A ilha escondida de Reil: o córtex insular

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    Também conhecida por ilha de Reil1, o córtex insular é uma região do cérebro que fica escondida no sulco lateral, entre o lobo temporal e parietal, sendo dividido em duas regiões anatomicamente distintas a insula anterior (ou frontal) e a insula posterior. Os estudos de neuroimagem demonstram evidencias de que a ínsula está envolvida em quase todo tipo de atividade cerebral que envolva emoções sociais como o sentimento de empatia, percepção gustativa, controle cardíaco e percepção corporal, principalmente a interoceptiva, ou seja, a sensibilidade a variação dos estados internos do corpo como temperatura, dor e movimento nos órgãos internos [1][2].
    Poucos são os livros de neuroanatomia e neurofisiologia que abordem sobre o córtex insular e, isso não é proposital, na verdade essa região ainda é pouco compreendida pelos neurocientistas. Hipóteses e teorias sobre as funções da insula são motivo de intenso debate entre a comunidade neurocientífica, a seguir um pouco das evidencias levantadas nos últimos 10 anos de literatura.

    A INSULA NA EXPRESSÃO DA EMPATIA

    A empatia, definida pela capacidade de perceber e compartilhar estados emocionais nos outros, pode ser processada na insula. Gu (2012) realizou um experimento onde pessoas com lesão na insula anterior eram solicitadas a ver e classificar fotos que sugeriam dor ou ausência de dor, clique aqui e veja a figura 1 que exemplifica o paradigma. Em comparação a pessoas com cérebro intacto, os pacientes com lesão na insula demonstraram grande dificuldade em perceber e responder rapidamente a fotos que sugeriam dor [3].

