juntamente com a questão da sistematicidade conceitual, ou a relação que se estabelece entre as técnicas utilizadas para alterar o comportamento e os princípios básicos dos quais são derivadas. Se pensarmos neste sentido, atualmente como está (ou como deveria estar) a “comunicação” entre a pesquisa básica e aplicada?
    Em relação à competência dos estudos em análise do comportamento aplicada de demonstrar resultados apropriadamente generalizados, em 1968 entendemos que uma mudança comportamental apresenta generalização quando ela mostra-se durável com o tempo e aparece em outras variedades de ambiente e outros comportamentos relacionados. Nesta época, era uma questão de sobrevivência da disciplina apresentar resultados generalizáveis. Em 1987 (e considero que até os dias atuais), trata-se mais de uma questão de efetividade e aplicação dos resultados. Porém, como colocam os autores, em 1987 ainda não existiam métodos sistemáticos adequados para demonstrar tal questão. Hoje, 27 anos depois, não tenho dúvidas que evoluímos muito neste aspecto, mas será que já conquistamos esta sistematicidade? Neste sentido, penso nas mudanças promovidas na terapia analítico comportamental: não há dúvidas que elas ocorrem, mas sabemos demonstrar empiricamente?
    Neste sentido, outro ponto que compõe a Análise do Comportamento Aplicada é sua efetividade. Já em 1968 entendia-se que, se a aplicação de técnicas comportamentais não produzia efeitos grandes o bastante para utilidades práticas, então a aplicação era considerada falha. Entretanto, 20 anos depois se considerou que a marca desta efetividade pode ser sutil. Diante desta discussão, hoje reflito que a questão da efetividade é relativa de acordo com o tempo e as mudanças contextuais de cada época, sendo então intimamente ligada com o contexto em que ocorrem. Diante disso, entendo que o que é efetivo agora pode não ser (e provavelmente não será) daqui a algumas décadas, e assim, isso deve ser sempre considerado a ponto de termos “em mãos” formas de medidas atualizadas.
    Assim, como exposto ao início do texto, creio na necessidade de sermos profissionais que, após 46 anos, não sejam apenas meros “aplicadores” da Análise do Comportamento, mas que buscam sua evolução. Isso significa não só replicar os conceitos expostos desde o texto de 1968, mas mantê-los em constante atualização, de forma que contribuam da melhor maneira para a prática e consequentemente, para as mudanças que geram melhores condições para a população.
    Referências
    Baer, D. M., Wolf, M. M. & Risley, T. R. (1968). Some current dimensions of applied behavior analysis. Journal of Applied Behavior Analysis 1(4), 91-97.
    Baer, D. M., Wolf, M. M. & Risley, T. R. (1987). Some still-current dimensions of applied behavior analysis. Journal of Applied Behavior Analysis 20(4), 313-327.

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