Acessibilidade e deficiência: o que o analista do comportamento tem a ver com esta relação?

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    Vivemos um período delicado no que se diz respeito à questão dos direitos humanos. Muito já se cresceu, porém, sem dúvidas, há muito que se desenvolver neste aspecto. Recentemente, em uma palestra sobre inclusão das pessoas com deficiência no mercado de trabalho, ouvi uma colocação bastante interessante de um dos palestrantes. Ele, deficiente físico, falava sobre as mudanças do conceito de deficiência e expôs a seguinte questão: “a deficiência só aparece quando encontro barreiras que a caracterizam como tal.” O que ele quis dizer foi que a deficiência (no sentido de desigualdade excludente) só se caracteriza desta forma porque não estamos adaptados para conviver com ela: se estivéssemos, o que chamamos de deficiência seria apenas mais uma característica de cada indivíduo. Isso quer dizer que, o conceito de deficiência está intimamente ligado com o conceito de acessibilidade. Quanto maior a integridade do acesso (em todos os sentidos, não apenas em sua questão física) as pessoas com deficiência têm aos ambientes que frequentam, menor a chance da deficiência se caracterizar como uma desigualdade.

    Quando descrevo “acessibilidade” quero fazê-la entender em todos os seus sentidos. Além da acessibilidade física (como rampas de acesso, por exemplo), que é essencial, quero pensar aqui sobre a acessibilidade de um modo geral em nossa cultura. Em estarmos preparados para promover o acesso íntegro de pessoas com deficiência aos mesmos ambientes que frequentamos. Certo, mas o que a Análise do Comportamento tem a ver com tudo isso?

    Tendo em vista que o objeto de estudo da análise do comportamento depende, em grande parte das interações entre sujeito e ambiente, e sendo este ambiente formado por outros seres humanos, logo, grande parte do comportamento humano é determinado por outros homens e mulheres. Po­demos afirmar, portanto, que o interesse especial da Análise do Comportamento pelo comportamento humano a obriga a tratar de fenômenos sociais. (Sampaio & Andery, 2010).

    Segundo Andery (2011), as publicações de Skinner tais como os livros Beyond Freedom and Dignity (1971) e About Behaviorism (1974) e o artigo “Selection by Consequences” (1981) reafirmaram a necessidade de se tomar a cultura e as relações e fenômenos sociais como problema de estudo na análise do compor­tamento e ofereceram um caminho interpretativo para as difíceis questões do modelo de causalidade e da natureza dos fenômenos sociais humanos.

    Diante disso, conseguimos entender a relação existente entre o conceito de “acessibilidade” que estamos aqui discutindo, com as contingências culturais que controlam o comportamento dos indivíduos. Porém, segundo Skinner (1953), quando falamos de um ambiente social como a “cultura” de um grupo, este termo pode supor espírito ou atmosfera ou algo com dimensões igualmente não físicas. Nossa análise do ambiente social, entretanto, fornece uma explicação dos aspectos essenciais da cultura do esquema de referência de uma ciência natural, e então, permite-nos não apenas entender o efeito da cultura, mas, alterar o planejamento cultural (Skinner, 1953).

    Assim, como bem coloca Skinner, uma análise do ambiente social nos permite entender o efeito de contingências que produzem as desigualdades, que por sua vez nos ajuda a modificá-las, alterando seu planejamento. É possível que um primeiro passo para isso, seria entendermos o conceito de preconceito para a análise do comportamento, visto que ele o principal fator contribuinte para entendermos o “diferente” como “desigual” e que assim caracteriza um processo de exclusão social. O preconceito, apesar de se manifestar individualmente, surge no processo de socialização e aí se dá a importância de entendermos o efeito da cultura diante disso.

    Uma das formas em que podemos analisar o preconceito é como um comportamento governado por regras. Regras podem ser definidas como descrições de contingências. Segundo Skinner (1974), quando os homens passaram a ter um novo tipo de relação com o mundo, o que chamamos de comportamento verbal, abriu-se uma nova possibilidade: além de se relacionar com o ambiente, e ser alterado por estas relações, era possível descrever o que estava ocorrendo, ou seja, analisar estas contingências. Com isso, as respostas de descrever contingências podem controlar o comportamento de outras pessoas: estas respostas produzem uma consequência especial, que é a produção de novas respostas no repertório de outras pessoas (Sério, Andery, Gioia & Micheletto 2008).

