Algumas reflexões sobre a inserção de animais em nossa comunidade verbal

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Um dos temas contemplados entre os estudiosos do comportamento verbal é um suposto comportamento verbal em seres infra-humanos. Essa questão pode ser abordada mais especificamente por meio da pergunta: “os animais fazem parte da nossa comunidade verbal?”.

Responder uma pergunta dessas exige um amplo conhecimento teórico-filosófico da concepção skinneriana de comportamento verbal. Muitos diriam que sim, afinal meu cachorro responde quando lhe chamo pelo nome e estaria agindo como “ouvinte”. Outros diriam que não pelo fato de que os animais não têm a capacidade de adquirir um repertório verbal efetivo de falante.

Essas duas colocações já desembocariam numa discussão pelo fato de que poderíamos dizer queo animal infra-humano pertence à nossa comunidade verbal por ter a capacidade de responder, topograficamente, de modo similar a um animal humano, quando lhe chamássemos pelo mando adequado, no que concerne ao comportamento de ouvinte: “Rex?” poderia fazer um cachorro responder de maneira muito semelhante a quando mandamos “João?”.

Por outro lado, a defesa de que um animal infra-humano ainda não é capaz de adquirir um repertório comportamental de falante faz sentido. Mesmo que Catania (1999) aponte que tatos poderiam ser ensinados a animais não humanos, como o pombo, esse não seria um falante em algum sentido especial pelo fato de que, em última análise, um falante não é considerado como tal porque tem a capacidade de tatear, mas também por ter a capacidade de aprender a ecoar, transcrever, tomar um ditado, entre outras classes de comportamento verbal já categorizadas por Skinner (1957) e muitos outros autores (Michael, 1982; Skinner, 1986; Vargas, 1982; Matos, 1991; Catania, 1999; Kohlenberg & Tsai, 2001; Vargas, 2007; Abreu & Hübner, 2012; Hübner & Moreira, 2012; Hübner, 2013) E parece que, fisiologicamente falando, pombos e outros animais infra-humanos têm uma limitação motora de emitir algumas dessas respostas, como a de transcrever e tomar ditado, por exemplo.

No texto “Algumas inferências: o comportamento do ouvinte pode ser considerado verbal?”, apontei alguns aspectos que, se estiverem corretos, poderíamos questionar se um animal infra-humano responde como ouvinte de modo efetivo numa contingência verbal, uma vez que para um ouvinte responder de maneira adequada à comunidade verbal que o cerca, precisaria ter adquirido repertórios verbais precedentes ao seu próprio comportamento de falante, que são os repertórios que o farão se comportar como tal nessa comunidade[1], embora Lanza, Starr e Skinner (1980) como citado por Lanza, Starr e Skinner (1982) demonstrem uma “contingência verbal” em que um pombo “faz perguntas” ao outro e ainda apresente reforçamento “agradecendo”, mesmo que o que esteja em voga nesse caso é a capacidade do pombo ter respostas reforçadas e não um episódio verbal total efetivo.

Tudo bem, mas se os seres humanos possuem comportamento verbal, esse comportamento deveria ser observado também em seres infra-humanos, como todo e qualquer outro comportamento que se estude, mesmo que de uma forma menos explícita. Essa argumentação seria válida se o comportamento verbal realmente evoluísse, entretanto, Skinner (1986) salienta que “o comportamento verbal não evolui. Ele é produto de um ambiente verbal (…) e é o ambiente que evolui” (p. 115).

Poderíamos falar, então, não de um comportamento verbal, mas de um “comportamento comunicativo”[2] entre seres infra-humanos, pelo fato de que, como aponta Catania (1999) um animal pode emitir um som gutural que, de acordo com a evolução do ambiente, “avisaria” seus semelhantes que há comida ou um predador nas redondezas, fazendo a ocasião em que todo o bando pudesse fugir ou lutar contra o perigo ou segui-lo até onde há alimento.