    Pacientes portadores de demência frontotemporal (FTD), doença neurodegenerativa que afeta regiões temporais e frontais do cérebro, apresenta nos estágios iniciais o definhamento da insula anterior. Curiosamente nesta doença, o componente do comportamento social mais afetado é a capacidade de apresentar empatia. Nos casos documentados há a perda de carisma e carinho por pessoas próximas. Semelhante atrofia no córtex insular é vista em casos de esquizofrenia [4][5]. 
    No córtex insular anterior se encontram as células de von Economo (VEN), células existentes somente em mamíferos altamente sociais como grandes primatas, baleias, golfinhos e elefantes. Neurocientistas acreditam que estas células são responsáveis pela evolução do comportamento social nos mamíferos, curiosamente os transtornos citados anteriormente apresentam como característica em comum problemas de cunho social relacionados a atenção aos semelhantes [4]. 
    A hipótese é de que a insula anterior está envolvida em processos de atenção especializados para o comportamento social, como percepção de expressões faciais e situações onde a empatia pode surgir como sentimento. Desta forma, ela não seria responsável por todos os componentes afetivo, mas sim pela porção de processamento primário da informação que é relacionada a atenção ao semelhantes.
    PERCEPÇÃO DO CORPO NO CÓRTEX INSULAR
    A anosognosia é um estado de consciência onde o paciente apresenta extrema dificuldade em discriminar sua condição médica. Pacientes que sofreram um acidente vascular cerebral (AVC) podem vir a apresentar hemiplegia (paralisia total de um lado do corpo) ou hemiparesia (paralisia parcial de um lado do corpo). Karnath (2005) investigou através de ressonância magnética funcional o cérebro de 27 pacientes que sofreram AVC em um dos hemisférios cerebrais, ele constatou que nos casos que apresentavam sintomas de anosognosia a insula posterior era 62% mais danificada [6][7].
    Carlo Cereda, neurologista do Hospital Universitário de Lausanne na Suíça, conseguiu rastrear dentre 4800 pacientes com AVC, 4 casos de lesão exclusiva na insula posterior. Os sintomas encontrados foram déficits sensoriais para estímulos de dor e temperatura, tonturas e desiquilíbrio motor. O caso mais interessante é de uma senhora de 75 anos que acordou no meio da noite em sua cama, assustada pela sensação de estar sendo tocada por algum estranho, não reconhecendo seu braço e perna esquerda. Conhecida como somatoparafrenia essa é uma condição médica em a pessoa nega a posse de um membro do corpo, estado de percepção alterada do corpo próximo da anosognosia [1].
    INSULA COMO ILHA DA ADICÇÃO?
    Poderia uma lesão cerebral fazer com que um fumante perca o vício no cigarro? Aparentemente a resposta é sim, Naqvi (2010) em sua pesquisa comparou 19 pacientes que tinham lesões no córtex insular com 50 pacientes que possuíam lesões em outras regiões do cérebro, todos os pacientes eram fumantes regulares há mais de dois anos. Os resultados demonstraram que os pacientes com lesão na insula eram até 100 vezes mais propensos a deixar de fumar cigarro, o mais interessante é que esses pacientes simplesmente perderam o impulso de fumar. Naqvi cita um paciente que ao ser perguntado do motivo para ter parado de fumar, relatou sentir que seu “corpo havia esquecido como era o desejo de fumar” [8].
    O envolvimento do córtex insular no controle da percepção corporal está ligado a relação direta entre insula anterior e insula posterior. A região posterior recebe conexões provindas diretamente dos órgãos internos e da pele, construindo desta forma uma representação do estado atual em que o corpo se encontra. O senso de que pertencimento do corpo estaria mais ligado a regiões de processamento emocional. Desta forma, a insula posterior ao receber dados sensoriais acerca do status atual do corpo, enviaria estas informações para a porção anterior da insula, que ligada a funções afetivas e emocionais completaria o processamento, gerando o sentimento de pertencimento do corpo [7].
    O rompimento desta comunicação resultaria nas condições médicas relativas a percepção corporal acima, uma vez que o indivíduo teria problemas em perceber o próprio corpo ou até mesmo possuir uma percepção alterada deste, onde seus membros não fariam parte do seu corpo. No caso da perda da vontade de fumar, o indivíduo aprende a discriminar que está em privação do cigarro através de pistas que seu corpo oferece, na ausência de um processamento correto das informações corporais na insula é possível que este passe a não sentir as mudanças corporais que indicam a necessidade de fumar [7][8].
    UMA VASTA ILHA A SE EXPLORAR
    Apesar de todas as descobertas citadas no texto apontarem para possíveis papeis da insula, pouco se sabe sobre sua real função ou funções. O mecanismo de neurotransmissores e seu papel nas doenças mentais ainda permanece um mistério a ser explorado. O fato de que lesões cerebrais exclusivas ao córtex insular são extremamente raras, dificulta o entendimento de sua funcionalidade. 
    Em neurociências o estudo das lesões cerebrais é importante para delimitar as funções de uma área específica. Muito esta sendo investido para desvendar o mapa de conexões entre as regiões cerebrais, o governo norte americano está investindo bilhões em um projeto chamado “Human Connectome”, que pretende financiar neurocientistas de várias áreas em suas pesquisas para mapear todas as conexões existentes no cérebro humano. O córtex insular está entre as prioridades deste ambicioso projeto, é possível que em breve descobertas mais precisas sobre o real papel do córtex insular no comportamento humano sejam relevadas. 
    1 Também é conhecida por ilha de Reil, nome dado em homenagem ao médico e fisiologista alemão Johan Christian Reil, o primeiro a descrever a região anatomicamente.
    REFERÊNCIAS
    [1] C. Cereda, J. Ghika, P. Maeder, and J. Bogousslavsky, “Strokes restricted to the insular cortex.,” Neurology, vol. 59, no. 12, pp. 1950–5, Dec. 2002.
    [2] F. Cauda, T. Costa, D. M. E. Torta, K. Sacco, F. D’Agata, S. Duca, G. Geminiani, P. T. Fox, and A. Vercelli, “Meta-analytic clustering of the insular cortex: characterizing the meta-analytic connectivity of the insula when involved in active tasks.,” NeuroImage, vol. 62, no. 1, pp. 343–55, Aug. 2012.
    [3] X. Gu, Z. Gao, X. Wang, X. Liu, R. T. Knight, P. R. Hof, and J. Fan, “Anterior insular cortex is necessary for empathetic pain perception.,” Brain : a journal of neurology, vol. 135, no. Pt 9, pp. 2726–35, Sep. 2012.
    [4] M. Zanotti da Silva, “As células de Von Economo e sua importância na evolução do comportamento social em mamíferos,” Comport-se – Psicologia Científica, 2013. [Online]. Available: https://comportese.com/2013/07/as-celulas-de-von-economo-e-sua-importancia-na-evolucao-do-comportamento-social-em-mamiferos/. [Accessed: 20-Sep-2013].
    [5] W. W. Seeley, “Anterior insula degeneration in frontotemporal dementia.,” Brain structure & function, vol. 214, no. 5–6, pp. 465–75, Jun. 2010.
    [6] R. Vocat, A. Saj, and P. Vuilleumier, “The riddle of anosognosia: Does unawareness of hemiplegia involve a failure to update beliefs?,” Cortex; a journal devoted to the study of the nervous system and behavior, vol. null, no. null, Nov. 2012.
    [7] H.-O. Karnath, B. Baier, and T. Nägele, “Awareness of the functioning of one’s own limbs mediated by the insular cortex?,” The Journal of neuroscience : the official journal of the Society for Neuroscience, vol. 25, no. 31, pp. 7134–8, Aug. 2005.
    [8] N. H. Naqvi and A. Bechara, “The insula and drug addiction: an interoceptive view of pleasure, urges, and decision-making.,” Brain structure & function, vol. 214, no. 5–6, pp. 435–50, Jun. 2010. 

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