Vocação-professor e suas consequências

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    A docência não é uma vocação. Ao contrário, tornar-se professor exige uma longa e exaustiva preparação acadêmica. O termo “vocacional”, além de sua concepção mentalista, supõe que exista um dom a ser descoberto por alguém capacitado (Moura, 2001). Encarar a prática docente como vocação, inclusive com argumentos sexistas, retira o foco da formação profissional e do desenvolvimento de tecnologias de ensino, atrapalhando sobremaneira o cenário educacional do País. Como a prática da docência abrange uma infinidade de áreas, o texto em questão tem como recorte a educação infantil, o que não impede o leitor de generalizar a análise para outros contextos. 
    Inicialmente, a educação infantil brasileira esteve sob a responsabilidade exclusiva da família. As primeiras tentativas de organização de creches, asilos e orfanatos surgiram com um caráter assistencialista, com o intuito de auxiliar as mulheres que trabalhavam fora de casa e as viúvas desamparadas. Posteriormente, com o processo de implantação da industrialização no País, a inserção da mão-de-obra feminina no mercado de trabalho impulsionou a criação de instituições de educação e cuidados para seus filhos. (Paschoal & Machado, 2009) 
    Segundo dados da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (2003), atualmente no Brasil a maioria dos educadores da educação é mulher e possui entre 25 e 59 anos. Para Chamon (2005), o alto índice de participação das mulheres na educação infantil, está relacionado ao discurso do amor, da docilidade e da vocação, como estratégia para encobrir as condições concretas e as concepções de educação nas quais a prática docente acontece. 
    Ao darmos uma dimensão missionária do trabalho docente – herança de sua fundação no Brasil – produzimos como consequência a desvalorização monetária do trabalho deste profissional, e, levando em consideração a função do dinheiro como reforçador generalizado em nossa sociedade, estaremos produzindo profissionais desmotivados. Além disso, a atribuição de um caráter vocacional ao trabalho feminino reforça os estereótipos sociais sobre as relações de gênero e de classe. 
    Em 2011, o atual Governador do Ceará, Cid Gomes, em virtude de uma greve deflagrada pelos professores da rede pública, declarou que os mesmos deveriam trabalhar por amor, e não por dinheiro¹. A opinião do político vai ao encontro da “vocacionalização” da docência. Ora bolas, se o sujeito tem um dom, não necessitando de formação adequada para praticá-lo, por qual razão deveríamos oferecer um bom salário? 
    Para B. F. Skinner, principal teórico da Análise do Comportamento, o professor é o responsável por planejar as contingências de reforço a fim de “facilitar a aprendizagem” (Skinner, 1972). Compete ao professor formular os objetivos e dispor as condições necessárias para que o aluno se comporte de acordo com o que é proposto de modo a produzir consequências que contribuam para a manutenção do comportamento emitido (Zanotto, 2000). Definir previamente o que é ensinar, como ensinar e o que ensinar, não é uma tarefa fácil. A prática do educador, principalmente na contemporaneidade, exige um dinamismo incomum. A todo momento surgem novas tecnologias de ensino e novas diretrizes educacionais, impelindo os docentes a se atualizarem. 
    Estudar os processos de aprendizagem e investir na formação dos professores é um importante passo para melhorarmos os níveis educacionais brasileiros. Uma ciência do comportamento que oportuniza o estudo dos determinantes que levam alguém a se tornar professor e dos fatores que fazem com que alguém se mantenha na docência, pode ser útil para ajudar a pôr fim em ideias convenientemente equivocadas e na criação de políticas públicas compatíveis com a importante missão que estes profissionais exercem em nossa cultura. 
    Referências Bibliográficas 
    Chamon, M.(2005) Trajetória da feminização do magistério. Ambigüidades e Conflitos. Belo Horizonte. Autêntica. 
    Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (2003). Pesquisa Retrato da Escola 3 – A realidade sem retoques da Educação no Brasil. Volume 3. Brasília-DF. 
    Moura, C. B. (2001). Orientação profissional sob o enfoque da análise do comportamento. Londrina. UEL. 
    Paschoal, J. D.; Machado, M. C. G. (2009). A história da educação infantil no Brasil: avanços, Retrocessos e desafios dessa modalidade educacional. Revista HISTEDBR On-line, nº33. Campinas – SP 
    Skinner, B. F. (1972). Tecnologia do ensino. Tradução de Rodolpho Azzi. São Paulo. EPU.. 
    Zanotto, M. L. B. (2000). Formação de Professores: A contribuição da Análise do Comportamento. São Paulo. EDUC.

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