Talvez o que realmente poderia distinguir o comportamento “comunicativo” dos animais infra-humanos e o comportamento verbal do homem é que raramente um humano, em condições ideais, sendo verbalmente habilidoso, emite respostas verbais “puras”. Por exemplo, transcrevemos um texto, mas só não compreendemos o que estamos transcrevendo se variáveis intervenientes estiverem influenciando esse comportamento de alguma maneira. Falamos sobre um assunto para uma plateia e frequentemente compreendemos aquilo que estamos falando e aquilo que a plateia nos pergunta. Não é apenas um operante discriminado “puro”, como seria com um grupo de gorilas que fogem do perigo ouvindo o barulho gutural de um gorila costas-prateadas ou como o virar a cabeça citado no exemplo inicial do texto.

O comportamento verbal é um produto do ambiente sociocultural em que estamos inseridos, uma vez que é mediado por uma comunidade verbal, como apontado por Skinner (1957; 1969; 1986), que é um ambiente diferente daquele que animais infra-humanos estão inseridos. Comunicamo-nos com nossos animais de estimação sem saber se eles realmente compreendem aquilo que estamos dizendo, sofremos com eles quando ficam doentes e não têm a capacidade de nos dizer efetivamente o que está acontecendo; em outras palavras, quando ficam doentes e não têm a capacidade de tatear (ou aprender a tatear) eventos privados por uma limitação fisiológica em seu aparto vocal.

Dizer ou não se o comportamento de animais infra-humanos é efetivamente verbal ou apenas “comunicativo” e se eles fazem parte ou não de nossa comunidade verbal daria uma tese, que, obviamente, foge do escopo do presente texto. Todavia, o objetivo principal é fazer com que os analistas do comportamento e os estudantes da Análise do Comportamento, principalmente os interessados no comportamento verbal, reflitam sobre o tema, pois os animais fazem parte do ambiente físico assim como a cadeira que sentamos e o computador que digitamos nossos textos. Mas afirmar que eles fazem parte da nossa comunidade verbal, se levarmos em conta as possíveis limitações apresentadas, seria, no mínimo, imprudente.

Referências

Abreu, P. R.; Hübner, M. M. C. (2012) O comportamento verbal para B. F. Skinner e para S. C. Hayes: uma síntese com base na mediação social arbitrária do reforçamento. Acta Comportamentalia, Guadalajara, v. 20, n. 3, p. 367-381.

Catania, A. C. (1999) Aprendizagem – Comportamento, Linguagem e Cognição. 4 ed. Porto Alegre: Artmed.

Hübner, M. M. C.; Moreira, M. B. (2012) Temas Clássicos da Psicologia sob a ótica da Análise do Comportamento. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.

Hübner, M. M. C. (2013) Comportamento Verbal de Ordem Superior: Análise Teórico-Empírica de Possíveis Efeitos de Autoclíticos sobre o Comportamento Não Verbal. Tese de Livre-Docência apresentada ao Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. São Paulo: USP.

Lanza, R. P.; Starr, J.; Skinner, B. F. (1982) “Lying” in the Pigeon. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, v. 38, n. 2, pp. 201-203.

Matos, M. A. (1991) As Categorias Formais de Comportamento Verbal em Skinner. Anais da XXI Reunião da Sociedade de Psicologia de Ribeirão Preto, Ribeirão Preto, p. 333 – 341.

Michael, J. (1982) Skinner’s Elementary Verbal Relations: Some New Categories. The Analysis of Verbal Behavior, v. 1, pp.1-3.

Skinner, B. F. (1957) Verbal Behavior. Cambridge: B. F. Skinner Foundation.

Skinner, B. F. (1969) Contingencies of Reinforcement – A theoretical analysis. New York: Appleton-Century-Crofts.

Skinner, B. F. (1986) The Evolution of Verbal Behavior. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, v. 45, n. 1, pp. 115-122.

[1] Para melhor compreensão do que se quer dizer com essa colocação, leia o texto na íntegra acessando https://www.comportese.com/2014/03/algumas-inferencias-o-comportamento-do.html

[2] Categorizar um comportamento dessa maneira demandaria um conhecimento teórico-filosófico muito abrangente, não só da teoria skinneriana, mas de teorias da comunicação e ciências biológicas, o que justifica o uso de aspas.

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