    Este tipo de comportamento, o comportamento governado por regras, tem vantagens importantes para os seres humanos. A primeira delas é a economia de tempo em geração de novas respostas (aprendemos “mais rápido” quando nos é descrito uma contingência). Outra vantagem é evitar danos que poderiam ocorrer caso a geração de novas respostas ocorresse por modelagem. Além de que, a descrição de contingências promove a geração de respostas nas quais as consequências produzidas por modelagem seriam muito atrasadas (Sério, Andery, Gioia & Micheletto 2008). Porém, este tipo de comportamento pode produzir também desvantagens. Quando nos comportamos na maior parte do tempo sob controle de regras, não entramos em contato com as consequências das contingências que vivemos, o que muitas vezes é descrito como “insensibilidade as contingências”. Esta “insensibilidade às contingências” promove o que chamamos no senso comum de “agir sem reflexão”, que por sua vez é característica marcante do conceito de preconceito.

    Vivemos em uma sociedade que já entendeu a deficiência como castigo divino. Como já abordado no texto “Síndrome de Down e Habilidades Sociais”, estes estigmas e rótulos foram construídos socialmente desde a antiguidade, em que as crianças deficientes eram abandonadas ao relento. Já na Idade Média, a deficiência era entendida como um fenômeno metafísico e espiritual devido à influência da Igreja, então era considerada uma questão “divina” ou “demoníaca” e esta concepção, de certa forma, conduzia o modo de tratamento das pessoas deficientes.

    Assim, quando vivemos sob controle destas descrições de contingências construídas socialmente desde a antiguidade e que ainda prevalecem em algum nível em nossa cultura, passamos a “agir sem reflexão”. Quando acreditamos que a deficiência ainda é passível de exclusão por estar diretamente atrelada apenas as incapacidades e vivemos sob controle disso, estamos “insensíveis” as contingências.

    Um bom caso para exemplificar esta análise é uma notícia veiculada recentemente da mídia:

    “O psicólogo Cláudio Luciano Dusik, 36, defendeu na manhã da última terça-feira (26) dissertação de mestrado em que aplica a metodologia que ele mesmo criou para superar as limitações de uma doença congênita. Dusik, 36, tem atrofia muscular espinhal, doença genética que causa degeneração dos neurônios motores. A dissertação “Tecnologia virtual silábico-alfabético: tecnologia assistiva para pessoas com deficiência” foi defendida no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Ele foi o primeiro aluno com deficiência física a concluir mestrado no programa.”

    (disponível em: http://www.inclusive.org.br/?p=24372)

    Casos como estes vão de encontro às exclusões construídas socialmente. Na notícia, há um depoimento da mãe de Cláudio, Elza Arnoldo, que diz “Ele é um exemplo de que é possível às pessoas com deficiência vencer o medo, a vergonha e o receio e enfrentar as batalhas do mundo. Quando criança, os médicos diziam que o Cláudio teria de sete a quatorze anos de vida. Vivíamos em luto. Ele foi para a escola só para brincar e ter amigos. Hoje está defendendo seu mestrado”.

    Assim, desconstruir regras compostas culturalmente que dão origem ao preconceito pode ser um primeiro passo para promover o acesso íntegro das pessoas com deficiência na sociedade. Acredito que esta reflexão possa se estender não apenas as pessoas com deficiência, mas também a outros grupos-alvo de preconceitos, a quem são dirigidas críticas sem fundamento algum. Diante disso, nós analistas do comportamento, temos total capacidade de utilizar de nossos conhecimentos para sermos úteis, promovendo mudanças significativas e consistentes, e como disse Skinner, “alterar o planejamento cultural”.

    Referências

    Andery, M. A. P. A. (2011). Comportamento e cultura na perspectiva da análise do comportamento. Perspectivas em Análise do Comportamento 2 (2).

    Sampaio, A. A. S. & Andery, M. A P. A. (2010). Comportamento Social, Produção Agregada e Prática Cultural:Uma Análise Comportamental de Fenômenos Sociais.. Psicologia Teoria e Pesquisa 26 (1).

    Sério, T. M, Andery, M. A., Gioia, P. S. & Micheletto N. (2008). Controle de estímulos e comportamento operante: uma (nova) introdução (3ª Ed). São Paulo: Educ.

    Skinner, B. F (1953). Ciência e Comportamento Humano (11a ed.). São Paulo, Martins Fontes.

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