Biologia e Análise do Comportamento: Diálogos sobre Causalidade – Parte 2: Nikolaas Tinbergen

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Nas ciências biológicas, este é um dos mais conhecidos. Nikolaas Tinbergen, ou como alguns o chamam “Niko Tinbergen” é um dos biólogos mais importantes das ciências naturais, e a relevância de seus estudos alcança também outras áreas do conhecimento. Nesta segunda parte da série, abordarei algumas questões que julgo importantes do trabalho de Tinbergen para nossa proposta aqui: a questão da causalidade no estudo do comportamento.

Nikolaas Tinbergen

Nascido em Den Haag, terceira maior cidade da Holanda depois de Amsterdam e Roterdã, o pequeno Niko veio ao mundo três anos depois de Skinner, no dia 15 de abril de 1907, o terceiro dos cinco filhos do professor Dirk C. Tinbergen e de Jeannette van Eek. Em suas próprias palavras, “éramos uma família feliz e harmoniosa. Minha mãe era uma pessoa calorosa e impulsiva; meu pai – um professor de gramática, mestre em história e língua holandesa – foi devoto à sua família, um trabalhador empenhado e homem intelectualmente incentivador, cheio de bem, com humor tímido e grande alegria de viver” (Tinbergen, 1973). 
 
Tinbergen não se dizia um aluno muito aplicado desde a tenra idade, estudando sempre o necessário e com menor esforço possível para ser aprovado “de raspão” em suas obrigações escolares até o colegial. Mesmo na universidade durante sua graduação, Tinbergen não deixou de investir tempo em seus hobbies de camping, patinação e jogos de hóquei. Mas desde cedo, o comportamento dos animais era para ele uma interrogação constante, e foi exatamente sua inquietação para compreender o porquê e o como do funcionamento das ações dos animais que o levaram a estudar ciências biológicas em 1925 na Leiden University. Estudou o comportamento de aves, insetos e mamíferos – além de observar também o comportamento humano numa comunidade primitiva de caçadores-coletores esquimós, “quando tentei reconstruir a forma mais provável de vida do homem ancestral” (Tinbergen, 1973), em suas próprias palavras. 
 
Em 1936 conheceu o etólogo Konrad Lorenz em um simpósio em sua própria universidade quando Lorenz veio palestrar sobre instintos. Após várias conversas, Lorenz o convidou para desenvolver pesquisas em seu laboratório próximo à Viena durante quatro meses, tempo este que seria importante para parcerias futuras e uma amizade duradoura e verdadeira. Dois anos depois a Fundação Holanda-América financiou passagens para Nova York, a qual Tinbergen utilizou e ficou por quatro meses nos Estados Unidos. “Eu recebia por taxas de palestras dadas num inglês um pouco hesitante, vivendo com um dólar por dia (40 centavos para um quarto, 50 centavos de comida por dia, e duas moedas para o metrô). Durante essa visita conheci Ernst Mayr, Frank A. Beach, Ted Schneirla, Robert M. Yerkes (que me ofereceu hospitalidade em Yale e Orange Park, na Flórida) e muitos outros. Eu estava francamente perplexo com o que vi de Psicologia Americana. Eu naveguei para casa logo após a crise de Munique, me preparando para os anos negros que sabíamos estarem vindo à frente” (Tinbergen, 1973). Seu contato e colaboração com Lorenz foram interrompidos com a eclosão da Segunda Guerra Mundial. Durante este período, Tinbergen passou dois anos refém dos alemães, longe e sem contato com sua família que, sob os cuidados de sua esposa, sofreu tempos difíceis sob domínio nazista. Logo após a guerra, Tinbergen foi mais uma vez convidado a ir aos Estados Unidos e para a Grã-Bretanha, para falar do trabalho sobre comportamento animal. 
 
Suas amizades com Ernest Mayr e David Lack foram decisivas para o despertar de seus interesses posteriores em evolução e ecologia. Os cursos ministrados nos Estados Unidos foram úteis para o desenvolvimento do livro “The Study of Instinct” (1951). Naquele mesmo ano, Tinbergen foi convidado para compor o Instituto Edward Grey (centro de ensino e pesquisa em comportamento animal) como professor na Universidade de Oxford. Foi ali que pôde desenvolver pesquisas de aplicação dos métodos e conhecimentos da etologia ao comportamento humano. Tinbergen recebeu vários prêmios e títulos por sua produção intelectual, e nos últimos anos de sua vida dedicou-se a estudar o autismo infantil e aspectos de seu desenvolvimento. Em 1973 recebeu o prêmio Nobel de fisiologia juntamente com Konrad Lorenz e Karl von Frisch “por suas descobertas sobre a organização e levantamento de padrões de comportamento individuais e sociais” (Nobel Prize, 1973). Sua conferência de recebimento do Nobel pode ser visto aqui!

