O enredo dos dramas internos

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Em sua obra Teatros do Eu, Joyce McDougall procurou desenredar as diferentes cenas por meio das quais o Eu representa seus dramas internos, assim como os roteiros e personagens que constituem o repertório psíquico de cada um. Tais enredos, inscritos desde a primeira infância, desempenham um efeito duradouro sobre a sexualidade e se estendem às manifestações neuróticas e psicossomáticas. A questão fundamental a ser respondida seria: afinal, quem é esse “Eu”? Quatro situações de sofrimento psíquico correspondem a quatro roteiros dramáticos, diferentes entre si: o teatro do interdito (neurose), o do impossível (psicose), o do transicional e o do narcísico.


Utilizando a dialética da lembrança, fantasia e ilusão, o processo analítico propiciará a expressão dessa teatralidade psíquica como um meio de construir novos roteiros e novas cenas que ofereçam melhores chances de sobrevivência psíquica. Tomando a metáfora pelo ângulo do analista, trata-se de um teatro o que seus pacientes almejam partilhar com ele e para o qual é convidado a representar vários papéis, por assim dizer. Mas McDougall adverte: que o analista observe bem “o seu próprio teatro interior e tente interpretá-lo da melhor maneira possível antes de interpretar o de seu paciente” – observação que se coaduna perfeitamente com a necessidade de considerar os aspectos contratransferenciais na condução de uma análise, sobretudo nos casos difíceis.

Como diretor de cena, o analista deve realizar um duplo trabalho de elaboração/perlaboração. Em primeiro lugar, incluir-se no teatro psíquico que se desenrola na relação transferencial e contratransferencial a fim de que sua escuta comporte um trabalho de teorização flutuante em contrapartida à associação livre do paciente. A contratransferência deverá ser tomada como elemento essencial de informação e baliza para o tratamento. Em segundo lugar, uma outra forma de elaboração será exigida, conduzindo o analista a questionar a análise como processo. Árduo e paciente trabalho sobre os movimentos transferenciais e contratransferenciais, de forma a agenciar as forças criativas de Eros em proveito da sobrevivência psíquica.


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