Comportamento, explicação e causalidade

Em 1963, Tinbergen publicou um de seus artigos mais importantes denominado “On aims and methods of ethology” (“Sobre os objetivos e métodos da Etologia”) (Tinberguen, 1963), dois anos depois da publicação de Mayr (1961) sobre a questão da causalidade nas Ciências Biológicas. O principal escopo de Tinbergen era discutir as questões epistemológicas da Etologia e os rumos que esta área da Biologia estava tomando, dadas as publicações, métodos e objetivos que a pesquisa em geral estava tomando. É neste artigo que Tinbergen aborda os diferentes níveis de análise dentro da etologia, abordagem esta que posteriormente os biólogos evolucionistas denominarão como “as quatro questões de Tinbergen”.

Neste artigo, Tinbergen discute que percebera algumas supostas divergências nas conclusões de diferentes pesquisas de mesmo objetivo. E a partir daí Tinbergen explica que não se tratam de conclusões divergentes, mas complementares, já que abordam diferentes níveis de análise. Uma mesma pergunta pode ser respondida através de quatro diferentes perspectivas. Por exemplo: o que leva uma pessoa a abrir mão de seus benefícios em prol de outra? O que a faz se comportar desta maneira? Tinbergen afirma que há quatro possibilidades de resposta:
  1. Causa imediata ou próxima: Está relacionada aos mecanismos fisiológicos inerentes ao funcionamento do sistema nervoso central na emissão de um comportamento. Um exemplo seria descobrir quais neurotransmissores estão envolvidos e quais áreas do cérebro são ativadas quando uma pessoa ajuda a salvar uma família que sofre as destruições de uma enchente.
  2. Ontogênese ou Ontogenia: Esta é a mais conhecida dos analistas do comportamento. Refere-se aos fatores e contextos de desenvolvimento daquele comportamento ao longo da história de vida do sujeito. A pergunta a ser respondida seria: quais fatores do ambiente de desenvolvimento do sujeito selecionaram tal comportamento?
  3. Filogênese ou Causa filogenética: Está relacionada ao estudo da história evolutiva do comportamento em questão, o que envolve pesquisas comparativas deste mesmo comportamento entre as diferentes espécies. No caso dos seres humanos, as comparações são realizadas com os demais primatas, mais próximos filogeneticamente dos homens. Aqui, Tinbergen parte do pressuposto de que comportamentos de diferentes espécies são homólogos e não análogos, dada a concepção evolucionista de continuidade das espécies por seleção natural. Pode-se traçar então, o caminho evolutivo do comportamento em questão. Um exemplo seria o comportamento materno. Diferentes indivíduos de espécies distintas apresentam este comportamento. As perguntas a serem respondidas seriam: quais as questões e os fatores comuns relacionados à emissão do comportamento parental através das espécies? Quais semelhanças? Quais variações? O que define tais variações?
  4. Causa última ou final: É aquela relacionada ao alcance dos objetivos filogenéticos fundamentais, a saber, sobrevivência e reprodução. As perguntas a serem respondidas são: Por que tal comportamento confere maior possibilidade de sobrevivência e reprodução aos indivíduos que o emitem? Quais processos seletivos modelaram atuaram na modelagem deste comportamento em termos evolutivos? Qual a utilidade passada e presente deste comportamentos no que diz respeito à sobrevivência e reprodução?
Assim sendo, um mesmo comportamento pode ser estudado através de quatro diferentes perspectivas, as quais são complementares e não concorrentes. O comportamento altruísta poderia ser um exemplo. A explicação das causas próximas está relacionada aos mecanismos neurofisiológicos envolvidos neste processo. Sabe-se por exemplo, que esses mecanismos são os mesmos relacionados ao que conhecemos como “empatia” (capacidade de se identificar com os pensamentos e sentimentos dos outros), em que a percepção da dor de outra pessoa ativa os mecanismos neurofisiológicos de dor da pessoa que percebe, produzindo uma semelhança parcial cerebral entre “sentir a dor do outro indivíduo” e vivê-la em si mesmo (Jackson, Meltzoff & Decety, 2005). 
 
Já a explicação ontogenética do comportamento altruísta investiga a história deste comportamento ao longo da vida do indivíduo e as contingências que o selecionaram (através da seleção por consequências reforçadoras). De um modo geral, pais ou cuidadores ensinam desde cedo a criança a ajudar os colegas, comportamentos esses seguidos de reforçadores sociais (palavras de incentivo, demonstração de afeto e orgulho pelo comportamento do filho). 
 
Se for explicado pela causa filogenética, buscaremos a emissão deste comportamento em outras espécies a fim de entender se ele possui uma história evolutiva e que fatores contribuíram para sua seleção. Preston e Waal (2002) propõem que a filogênese da empatia e do altruísmo nos primatas “devem acompanhar a extensão das fases do ciclo de vida (life-history) e do desenvolvimento altricial e o aumento das funções do córtex pré-frontal” (Izar, 2009). 
 
E num estudo de causas últimas, nosso esforço seria entender se existem e quais as relações do comportamento altruísta com a sobrevivência e reprodução. Patrícia Izar (2009) explica: “Hamilton (1964) mostrou que a evolução do altruísmo é possível se os indivíduos beneficiados pelo comportamento forem parentes do individuo altruísta, especialmente quando o número de descendentes diretos (filhos) que deixaram de ser gerados em consequência do comportamento. Trivers (1971) sugeriu que a exibição, entre indivíduos não-aparentados, de comportamentos altruístas pouco custosos para o doador e de grande benefício para o receptor pode ser selecionada se aumentar a probabilidade de o indivíduo altruísta contar com a ajuda recíproca de outros indivíduos no futuro” (p. 23).

Skinner leu e citou Tinbergen

Em algumas de suas produções, Skinner faz citações a Tinbergen. Eis aqui alguns exemplos. No texto “A filogênese e a ontogênese do comportamento”, contido em “Contingencies of reinforcement” (Skinner, 1969), Skinner fala sobre as questões relativas à causalidade do comportamento e menciona alguns importantes etólogos que se utilizam de termos mentalistas para explicar comportamentos selecionados filogeneticamente. Dentre eles está Tinbergen com a frase “as gaivotas mostram uma falta de insight quanto às finalidades de suas atividades”, que está em seu livro “The Herring Gull’s World: A study of the social behavior of birds”, publicado no mesmo ano em que Skinner publicou “Ciência e Comportamento Humano”, 1953.
 
Em outro momento, Skinner cita “The study of Instinct” (Tinbergen, 1951), no apêndice do livro “Verbal Behaviour”, “A comunidade verbal”. Ao levantar uma série de questionamentos acerca dos processos de gênese e desenvolvimento do comportamento verbal e de como poderia um ambiente verbal (comunidade) surgir de fontes não verbais, Skinner cita os trabalhos de Tinbergen sobre os sistemas de comunicação dos animais tanto por vocalizações como por gestos.
Por último, Skinner, em “Why I am not a Cognitive Psychologist” (Skinner, 1977), também numa discussão acerca da causalidade do comportamento, menciona uma revisão de um livro de Tinbergen (não citado) feita por C. H. Waddington (1974) sobre as causas fictícias dos comportamentos dos animais.

Referências:

Hamilton, W. D. (1964). The genetical  evolution of social behaviour I.  Journal of Theoretical Biology, 7, 1-16.
Izar, P. (2009). Ambiente de Adaptação Evolutiva. In E. Otta & M. E. Yamamoto (Eds.), Fundamentos de Psicologia: Psicologia Evolucionista (1 ed., pp. 22-32). Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.
Jackson, P. L., Meltzoff, A. N., Decety, J. (2005). How do we perceive the pain of others? A window into the neural processes involved in empathy. NeuroImage,24, 771–779. Disponível em: http://ilabs.washington.edu/meltzoff/pdf/05JacksonMeltzoff_NeurIm.pdf
Mayr, E. (1961). Cause and Effect in Biology: Kinds of causes, predictability, and teleology are viewed by a practicing biologist. Science, 134(3489), 1501-1506.
Nobel Prize. (1973). The Nobel Prize in Physiology or Medicine 1973, Nobelprize.org.
Preston, S. D. & de Waal, F. B. M. (2002). Empathy: Its ultimate and proximate bases. Behavioral and Brain Science, 25:1-20.
Skinner, B. F. (1953). Science and human behavior. New York: Free Press.
Skinner, B. F. (1957). Verbal behavior. New York: Appleton-Century-Crofts.
Skinner, B. F. (1969). The phylogeny and ontogeny of behavior. In B. F. Skinner, Contingencies of reinforcement: A theoretical analysis (pp. 172-217). New York: Appleton-Century-Crofts. (Trabalho originalmente publicado em 1966).
Skinner, B. F. (1977). Why I am not a Cognitive Psychologist. Behaviorism, 5(2), 1-10.
Tinbergen, N. (1951). The study of Instinct. London: Oxford University Press.
Tinbergen, N. (1953). The Herring Gull’s World: A study of the social behavior of birds. London: Collins.
Tinbergen, N. (1963). On aims and methods of ethology. Zeitschrift für Tierpsychologie 20(4):410-433.
Tinbergen, N. (1973). “Nikolaas Tinbergen – Autobiography”. Nobelprize.org
Trivers, R. (1971). The evolution of reciprocal altruism. Quarterly Review of Biology, 46, 35-57.
Waddington, C. H. (1974). New York Review, February, 3.
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Tiago Zortea
Possui graduação em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo, onde atuou como pesquisador-bolsista do Ministério da Educação pelo Programa de Educação Tutorial em Psicologia. Possui mestrado em Psicologia pela mesma instituição na área de Evolução e Etologia Humana (Bolsista CAPES). Possui formação em Terapia Comportamental pelo Instituto de Terapia por Contingências de Reforçamento (ITCR) e atua em consultório particular no trabalho com crianças, adolescentes e adultos. Atualmente é pesquisador de PhD na University of Glasgow (Escócia, Reino Unido), membro do Suicidal Behaviour Research Laboratory, onde pesquisa sobre comportamento suicida e práticas parentais. É membro da British Psychological Society e revisor do periódico Archives of Suicide Research (International Academy of Suicide Research). Trabalha com os seguintes temas/áreas: Suicídio; Comportamento Suicida; Autolesão; Prevenção ao suicídio; Práticas parentais; Psicologia Clínica; Análise do Comportamento; Etologia Humana; Investimento Parental.
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